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Ingredientes de cosméticos levantam alerta sobre direitos humanos

Minerais, óleos e matérias-primas agrícolas utilizados em maquiagens e produtos de cuidados pessoais podem estar associados a trabalho infantil, exploração laboral e conflitos territoriais; marcas enfrentam pressão para ampliar a rastreabilidade e demonstrar responsabilidade em suas cadeias de fornecimento.

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Ingredientes utilizados em maquiagens e hidratantes podem ter origem em cadeias produtivas com riscos trabalhistas.
Ingredientes utilizados em maquiagens e hidratantes podem ter origem em cadeias produtivas com riscos trabalhistas. • IA

A preocupação com a origem dos ingredientes deixou de ser uma questão restrita à sustentabilidade ambiental e passou a ocupar espaço nas discussões sobre responsabilidade social da indústria da beleza. Por trás de maquiagens, hidratantes, batons e outros produtos de uso cotidiano, existem cadeias de fornecimento que podem envolver mineração, agricultura e processamento de matérias-primas em regiões com registros de violações de direitos humanos.

Um levantamento da consultoria Verisk Maplecroft, publicado em outubro de 2026, identificou que seis de oito ingredientes utilizados na indústria cosmética apresentam alto risco socioambiental. Entre os insumos analisados estão óleo de palma, cacau, castanhas de karité, coco, soja e cera de carnaúba. O estudo avaliou questões como trabalho infantil, trabalho forçado, conflitos por terras, desmatamento, poluição e condições de saúde e segurança.

O óleo de palma aparece como a matéria-prima de maior risco no levantamento, seguido pelo cacau e pelas castanhas de karité. A análise também aponta que os problemas relacionados aos direitos humanos são mais graves do que os riscos ambientais entre os oito ingredientes avaliados. Os resultados reforçam uma dificuldade para as empresas: identificar violações que podem ocorrer muito antes de a matéria-prima chegar aos fornecedores diretos das marcas.

Ingredientes comuns podem esconder problemas na produção

A mica é um dos exemplos mais conhecidos de matéria-prima associada a riscos trabalhistas na indústria da beleza. O mineral é utilizado em sombras, iluminadores, blushes e outros cosméticos por sua capacidade de proporcionar brilho e efeitos de pigmentação. Sua extração ocorre em diferentes países, incluindo Índia, Madagascar, Brasil e China, e pode envolver condições de trabalho inseguras, especialmente em operações informais e pouco fiscalizadas.

Um levantamento da organização BSR (Business for Social Responsibility), voltado aos direitos humanos nos setores de beleza e cuidados pessoais, destaca a ocorrência de trabalho infantil em atividades de mineração de mica. 

Segundo o documento, aproximadamente 25% da mica mundial tem origem nos estados indianos de Jharkhand e Bihar, onde mais de 22 mil crianças trabalham em minas, muitas vezes em condições que comprometem a saúde e o acesso à educação.

A situação não se limita aos minerais. O cacau, utilizado em formulações de cremes e outros produtos, também apresenta riscos associados ao trabalho infantil. De acordo com estimativas citadas pela International Cocoa Initiative, cerca de 1,56 milhão de crianças estão envolvidas em atividades classificadas como trabalho infantil nas cadeias produtivas de cacau da Costa do Marfim e de Gana, dois dos maiores produtores mundiais. Parte dessas atividades envolve tarefas perigosas, como o manuseio de ferramentas cortantes.

A manteiga de karité, ingrediente comum em hidratantes, produtos para os lábios e cremes corporais, também exige atenção. A matéria-prima é obtida a partir de castanhas coletadas de árvores que crescem naturalmente em regiões da África Ocidental. 

O levantamento da Maplecroft aponta que crianças participam frequentemente da coleta, da quebra das castanhas e do transporte das cargas, em um contexto marcado por informalidade, remuneração baixa e falta de mão de obra adulta.

Rastreabilidade é um desafio para as marcas

Um dos principais obstáculos para combater essas violações está na complexidade das cadeias de fornecimento. Entre a extração ou o cultivo de uma matéria-prima e sua utilização em um cosmético, podem existir cooperativas, intermediários, processadores, distribuidores e diferentes fornecedores. Quanto maior o número de etapas, mais difícil pode ser identificar a origem exata do ingrediente e as condições de trabalho envolvidas.

