Itatiaia

Criatividade pode ser exercitada e ajudar a reinventar a forma de fazer as coisas

Mais do que um talento reservado a artistas ou profissionais de áreas criativas, a capacidade de imaginar possibilidades, questionar padrões e experimentar soluções pode ser desenvolvida ao longo da vida e aplicada ao trabalho, aos projetos e às escolhas do cotidiano

Por
Criatividade pode aparecer em diferentes áreas da vida, do trabalho à solução de problemas cotidianos, sem estar restrita às profissões tradicionalmente consideradas criativas.
Criatividade pode aparecer em diferentes áreas da vida, do trabalho à solução de problemas cotidianos, sem estar restrita às profissões tradicionalmente consideradas criativas. • Magnific

Convivo com a criatividade há muitos anos, mm tudo o que fiz, de alguma maneira, ela sempre esteve lá. Com o tempo, descobri que fazer algo diferente do comum pode ser mais emocionante, mas também mais arriscado. O risco, porém, nunca me assustou tanto assim.

Hoje, prefiro enxergá-lo como uma possibilidade de experimentar, aprender e, quem sabe, chegar a algo surpreendente. Desaprender, desconstruir, desfazer-se do velho e imaginar o novo podem abrir espaço para respostas diferentes. Isso não significa abandonar tudo o que já funciona, mas ter disposição para questionar aquilo que deixou de funcionar.

Criatividade também tem a ver com isso. É saber cair e levantar, lidar com o agora e perceber que nem todo problema precisa ser resolvido da mesma maneira como foi resolvido ontem.

Criatividade não é apenas ter ideias

Uma pessoa criativa não é necessariamente aquela que passa o dia tendo grandes ideias. Criatividade também aparece na capacidade de observar, fazer perguntas, combinar referências, identificar possibilidades e testar caminhos.

É aí que criatividade e inovação começam a se aproximar, mas não são sinônimos. Uma ideia pode ser criativa sem necessariamente virar uma inovação. Para que uma solução criativa se transforme em algo inovador, é preciso colocá-la em prática, avaliar sua utilidade, receber respostas e fazer ajustes.

Por isso, criatividade não precisa ser tratada como um momento mágico de inspiração. Ela também pode envolver planejamento, experimentação e disposição para rever uma escolha.

A criatividade no mundo do trabalho

O interesse das empresas pela criatividade não é exatamente recente. Em 2010, o IBM Global CEO Study entrevistou mais de 1.500 CEOs de 60 países e 33 setores. Naquele levantamento, os executivos apontaram a criatividade como a competência de liderança mais importante para enfrentar um ambiente empresarial cada vez mais complexo, à frente de características como disciplina de gestão, integridade e visão.

O dado tem mais de uma década, mas ajuda a entender como a criatividade deixou de ser vista apenas como uma característica associada às artes e passou a ocupar espaço nas discussões sobre liderança, inovação e resolução de problemas.

Hoje, a questão não é simplesmente contratar pessoas consideradas criativas. É criar ambientes nos quais elas possam propor, testar e desenvolver ideias.

O que significa pensar criativamente

Pensamento criativo pode ser entendido como a capacidade de produzir possibilidades diferentes para uma determinada situação. Isso pode acontecer no desenvolvimento de um produto, na comunicação de uma empresa, na criação de um serviço ou até na maneira de organizar uma rotina.

Uma pergunta aparentemente simples pode mudar o caminho de um projeto: e se fizéssemos de outro jeito? A partir daí, começa a experimentação. É também por isso que criatividade costuma estar relacionada à curiosidade. Quem aceita olhar novamente para um problema pode encontrar elementos que passaram despercebidos na primeira tentativa.

Nascemos criativos

“Eu nasci criativo. E você também.” A frase é bonita, mas precisa ser entendida com alguma cautela. Não existe uma medida simples capaz de dizer que determinada pessoa nasceu com uma quantidade específica de criatividade ou que perdeu uma porcentagem dela ao chegar à vida adulta.

A famosa afirmação de que crianças teriam níveis extraordinários de criatividade e adultos conservariam apenas 2% dessa capacidade é frequentemente repetida, mas não deve ser apresentada como um fato científico estabelecido.

O que a pesquisa permite afirmar com mais segurança é que a forma como uma pessoa enxerga a própria criatividade pode estar relacionada ao seu desempenho criativo. Ou seja, acreditar que criatividade é uma capacidade fixa pode ser um obstáculo, e acreditar que ela pode ser desenvolvida abre outra possibilidade.

A confiança criativa

É justamente essa ideia que aparece no trabalho dos irmãos David e Tom Kelley, da IDEO, autores de Creative Confidence. Os autores defendem que a criatividade não deveria ser encarada como privilégio de um grupo de “pessoas criativas”. Para eles, todos têm potencial criativo, e essa capacidade pode ser exercitada na prática.

A própria IDEO resume essa filosofia ao defender que criatividade pode ser aprendida e praticada, assim como outras competências. Isso muda uma pergunta importante. Em vez de “eu sou criativo?”, talvez seja mais interessante perguntar: o que estou fazendo para exercitar minha criatividade?

Criatividade precisa de espaço

Ideias dificilmente aparecem quando tudo precisa seguir exatamente o mesmo roteiro. Ambientes criativos precisam de espaço para perguntas, experimentações e até erros. Isso não significa trabalhar sem planejamento ou aceitar qualquer ideia como boa.

Significa permitir que uma ideia ainda imperfeita seja discutida antes de ser descartada. Uma equipe pode começar com dez possibilidades e terminar com uma. O processo não é desperdício. É justamente a maneira de descobrir qual delas merece ser desenvolvida.

A criatividade também ganha força quando diferentes pessoas conseguem contribuir com experiências, conhecimentos e perspectivas distintas.

Desaprender também é criar

Uma das partes mais difíceis da criatividade talvez seja abandonar respostas antigas. Existe conforto em repetir aquilo que já conhecemos. O problema aparece quando uma solução que funcionou no passado deixa de responder às necessidades do presente.

Desaprender, nesse contexto, não significa apagar conhecimento. É reconhecer que determinadas certezas podem ser revistas. Às vezes, a melhor ideia não está em acrescentar alguma coisa, mas em retirar, simplificar ou reorganizar o que já existe.

É hora de colocar as ideias em prática

Ter ideias pode ser prazeroso. Fazer alguma coisa com elas é outra história. É nesse momento que entram ação, planejamento, teste e persistência. Uma ideia criativa que permanece apenas na cabeça continua sendo uma possibilidade. Quando é experimentada, recebe a chance de mostrar o que funciona, o que precisa mudar e até se realmente vale a pena.

Talvez seja essa a maior provocação da criatividade. Não precisamos esperar uma grande inspiração para começar. Podemos observar melhor, fazer perguntas diferentes, experimentar pequenos caminhos e aceitar que algumas tentativas não vão funcionar. 

Criatividade não precisa ser um talento extraordinário reservado a poucos. Pode ser uma maneira de olhar para o cotidiano. E, quando esse olhar muda, talvez algumas das coisas que pareciam definitivas também possam ser reinventadas.

Por

Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

Belo Horizonte