Savassi FM: atitude virou frequência e a juventude ocupou o rádio

No fim dos anos 1990 a rádio comunitária em Belo Horizonte provou que comunicação também pode ser ato de coragem

Savassi FM quando atitude virou frequência e a juventude ocupou o rádio

“Você aí que está descendo a BR, freie seu automóvel para não bater... Para tudo. Põe o papai e a mamãe na sala, porque agora é uma hora só com Rolling Stones!” Locutor da Radio Savassi FM

Um país aprendendo a falar

No final dos anos 1990, o Brasil começava a respirar com mais naturalidade o exercício da democracia. O debate público ganhava espaço, e a sociedade passava a criar canais livres de opinião, sugestão e denúncia. Nesse cenário, surgiram as rádios comunitárias, um movimento alternativo de comunicação que unia baixo custo de produção e liberdade quase irrestrita de conteúdo, abrindo espaço para vozes que não cabiam no dial tradicional.

A arrebentação até o rádio

Foi nesse contexto que Gustavo Ziller, Rodrigo Vilarinho, Franklin Valadares e Léo Proza decidiram “dropar” nas ondas do rádio. Jovens, inquietos e conectados à cultura urbana, eles lançaram, em março de 1998, uma das primeiras rádios comunitárias homologadas e outorgadas de Belo Horizonte, totalmente colaborativa e voltada para estudantes: a Associação Comunitária Estudantil da Zona Sul de Belo Horizonte, que ficaria conhecida como Savassi FM.

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Uma rádio sem dono e com propósito

A Savassi FM nasceu sem proprietário no sentido tradicional. “A rádio foi montada por nós, mas não tinha um dono. Era feita para os jovens”, resume Vilarinho. O diferencial estava na lógica invertida: o jabá não servia à rádio, mas ao público. A programação musical era construída a partir das coleções pessoais dos próprios integrantes e do som de bandas independentes, criando um espaço genuíno de descoberta e circulação cultural.

Cultura local no centro do dial

Desde o início, a rádio apostou na valorização da cena cultural de Belo Horizonte. Programas como “Põe na Roda” levavam produtores culturais e artistas consagrados para discutir a vida cultural da cidade. O “Make it Funk” extrapolou o estúdio e se transformou no Movimento Balanço. Já o “Espaço Livre” abriu microfone para músicos independentes, indo além do rádio e chegando à TV e às páginas do jornal Estado de Minas.

Parcerias que ampliaram o alcance

O projeto ganhou força com parcerias fundamentais. Alberto Blanco e Giuliano Laucas foram os primeiros a acreditar financeiramente no poder da rádio junto ao público jovem. A colaboração de músicos e agitadores culturais como Juliano Mourão e Bauxita ajudou a criar um ecossistema fértil, onde ideias ousadas encontravam espaço para acontecer.

A cidade como palco

Uma das iniciativas mais marcantes da Savassi FM foi a realização da Semana Mundial do Rock por três anos consecutivos. Shows gratuitos espalhados pela cidade, oficinas de música, arrecadação de alimentos não perecíveis e um grande show final na Praça da Savassi, eleita pelos ouvintes, transformaram o rádio em ação concreta no espaço urbano.

O silêncio imposto

Mesmo sendo uma rádio comunitária, a Savassi FM acabou fechada sob acusação de pirataria. “Não estávamos completamente adequados. Queríamos fazer, mas não sabíamos como. Erramos por ingenuidade”, reconhece Gustavo Ziller. Não foi um ato de invasão deliberada, mas um tropeço comum a quem experimenta territórios novos antes que o caminho esteja totalmente mapeado.

A lição que ficou no ar

O telefone não é mais o mesmo, e o prédio da Avenida Nossa Senhora do Carmo já não abriga a rádio. Ainda assim, a Savassi FM deixou algo que não se apaga. Provou que grandes ideias carregam riscos e que atitude tem preço, mas também legado. Em um tempo em que a coragem parece mais rara, eles deixaram uma mensagem simples e poderosa: não espere. Faça.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

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