Por que buscamos parceiros que se parecem com a gente?
Semelhança entre casais pode existir antes mesmo do relacionamento

Há casais que chamam atenção por um detalhe curioso: os dois são tão parecidos que quem não os conhece pode imaginar que sejam parentes.
Formato do rosto, idade aparente, estilo, cabelo e até determinadas expressões contribuem para essa impressão. A semelhança virou brincadeira nas redes sociais, mas também levanta uma questão que pesquisadores tentam compreender há décadas: existe uma tendência de escolher parceiros parecidos conosco?
A discussão voltou a circular com o termo dopplebanger, combinação informal de doppelgänger com uma referência sexual. A expressão é usada para descrever pessoas que namoram ou se relacionam com alguém fisicamente muito semelhante a elas e tem raízes na cultura de relacionamentos.
Por trás do nome provocativo existe um campo de pesquisa bem mais amplo. Parceiros românticos frequentemente compartilham características que vão da aparência e idade à escolaridade, hábitos e valores. O fenômeno é associado ao chamado assortative mating, ou acasalamento assortativo: em vez de os pares se formarem de maneira aleatória, determinadas semelhanças aparecem com frequência maior entre pessoas que se relacionam.
Casais realmente se parecem mais do que duas pessoas ao acaso?
A aparência oferece uma das demonstrações mais curiosas dessa questão. Pesquisadores da Universidade Chinesa de Hong Kong compararam rostos de casais com pares formados por pessoas que não mantinham um relacionamento. Para evitar que cabelo, maquiagem, brincos ou óculos explicassem o resultado, esses elementos externos foram retirados das imagens.
Mesmo assim, os rostos dos casais foram avaliados como mais semelhantes. Nos experimentos, idade percebida e características de personalidade inferidas a partir das faces também contribuíram para a percepção de semelhança. Os autores alertam que olhar para um rosto envolve julgamentos sociais, e não apenas uma comparação objetiva de olhos, nariz ou formato facial.
Isso torna a pergunta do título mais complexa. Encontrar duas pessoas parecidas não significa necessariamente que uma delas tenha procurado deliberadamente alguém com o mesmo rosto.
A formação dos pares pode envolver escolha, mas também oportunidades. Pessoas com escolaridade, renda, religião, hábitos, interesses ou ambientes sociais semelhantes têm maior probabilidade de circular pelos mesmos lugares e se conhecer. O resultado pode ser um casal que compartilha várias características sem que nenhuma delas tenha sido conscientemente usada como critério de seleção.
Uma análise publicada na Nature Human Behaviour examinou diferentes razões para a semelhança entre parceiros e encontrou participação tanto da escolha quanto de fatores compartilhados e de mudanças ocorridas depois que a relação já existe. Os autores ressaltam justamente que não há uma explicação única para todas as características observadas.
A semelhança vai muito além do rosto
Quando a análise deixa a aparência de lado, o padrão fica ainda mais amplo.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2023 examinou 22 características presentes em estudos anteriores e acrescentou uma análise de 133 características de casais do UK Biobank. A maior parte apresentou correlação positiva entre parceiros. Entre os aspectos investigados estavam educação, consumo de álcool, tabagismo, altura, peso, atitudes e diferentes comportamentos e saúde em geral.
Nem toda correlação tem a mesma intensidade ou a mesma origem. Tampouco significa que as pessoas estejam conscientemente procurando versões de si próprias.
Pense em alguém que frequenta determinados ambientes por causa do trabalho, pratica o mesmo esporte durante anos ou mantém grande parte da vida social dentro de um grupo específico. As possibilidades de relacionamento já começam limitadas pelo círculo de convivência. Idade, localização, condição socioeconômica e interesses podem aproximar pessoas antes mesmo de a atração entrar na história.
É justamente por isso que reduzir o dopplebanger a narcisismo seria uma conclusão sem sustentação. A aparência semelhante pode ser apenas a parte mais visível de afinidades e circunstâncias que aproximaram duas pessoas.
Casais ficam mais parecidos depois de muitos anos juntos?
Essa ideia ganhou tanta força que frequentemente é apresentada como fato: pessoas que passam décadas juntas adotariam expressões semelhantes e, pouco a pouco, seus rostos começariam a convergir.
Uma análise da Universidade Stanford colocou essa hipótese à prova usando fotografias de 517 casais registradas no início do casamento e novamente entre 20 e 69 anos depois. A comparação foi realizada tanto por avaliadores humanos quanto por um sistema de reconhecimento facial.
Os casais já apresentavam semelhanças no começo da relação. O que os pesquisadores não encontraram foi evidência de que seus rostos tivessem ficado progressivamente mais semelhantes com o passar dos anos.
A descoberta muda a maneira de interpretar aquela fotografia de um casal que vive junto há quatro ou cinco décadas. Parte da semelhança que enxergamos hoje pode ter estado ali desde o começo.
Isso também estabelece um limite importante para o que sabemos. As pesquisas confirmam que parceiros apresentam semelhanças em diversas características e oferecem evidências de que escolhas, ambientes e fatores sociais participam dessa formação. Elas não demonstram que cada pessoa carregue uma preferência universal por alguém que tenha a própria aparência.
O dopplebanger transformou uma observação antiga sobre casais em um nome feito para circular nas redes. A pergunta que existe por trás da expressão é mais interessante que o rótulo: por que duas pessoas semelhantes acabam juntas? A resposta não está apenas no espelho. Ela passa também pelos lugares que frequentamos, pelas pessoas que encontramos, pelas características que valorizamos e pelas oportunidades que determinam quem chega a fazer parte do nosso círculo de relacionamentos.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



