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Beleza brasileira enfrenta teste para conquistar mercado global

Com um mercado interno robusto e marcas reconhecidas em categorias como cuidados com os cabelos e com o corpo, a indústria nacional busca ampliar sua presença no exterior; desafio é transformar biodiversidade, diversidade e conhecimento técnico em diferenciais competitivos sem ficar restrita a estereótipos sobre o país.

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Cuidados capilares estão entre as categorias em que a indústria brasileira construiu experiência e reconhecimento.
Cuidados capilares estão entre as categorias em que a indústria brasileira construiu experiência e reconhecimento. • Magnific

A beleza brasileira começa a ganhar mais espaço no mercado internacional, impulsionada pelo interesse crescente por produtos de diferentes regiões do mundo, pela visibilidade da cultura nacional e pelo desempenho das exportações. Marcas de cosméticos, cuidados capilares, perfumaria e produtos corporais buscam aproveitar esse momento para conquistar consumidores estrangeiros. 

O desafio, porém, vai além de levar produtos para outros países: é fazer com que a beleza brasileira seja reconhecida como uma categoria própria, com identidade, qualidade e capacidade de inovação.

O setor nacional movimentou US$ 24,56 bilhões em 2025, segundo dados da consultoria WGSN citados pelo The Business of Fashion. Nos primeiros sete meses de 2026, as exportações brasileiras de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos alcançaram aproximadamente US$ 633,6 milhões, alta de 8,4% em relação ao mesmo período do ano anterior e o maior resultado para o intervalo em dez anos, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).

Os números mostram a dimensão da indústria e o espaço para avançar, mas não garantem, por si só, o reconhecimento internacional. Marcas brasileiras ainda precisam disputar atenção com empresas consolidadas, compreender hábitos de consumo de diferentes mercados e adaptar estratégias de comunicação e distribuição. 

A construção de uma imagem coletiva pode ajudar nesse processo, desde que preserve a diversidade de propostas que caracteriza o setor.

Da força do mercado interno à construção de uma identidade global

O Brasil possui um mercado consumidor expressivo e uma indústria com experiência em desenvolver produtos para diferentes tipos de pele, cabelos e condições climáticas. Essa combinação pode representar uma vantagem competitiva. 

A diversidade de tons de pele, curvaturas capilares e características regionais exige soluções variadas, criando um ambiente de desenvolvimento e testes que pode gerar produtos relevantes para consumidores de outros países.

A reportagem do The Business of Fashion destaca marcas como Skala e Lola Cosmetics, que desenvolveram linhas voltadas a diferentes texturas de cabelo e conquistaram visibilidade internacional. No segmento de cuidados corporais, empresas como Natura e Grupo Boticário também demonstram a capacidade de marcas brasileiras de alcançar grande escala. Já Granado e Costa Brazil exploram posicionamentos distintos, que vão da tradição em perfumaria à valorização de ingredientes e experiências sensoriais.

Outro exemplo é a Sol de Janeiro, marca criada pela empresária norte-americana Heela Yang após viver dois anos no Rio de Janeiro. Lançada em 2015, ganhou projeção internacional com produtos como o Bum Bum Cream, que combina referências brasileiras e fragrâncias marcantes. Embora não seja uma empresa fundada por brasileiros, tornou-se um dos casos mais conhecidos de sucesso comercial associado à imagem da beleza nacional.

O reconhecimento de marcas individuais, entretanto, não significa necessariamente que o consumidor estrangeiro identifique a beleza brasileira como uma categoria. É nesse ponto que iniciativas coletivas ganham relevância. Em outubro de 2026, a empresária Patricia Lima, fundadora da Simple Organic, anunciou a B-Beauty & Wellness, plataforma criada para aproximar empresas, especialistas e outros profissionais do setor e fortalecer o posicionamento da indústria brasileira no exterior.

A proposta busca reunir marcas de diferentes segmentos e ampliar sua presença em eventos, feiras e ambientes de relacionamento com compradores e formadores de opinião. A iniciativa se inspira em movimentos como a K-Beauty, que ajudou a transformar os cosméticos sul-coreanos em uma referência mundial. A intenção não é reproduzir o modelo, mas construir uma narrativa própria para a produção brasileira.

O risco de reduzir a brasilidade a estereótipos

A associação entre beleza brasileira, praias, clima tropical e ingredientes da biodiversidade pode despertar curiosidade, mas também limitar a percepção internacional sobre o país. A reportagem do The Business of Fashion chama atenção para o risco de transformar a identidade nacional em uma representação simplificada, concentrada no verão, no Carnaval e na valorização do corpo.

Essas referências fazem parte da cultura brasileira, mas não representam toda a capacidade da indústria. Para conquistar espaço de forma consistente, as empresas precisam apresentar também sua tradição em pesquisa, desenvolvimento de fórmulas, perfumaria, cuidados capilares e conhecimento sobre diferentes características de pele e cabelo.

A autenticidade é outro ponto importante. Utilizar ingredientes amazônicos ou referências visuais brasileiras não é suficiente para construir uma conexão legítima com o país. É necessário apresentar contexto, origem e conhecimento por trás das escolhas, evitando que a brasilidade seja apenas um recurso de marketing.

Nesse sentido, diferentes marcas podem contribuir para ampliar a imagem do setor. A Granado, por exemplo, trabalha com referências ligadas à tradição farmacêutica e à perfumaria; a Costa Brazil constrói seu posicionamento a partir de ingredientes amazônicos e de uma proposta de luxo; enquanto empresas especializadas em cabelos exploram a diversidade de curvaturas e rotinas de cuidado. A variedade de trajetórias ajuda a mostrar que não existe uma única forma de representar a beleza brasileira.

Inovação e adaptação determinam a expansão

A visibilidade internacional pode ser impulsionada por celebridades, influenciadores e redes sociais, mas a permanência das marcas depende da qualidade dos produtos e da capacidade de atender às expectativas de cada mercado. Uma campanha de grande alcance pode despertar interesse, mas a experiência de uso, a distribuição e a relação entre preço e benefício são determinantes para estimular novas compras.

A adaptação também precisa considerar diferenças culturais e de consumo. Um produto desenvolvido para definir cabelos cacheados, por exemplo, pode ter menor aderência em países nos quais predominam outras necessidades de cuidado capilar. O mesmo vale para fragrâncias, texturas, tonalidades e formulações. Conhecer o público e as particularidades de cada região é fundamental para evitar que uma estratégia bem-sucedida no Brasil seja simplesmente replicada no exterior.

Os canais de venda também variam conforme o posicionamento. Marcas de preços mais acessíveis podem encontrar oportunidades em grandes plataformas de comércio eletrônico e redes varejistas. Produtos premium, por outro lado, podem precisar de parceiros especializados e pontos de venda capazes de apresentar sua história, diferenciais e proposta sensorial.

A trajetória da Natura ilustra que a expansão internacional exige escolhas estratégicas. Em 2026, a companhia encerrou suas operações nos Estados Unidos para concentrar esforços na América Latina, conforme abordado pelo The Business of Fashion. A decisão reforça que presença global não significa necessariamente atuar em todos os mercados, mas identificar onde a marca possui melhores condições de competir e crescer.

Para a beleza brasileira, o próximo passo é transformar o interesse internacional em reconhecimento duradouro. Biodiversidade, diversidade, criatividade e conhecimento técnico oferecem caminhos para essa construção, mas precisam estar associados a produtos consistentes, inovação contínua e estratégias comerciais adequadas. Mais do que exportar cosméticos, o desafio é fazer com que o selo Made in Brazil seja percebido como sinônimo de autenticidade, desempenho e qualidade.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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