Por que sentimos atração instantânea por algumas pessoas?
Cheiro, aparência, voz e movimentos participam das primeiras impressões

Às vezes, bastam poucos momentos para alguém despertar interesse. Antes de uma conversa avançar ou de existir qualquer informação sobre personalidade, gostos e compatibilidade, a atração já pode ter aparecido. A sensação costuma ser descrita como “química”, mas o que acontece nesses primeiros contatos envolve diferentes informações captadas rapidamente pelo cérebro.
Não existe um único mecanismo capaz de determinar por quem uma pessoa vai se sentir atraída. Aparência, cheiro, voz, movimentos, experiências anteriores e preferências individuais podem participar dessa avaliação inicial.
Um trabalho publicado em 2025 no British Journal of Psychology, por exemplo, analisou conjuntamente rosto, movimento corporal, voz e odor e encontrou participação dessas diferentes modalidades na percepção de atratividade. Preferências compartilhadas pelo grupo e preferências pessoais ajudaram a explicar as avaliações.
Isso ajuda a entender por que alguém pode chamar atenção imediatamente sem que seja fácil apontar uma única característica responsável. A primeira impressão resulta de informações que chegam por canais diferentes e são avaliadas em conjunto.
O corpo participa da atração antes mesmo da conversa avançar
O rosto costuma ocupar uma posição evidente quando se fala em atração, mas limitar a experiência à aparência deixa de fora parte importante do processo. Voz, maneira de se movimentar e cheiro também fornecem informações sobre quem está diante de nós.
No estudo publicado no British Journal of Psychology, 71 participantes avaliaram estímulos produzidos por 61 pessoas. Os pesquisadores apresentaram informações como rosto, movimento corporal, voz e odor. Os resultados mostraram diferenças entre essas modalidades e também revelaram que preferências individuais tiveram peso nas avaliações, a primeira impressão também conta como beleza e as primeiras palavras estão no cntexto, sõa traços de uma boa saúde metal.
Esse componente pessoal é relevante porque impede uma fórmula universal para a atração. Duas pessoas podem reagir de maneiras diferentes diante do mesmo rosto, voz ou comportamento. Aquilo que produz interesse imediato para uma delas pode ter pouco efeito sobre a outra.
O cheiro acrescenta uma camada menos evidente. Uma revisão publicada no periódico Physiology & Behavior reuniu evidências sobre o papel dos odores corporais e da capacidade olfativa na formação e manutenção de relacionamentos. Os autores concluíram que o olfato parece participar da escolha de parceiros e das relações amorosas, embora ressaltem que essa ainda é uma área pouco estudada.
Isso não significa que exista um “cheiro da pessoa certa” ou que o nariz consiga determinar compatibilidade. Os resultados disponíveis são muito mais complexos do que essa interpretação.
Cheiro pode transmitir sinais ligados à excitação sexual
Uma das pesquisas que ajudam a explicar essa discussão investigou especificamente se sinais associados à excitação sexual poderiam ser percebidos pelo olfato.
Em uma série de três experimentos publicada no Archives of Sexual Behavior, homens foram expostos a amostras de suor coletadas de mulheres em situações de excitação sexual e em condições neutras. O odor relacionado à excitação foi avaliado como mais atraente e esteve associado a aumento da excitação e da motivação sexual dos participantes em determinadas condições experimentais.
É justamente esse trabalho que está no centro da matéria da VICE que deu origem a esta pauta. A pesquisa oferece evidências de que sinais químicos podem participar da comunicação sexual humana, mas não demonstra que eles expliquem sozinhos aquela sensação cotidiana de “química instantânea”.
Também é preciso cuidado com uma palavra frequentemente associada ao assunto: feromônio. A existência de um feromônio sexual humano específico capaz de provocar atração não está estabelecida. Uma revisão sobre o tema observa que nenhum composto isolado foi identificado como mensageiro químico responsável pela atração erótica humana.
Portanto, transformar essas descobertas na ideia de que seres humanos detectam inconscientemente um feromônio capaz de escolher parceiros seria ir além do que as evidências permitem afirmar.
Sentir atração rapidamente não revela compatibilidade
A velocidade da primeira reação também não deve ser confundida com a qualidade de uma relação que ainda nem começou.
Uma pessoa pode achar determinado rosto atraente, gostar de uma voz, responder a movimentos corporais ou perceber um cheiro como agradável. Essas informações ajudam a formar uma impressão, mas dizem pouco, isoladamente, sobre valores, personalidade, objetivos ou capacidade de construir uma relação.
Até o papel do odor muda quando se observam pessoas que já se conhecem. Em uma pesquisa com mulheres que avaliaram odores de parceiros ou homens conhecidos e de desconhecidos, participantes reconheceram com frequência o cheiro da pessoa conhecida e o classificaram como mais familiar e mais sexy. Os autores alertaram, porém, que parte dessa preferência poderia resultar da exposição repetida ao odor, e não necessariamente de uma escolha inicial de parceiro.
A atração, portanto, não parece funcionar como um teste biológico instantâneo que identifica automaticamente alguém compatível. O que as pesquisas permitem dizer é mais limitado: seres humanos avaliam rapidamente diferentes sinais sensoriais, e alguns deles podem influenciar o interesse por outra pessoa.
A chamada química entre duas pessoas pode realmente aparecer depressa. Explicar exatamente por que ela surgiu, porém, exige mais do que procurar uma característica no rosto ou uma substância no suor. O primeiro interesse nasce da combinação de sinais e preferências; descobrir se existe compatibilidade depende do que acontece depois.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



