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Kat Cunning conecta arte, identidade e novos caminhos na televisão

Entre a atuação, a música e a dança, artista constrói uma trajetória marcada pela experimentação e pela liberdade criativa. Em entrevista à revista Schön!, Cunning fala sobre o papel de Clare Hollingsworth, agente do FBI na série Line of Fire, e reflete sobre representatividade, identidade e os desafios de desenvolver uma carreira em diferentes linguagens artísticas.

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Kat Cunning interpreta Clare Hollingsworth, agente do FBI na série Line of Fire.
Kat Cunning interpreta Clare Hollingsworth, agente do FBI na série Line of Fire. • Acervo Instagram Kat Cunning

Atuar, cantar e dançar são atividades que, para Kat Cunning, não precisam ocupar espaços separados. A artista norte-americana construiu uma trajetória que passa por diferentes linguagens criativas e encontrou na televisão uma nova oportunidade de explorar personagens, histórias e aspectos da própria identidade. 

Essa multiplicidade está no centro de sua participação em Line of Fire, série em que interpreta Clare Hollingsworth, uma agente do FBI envolvida em uma trama que combina investigação e conflitos familiares.

Em entrevista à revista Schön!, Cunning revisita as referências que despertaram seu interesse pela arte, fala sobre a construção da personagem e explica por que não pretende limitar sua carreira a uma única área. 

A conversa também aborda a representação de mulheres na televisão, a expressão de gênero e a importância de criar personagens que não se resumam a uma única característica.

Uma trajetória entre a dança, a música e a atuação

O interesse de Cunning pelas artes começou cedo, especialmente com o balé. Na infância, a dança ocupava um lugar importante em sua rotina, enquanto livros, filmes e personagens alimentavam sua imaginação. Entre as referências mencionadas na entrevista está Jo March, protagonista de Mulherzinhas, obra que ajudou a artista a reconhecer possibilidades de expressão para além das expectativas tradicionais.

Ao longo dos anos, a trajetória se expandiu para outras formas de performance, incluindo música, poesia, teatro imersivo e apresentações de cabaré. Em vez de seguir um caminho profissional linear, Cunning experimentou diferentes ambientes criativos antes de consolidar espaço na televisão e no cinema.

Essa experiência diversificada influencia a maneira como encara cada projeto. Na entrevista, a artista descreve a atuação como um trabalho que exige pesquisa, preparação e repetição, enquanto a música envolve um processo mais intuitivo e espontâneo. As duas linguagens, embora diferentes, permitem explorar emoções e contar histórias por caminhos distintos.

A possibilidade de transitar entre áreas também representa uma maneira de preservar a autonomia criativa. Para Cunning, não é necessário escolher uma única identidade profissional quando diferentes formas de expressão podem se complementar. Essa perspectiva ajuda a entender uma carreira construída a partir da curiosidade e da disposição para experimentar.

Clare Hollingsworth e as contradições de uma personagem

Em Line of Fire, Cunning interpreta Clare Hollingsworth, uma agente do FBI que trabalha em um ambiente de alta pressão enquanto enfrenta questões relacionadas à família e à vida pessoal. A personagem combina competência profissional, determinação, humor e vulnerabilidade, características que a artista considera essenciais para evitar uma representação simplificada de uma mulher em posição de autoridade.

A preparação para o papel envolveu treinamento com armas, adaptação à linguagem técnica do universo policial e atenção aos movimentos e comportamentos de alguém que atua nessa área. O figurino também contribuiu para a construção de Clare, ajudando a definir uma personagem com referências visuais próprias e uma postura que foge de estereótipos convencionais.

Um dos pontos que Cunning destaca na conversa é a possibilidade de incorporar elementos de sua personalidade à interpretação. Em vez de construir Clare como uma heroína sem contradições, a artista procura preservar diferentes dimensões da personagem, que pode demonstrar firmeza em determinadas situações e delicadeza em outras.

Essa complexidade também aparece na maneira como a personagem se relaciona com o trabalho e com a família. A vida profissional não elimina suas inseguranças, assim como a vulnerabilidade não diminui sua capacidade de agir e tomar decisões. O resultado é uma figura que se aproxima de experiências humanas mais reconhecíveis, nas quais força e sensibilidade podem coexistir.

Identidade e representatividade na televisão

A entrevista também aborda a relação entre identidade pessoal e representação nas telas. Cunning, que se identifica como pessoa não binária, fala sobre a liberdade de expressar o gênero e sobre como as expectativas da indústria podem limitar a maneira como artistas são percebidos e escalados para determinados papéis.

Um dos exemplos discutidos é o cabelo natural e cacheado da artista. Segundo Cunning, durante parte de sua trajetória, ouviu que precisaria mudar o cabelo para trabalhar na televisão. A artista também questiona a associação de cabelos texturizados a personagens excessivamente sexualizadas, descontroladas ou pouco profissionais, apontando como essas representações podem reproduzir preconceitos.

Em Line of Fire, o cabelo de Clare não precisa ser modificado para que a personagem seja apresentada como competente e preparada para o trabalho. A escolha pode parecer simples, mas amplia o repertório visual de mulheres representadas em posições de autoridade e ajuda a questionar convenções que historicamente associaram aparência a profissionalismo.

A discussão vai além de um detalhe estético. Quando personagens com diferentes aparências, identidades e formas de expressão ocupam espaços diversos nas narrativas, a televisão pode ampliar as referências disponíveis ao público. Para Cunning, a possibilidade de mostrar uma mulher multidimensional também significa permitir que ela seja firme, engraçada, vulnerável e determinada sem que uma dessas características anule as demais.

Uma carreira guiada pela curiosidade

Apesar da crescente presença na televisão, Cunning continua tratando a música como parte essencial de sua identidade artística. A artista vê as diferentes disciplinas como formas complementares de expressão, cada uma com seus desafios e possibilidades. Enquanto a atuação exige colaboração com roteiristas, diretores e elenco, a música oferece maior controle sobre a criação e a apresentação do próprio trabalho.

A entrevista também evidencia os desafios financeiros e profissionais de construir uma carreira artística independente. A instabilidade faz parte de áreas como a música e a dança, nas quais a remuneração nem sempre acompanha o investimento de tempo e recursos. A atuação em produções televisivas, por sua vez, oferece uma dinâmica de trabalho diferente, marcada pela colaboração de equipes numerosas.

Essa experiência ajuda a explicar por que Cunning valoriza tanto os processos coletivos. Mesmo quando uma personagem ocupa o centro da narrativa, o resultado depende da contribuição de diferentes profissionais. A artista destaca a importância de se sentir estimulada e acolhida pelas pessoas envolvidas em um projeto, além da possibilidade de explorar aspectos pessoais que ainda não foram tão desenvolvidos em outros trabalhos.

Mais do que seguir uma trajetória definida por uma única conquista, Cunning demonstra interesse em continuar experimentando. A passagem por diferentes linguagens não aparece como uma etapa a ser superada, mas como parte de uma identidade criativa em constante transformação.

Ao falar sobre Line of Fire, a artista reúne questões que atravessam sua carreira: a liberdade de construir personagens complexas, a importância da representação e o direito de desenvolver uma identidade profissional sem se limitar a categorias rígidas. Sua trajetória mostra como a atuação pode se tornar um espaço de investigação pessoal e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de ampliar as formas de identificação do público com as histórias contadas na tela.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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