A organização BSR destaca que cerca de 30% dos ingredientes encontrados em produtos de beleza e cuidados pessoais são derivados de commodities agrícolas ou minerais. Óleo de palma, mica e cobre estão entre os exemplos. Em algumas dessas atividades, trabalhadores podem enfrentar jornadas excessivas, salários baixos, discriminação, assédio, riscos à segurança e mecanismos insuficientes para denunciar abusos.

O problema também pode envolver trabalhadores migrantes e pessoas contratadas por intermediários. A cobrança de taxas abusivas de recrutamento, retenção de documentos, salários não pagos e situações de servidão por dívida estão entre os riscos identificados em cadeias produtivas com pouca fiscalização.

Por isso, a responsabilidade das empresas não termina na contratação de seus fornecedores diretos. A chamada diligência em direitos humanos envolve identificar riscos, avaliar impactos, acompanhar as condições de produção e estabelecer medidas para previnir ou corrigir violações. Isso inclui conhecer os diferentes níveis da cadeia de fornecimento e criar mecanismos para que trabalhadores e comunidades possam relatar problemas.

O Brasil também precisa acompanhar a origem dos insumos

O debate tem relevância para o mercado brasileiro não apenas pelo consumo de ingredientes importados, mas também pela participação do país na produção de matérias-primas utilizadas pela indústria cosmética mundial.

A cera de carnaúba, por exemplo, é obtida de uma palmeira nativa do Nordeste brasileiro e utilizada em diferentes aplicações industriais, inclusive em cosméticos. A produção envolve trabalhadores responsáveis pela extração e pelo processamento da matéria-prima, o que torna as condições de trabalho e a remuneração pontos importantes para a avaliação da cadeia.

A mica também merece atenção no país. Uma avaliação documental publicada em janeiro de 2026 pela consultoria Embode, encomendada pela Responsible Mica Initiative, examinou riscos sociais relacionados à extração e ao processamento do mineral no Brasil e na Malásia. 

O trabalho buscou identificar possíveis impactos sobre os direitos humanos e orientar investigações mais aprofundadas em campo. A iniciativa mostra que a discussão sobre a origem responsável da mica não deve ficar restrita aos países tradicionalmente associados a problemas de exploração mineral.

Além das condições trabalhistas, a utilização de conhecimentos tradicionais e recursos da biodiversidade exige cuidados específicos. A apropriação comercial de conhecimentos de povos indígenas e comunidades tradicionais sem consulta, reconhecimento ou repartição justa de benefícios pode configurar uma violação de direitos. 

Para empresas que utilizam ingredientes associados a esses conhecimentos, estabelecer parcerias transparentes e respeitar os direitos das comunidades é parte da responsabilidade sobre a origem dos produtos.

Transparência passa a integrar a reputação da indústria

A pressão por informações sobre a procedência dos ingredientes tende a crescer à medida que consumidores, organizações e governos exigem maior responsabilidade das empresas. Na União Europeia, regras relacionadas ao trabalho forçado, ao desmatamento e à diligência em sustentabilidade ampliam as expectativas sobre a capacidade das companhias de identificar e enfrentar riscos em suas cadeias produtivas.

Para as marcas, o desafio é transformar compromissos públicos em práticas verificáveis. Certificações, auditorias, contratos com fornecedores, rastreabilidade e acompanhamento das condições de trabalho podem ajudar, mas precisam fazer parte de um processo contínuo. 

Uma declaração de que determinado ingrediente é natural, orgânico ou de origem vegetal, por exemplo, não garante que sua produção tenha respeitado os direitos dos trabalhadores.

A indústria da beleza também precisa considerar que responsabilidade social não se limita à escolha da fórmula. As condições de extração, cultivo, processamento e transporte dos ingredientes fazem parte da história do produto, mesmo que não sejam percebidas pelo consumidor no momento da compra.

O avanço da transparência pode contribuir para relações comerciais mais responsáveis e para a construção de confiança entre marcas e público. Mais do que comunicar iniciativas de sustentabilidade, empresas precisam demonstrar de onde vêm suas matérias-primas e quais medidas adotam para evitar que a produção de cosméticos esteja associada à exploração de trabalhadores ou à violação de direitos de comunidades.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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