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Mercado de luxo enfrenta sinais de desgaste nos Estados Unidos

Depois de ajudar a sustentar as vendas das grandes grifes durante a desaceleração de outros mercados, os consumidores americanos começam a demonstrar maior cautela nos gastos; cenário pressiona marcas a rever estratégias de preço, expansão e relacionamento com clientes.

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Grandes grifes acompanham sinais de desaceleração do consumo de luxo nos Estados Unidos.
Grandes grifes acompanham sinais de desaceleração do consumo de luxo nos Estados Unidos. • Magnific

Durante um período de desaceleração do mercado global de luxo, os Estados Unidos se tornaram um dos principais pontos de apoio para as grandes grifes. Enquanto a demanda na China enfrentava dificuldades para recuperar o ritmo de crescimento, consumidores americanos de alta renda continuavam comprando bolsas, roupas, relógios, joias e outros produtos de alto valor. Esse suporte, no entanto, começa a apresentar sinais de enfraquecimento.

Em setembro de 2026, os gastos com marcas de luxo nos Estados Unidos caíram 6% em relação ao mesmo mês do ano anterior, registrando o terceiro recuo mensal consecutivo. Os dados são de um levantamento do Citi baseado em milhões de transações com cartões de crédito. Em julho e agosto, as quedas haviam sido de 4% em cada mês. O resultado reforça a preocupação de um setor que depende do mercado americano para compensar a demanda mais fraca em outras regiões.

O movimento é acompanhado de perto pelas empresas porque os Estados Unidos representam uma parcela expressiva do consumo mundial de artigos de luxo. Uma análise da Morningstar, compartilhada pela eMarketer, estima que o país responda por 31% dos gastos globais com esse tipo de produto em 2026, à frente da Europa e da China. Uma desaceleração prolongada, portanto, pode ter consequências para marcas que planejam crescer apoiadas na demanda americana.

O consumidor americano já não sustenta o crescimento sozinho

A importância dos Estados Unidos aumentou em um momento de dificuldades para o mercado chinês, historicamente um dos motores da expansão do luxo. Com a recuperação da demanda na China ainda incerta, as grifes passaram a depender mais dos consumidores americanos, especialmente daqueles que possuem maior patrimônio e continuam comprando mesmo em períodos de instabilidade econômica.

Esse público, entretanto, não representa todos os compradores do setor. A retração é mais complexa porque o mercado reúne desde consumidores de altíssima renda até clientes aspiracionais, que economizam ou comprometem uma parcela maior do orçamento para adquirir produtos de marcas prestigiadas.

O relatório The State of Luxury, publicado pela McKinsey em junho de 2026 em parceria com o The Business of Fashion, aponta diferenças nas expectativas de consumidores dos Estados Unidos e da China. A análise destaca que valor, exclusividade e desejo de marca são percebidos de maneiras distintas conforme o mercado e o perfil de renda.

Já o estudo The State of Fashion 2026, também da McKinsey em parceria com o BoF, estima que cerca de 35% dos consumidores aspiracionais de luxo reduziram ou adiaram suas compras diante dos aumentos de preços e de um cenário econômico mais difícil. O levantamento também calcula que aproximadamente 80% do crescimento do mercado de luxo entre 2023 e 2025 veio de reajustes de preços, e não do aumento do volume de produtos vendidos.

Os dados ajudam a explicar uma contradição enfrentada pelas marcas: embora os produtos continuem caros e o faturamento possa ser sustentado por preços maiores, uma parcela dos consumidores está comprando menos. A estratégia de elevar valores para preservar margens encontra limites quando o público passa a questionar se a experiência e a qualidade justificam o investimento.

A dependência dos clientes mais ricos tem limites

Os números de setembro também mostram que a retração não atinge todas as categorias da mesma maneira. Segundo o Citi, as compras de artigos de couro e roupas apresentaram melhora em relação ao mês anterior, enquanto relógios e joias de luxo tiveram desempenho mais fraco. A diferença indica que o comportamento de consumo varia conforme o tipo de produto e o perfil de comprador.

As marcas mais direcionadas ao público de altíssima renda tendem a apresentar maior resistência. Parte desses consumidores possui patrimônio e investimentos que podem continuar crescendo mesmo quando a economia enfrenta dificuldades. A valorização dos mercados financeiros, por exemplo, pode favorecer a disposição de compra de quem concentra recursos em ações e outros ativos.

Essa proteção, porém, não é garantida. Empresas muito dependentes de consumidores de alta renda também ficam expostas a mudanças no mercado financeiro, à confiança econômica e à disposição desse público de manter gastos elevados. Além disso, concentrar a estratégia exclusivamente nos clientes mais ricos pode reduzir o alcance das marcas e afastar consumidores que tradicionalmente aspiravam a seus produtos.

A situação exige atenção de grupos como LVMH, Kering e Tapestry, controladora de marcas como Coach e Kate Spade, que possuem exposição relevante ao mercado americano. A expectativa de menor demanda nos Estados Unidos também foi mencionada por analistas que acompanham o setor, em um momento no qual as empresas procuram recuperar o crescimento após dois anos de contração.

Grifes precisam rever preço, desejo e expansão

O enfraquecimento do consumo americano coloca em discussão decisões que vão além das campanhas e dos lançamentos. Estratégias de expansão de lojas, posicionamento de preços e relacionamento com diferentes faixas de clientes podem precisar de ajustes para acompanhar um consumidor mais seletivo.

Aumentar preços de forma recorrente, por exemplo, pode preservar o faturamento no curto prazo, mas também elevar a percepção de que determinados produtos deixaram de oferecer uma relação satisfatória entre valor e benefício. Para o consumidor aspiracional, que não possui o mesmo poder de compra dos clientes mais ricos, a decisão de adiar uma bolsa ou um acessório pode se tornar mais frequente.

Outra questão é a concorrência com experiências e categorias que disputam o orçamento disponível. Viagens, gastronomia, bem-estar e entretenimento também atraem consumidores de alta renda. Nesse contexto, comprar um item de luxo deixa de ser uma escolha automática e passa a competir com outras formas de consumo e expressão pessoal.

O desafio das grifes é preservar a exclusividade sem depender apenas de aumentos de preços e de um grupo restrito de compradores. Qualidade, design, atendimento, experiência nas lojas e consistência da identidade da marca ganham importância para justificar o valor cobrado.

A reportagem do The Business of Fashion destaca justamente o papel dos resultados trimestrais de grandes grupos como Hermès, Kering e Prada para avaliar a resistência do setor. Com a demanda chinesa ainda fraca e os sinais de desaceleração nos Estados Unidos, o mercado de luxo enfrenta uma questão central: encontrar novas fontes de crescimento sem pressupor que os consumidores americanos continuarão absorvendo os aumentos de preços e sustentando sozinhos a expansão das grandes marcas.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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