Consumo de energéticos entre adolescentes acende alerta em diferentes países
Bebidas estimulantes ganham espaço na rotina dos jovens, enquanto estudos identificam consumo frequente, alterações no sono e relatos de sintomas físicos; especialistas recomendam atenção à quantidade de cafeína ingerida

Associadas à disposição, à concentração e ao desempenho físico, as bebidas energéticas conquistaram espaço entre consumidores de diferentes idades. O consumo entre adolescentes, no entanto, tem despertado preocupação de pesquisadores e autoridades de saúde em diversos países. A combinação de cafeína, açúcar e outros ingredientes estimulantes pode trazer riscos especialmente para organismos em desenvolvimento, sobretudo quando a ingestão é frequente ou ocorre em grandes quantidades.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Public Health analisou pesquisas sobre o consumo de energéticos por crianças e adolescentes. Os estudos reunidos apontaram que a proporção de jovens que já haviam consumido essas bebidas nos 12 meses anteriores variava de 13% a 67%, dependendo do país e da metodologia utilizada. A amplitude dos resultados mostra que os hábitos variam entre as populações e que ainda existem lacunas nos dados internacionais.
O tema também aparece em levantamentos mais recentes. Uma pesquisa divulgada em setembro de 2026 pelo Conselho Nórdico de Ministros, que ouviu 4.916 adolescentes de cinco países, identificou que 61% consumiam energéticos pelo menos uma vez por semana. Cerca de 22% disseram beber esses produtos diariamente. Embora os números não representem a realidade mundial, ajudam a ilustrar a frequência com que as bebidas fazem parte da rotina de parte dos jovens.
Por que adolescentes consomem bebidas energéticas?
O sabor está entre os principais motivos para a escolha dos produtos, mas a busca por energia e concentração também influencia o consumo. Em levantamento realizado nos países nórdicos, 73% dos adolescentes consumidores citaram o gosto como justificativa. Outros 51% disseram procurar mais disposição, enquanto 34% afirmaram utilizar as bebidas para permanecer acordados.
A presença dos energéticos em supermercados, lojas de conveniência e postos de combustíveis também facilita o acesso. Além disso, as embalagens coloridas, os sabores variados e a associação das marcas a esportes, jogos e entretenimento ajudam a aproximar esses produtos do público jovem.
O consumo nem sempre está relacionado à prática de exercícios físicos. Os adolescentes também recorrem às bebidas durante atividades escolares, períodos de estudo, jogos eletrônicos e encontros com amigos. A ideia de que o energético ajuda a compensar noites mal dormidas ou longas jornadas de atividades pode contribuir para a repetição do hábito.
Outro aspecto é a ingestão de cafeína por diferentes fontes. Café, chá, refrigerantes à base de cola, chocolate e alguns suplementos também contêm a substância. Quando esses produtos são consumidos em conjunto, a quantidade total ingerida ao longo do dia pode aumentar sem que o adolescente perceba.
Sono, palpitações e outros efeitos preocupam pesquisadores
A cafeína é um estimulante do sistema nervoso central e pode aumentar temporariamente o estado de alerta. Em quantidades elevadas, entretanto, está associada a efeitos indesejados, como agitação, ansiedade, tremores, palpitações e dificuldade para dormir.
Uma revisão publicada em 2022 no BMJ Open analisou estudos sobre o consumo de bebidas energéticas por crianças e jovens. Os resultados identificaram associações entre a ingestão frequente e problemas como dores de cabeça, alterações do sono, irritabilidade e pior percepção de bem-estar. Os autores, porém, ressaltaram limitações nas pesquisas disponíveis: grande parte dos dados é observacional, o que impede estabelecer uma relação direta de causa e efeito em todos os casos.
O levantamento nórdico de 2026 também identificou relatos de efeitos negativos. Três em cada dez adolescentes entrevistados disseram já ter passado mal ou sentido algum desconforto após consumir energéticos. Palpitações, problemas para dormir, dores de cabeça, náuseas e tremores apareceram entre as queixas.
A pesquisa investigou ainda a dificuldade de reduzir o consumo. Cerca de 15% dos participantes disseram sentir desconforto quando ficam sem a bebida, principalmente cansaço e dor de cabeça. Outros relataram dificuldade de concentração e irritabilidade. Os resultados indicam sinais de uso problemático para parte dos entrevistados, mas não representam, isoladamente, um diagnóstico clínico de dependência.
O que dizem as autoridades de saúde?
A preocupação com o consumo entre crianças e adolescentes também aparece nas recomendações de instituições internacionais. Nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) destacam que bebidas energéticas podem conter grandes quantidades de cafeína, açúcares adicionados e outros estimulantes, como guaraná e taurina.
A Academia Americana de Pediatria recomenda que crianças e adolescentes não consumam bebidas energéticas. A entidade também orienta que adolescentes evitem ultrapassar 100 miligramas de cafeína por dia, considerando as diferentes fontes da substância.
Na União Europeia, a regulamentação determina que bebidas com concentração de cafeína superior a 150 miligramas por litro apresentem um aviso sobre o alto teor da substância e a recomendação de que não sejam consumidas por crianças ou mulheres grávidas ou lactantes. As regras de venda para menores, entretanto, variam entre os países. Alguns adotaram restrições de comercialização, enquanto outros dependem de recomendações e medidas voluntárias do comércio.
No Brasil, a rotulagem de alimentos com alto teor de cafeína também exige atenção. A Anvisa estabelece regras para a declaração da presença da substância e de advertências em produtos que ultrapassam determinados limites de concentração. A leitura das informações nutricionais e dos avisos na embalagem ajuda o consumidor a identificar a quantidade de cafeína presente.
Mais do que observar o número de latas consumidas, é importante considerar o volume das embalagens, a concentração de cafeína e a combinação com outros produtos estimulantes. Para adolescentes, a orientação das entidades de saúde é evitar bebidas energéticas e priorizar hábitos que contribuam para a disposição, como sono adequado, alimentação equilibrada e hidratação.
O crescimento do interesse por bebidas estimulantes coloca em evidência um desafio que vai além da indústria de bebidas: compreender como esses produtos são incorporados à rotina dos jovens e ampliar o acesso à informação sobre seus efeitos. A discussão envolve famílias, escolas, profissionais de saúde, fabricantes e autoridades responsáveis pela proteção do consumidor.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



