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Chimarrão conquista fãs e chama atenção por seus efeitos no corpo

Bebida símbolo do Rio Grande do Sul atravessa gerações e estudos recentes investigam seus possíveis efeitos sobre metabolismo e saúde

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Chimarrão é símbolo da cultura gaúcha e mantém viva uma tradição que atravessa gerações.
Chimarrão é símbolo da cultura gaúcha e mantém viva uma tradição que atravessa gerações. • Magnific

Poucas bebidas brasileiras carregam uma relação tão forte com identidade cultural quanto o chimarrão. Associado principalmente ao Rio Grande do Sul, o mate ultrapassou as fronteiras do estado e conquistou consumidores em diferentes regiões do país. Preparado com água quente e erva-mate (Ilex paraguariensis), ele combina um sabor marcante com um ritual que envolve convivência, hospitalidade e tradição.

A história do chimarrão, porém, é anterior à formação da cultura gaúcha. O consumo da erva-mate tem origem nos povos indígenas, especialmente Guarani e Kaingang, que já utilizavam a planta antes da chegada dos europeus. 

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (Iphae) reconhece o Sistema Cultural e Socioambiental da Erva-mate Tradicional como patrimônio cultural imaterial, destacando a continuidade dos saberes indígenas e de comunidades que mantêm práticas tradicionais relacionadas à planta.

O chimarrão também ganhou importância econômica e cultural ao longo do tempo. Atualmente, a bebida é considerada um dos símbolos da identidade do Rio Grande do Sul, enquanto a erva-mate permanece relevante para a produção agrícola e para comunidades que trabalham com seu cultivo.

Chimarrão tem origem indígena e virou símbolo gaúcho

Embora seja fortemente associado aos gaúchos, o chimarrão não nasceu como uma tradição exclusiva do Rio Grande do Sul. A erva-mate era utilizada por povos indígenas do Sul da América antes da colonização e, posteriormente, o hábito foi incorporado por diferentes grupos que passaram pela região.

A Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul registra que o consumo da bebida se espalhou pelo Sul do Brasil e por países como Argentina, Uruguai e Paraguai. No Rio Grande do Sul, entretanto, o costume ganhou características próprias e se consolidou como parte da identidade regional.

A preparação também faz parte da experiência. A cuia, a bomba e a erva formam um conjunto reconhecido por quem participa da tradicional roda de mate. Nesse contexto, compartilhar a bebida não representa apenas oferecer algo para beber. O chimarrão funciona como uma forma de aproximação entre familiares, amigos e visitantes.

Na roda, existe ainda uma série de códigos informais. Quem prepara o mate normalmente inicia a distribuição e devolve a cuia depois de beber toda a água. A expressão “obrigado”, por exemplo, costuma indicar que a pessoa não deseja mais participar da rodada.

Esse aspecto social ajuda a explicar por que o chimarrão continua presente mesmo em uma rotina cada vez mais marcada por bebidas prontas e produtos industrializados.

O que a ciência já sabe sobre a erva-mate

Além da tradição, a composição da erva-mate chama atenção da ciência. A planta contém cafeína, polifenóis, saponinas, flavonoides e outros compostos bioativos.

Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Nutrition Reviews reuniu 32 estudos sobre os efeitos fisiológicos da erva-mate. Os trabalhos analisados encontraram resultados relacionados ao metabolismo, atividade antioxidante e anti-inflamatória, além de possíveis efeitos sobre composição corporal, desempenho físico, humor e saúde cardiovascular. 

Os próprios autores, entretanto, destacaram uma limitação importante: 22 dos estudos avaliados apresentavam alto risco de viés e a certeza das evidências variava de moderada a muito baixa. Isso significa que o chimarrão pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, mas não deve ser tratado como medicamento ou solução isolada para emagrecimento.

Uma pesquisa mais recente reforça essa cautela. Publicada em 2025 na revista Frontiers in Endocrinology, uma revisão sistemática com meta-análise reuniu 13 ensaios clínicos randomizados sobre erva-mate e saúde metabólica. 

Os pesquisadores encontraram possíveis efeitos favoráveis sobre alguns marcadores de controle da glicose, principalmente em pessoas com pré-diabetes, mas não observaram efeitos significativos sobre índice de massa corporal, circunferência da cintura ou diversos marcadores de colesterol.

Portanto, dizer que o chimarrão “emagrece” ou “reduz o colesterol” de forma direta seria exagerado. A evidência científica atual é mais cuidadosa e indica que os efeitos dependem da quantidade consumida, do perfil do indivíduo e do contexto alimentar.

Cafeína exige atenção no consumo

Um dos motivos pelos quais o chimarrão pode proporcionar sensação de disposição é a presença de cafeína. Assim como café, chá e outras bebidas cafeinadas, o mate pode ter efeito estimulante.

Por isso, o horário de consumo merece atenção, principalmente para pessoas sensíveis à cafeína. Tomar grandes quantidades próximo ao horário de dormir pode dificultar o descanso.

A bebida também possui efeito diurético associado à cafeína, mas isso não significa que o chimarrão deva ser utilizado como estratégia para eliminar líquidos ou perder peso. Outro ponto importante é a temperatura da água. A tradição gaúcha recomenda água quente, mas não fervente. Materiais institucionais sobre o chimarrão costumam indicar temperaturas próximas de 65 °C a 70 °C para o preparo.

A preocupação com a temperatura é relevante porque o consumo habitual de bebidas muito quentes merece cuidado. Assim, o ideal é evitar água excessivamente quente e esperar alguns instantes antes de consumir.

Também vale observar a procedência da erva. O processamento influencia a composição química da planta, e uma revisão publicada em 2026 destacou que métodos de secagem, envelhecimento e moagem podem modificar seus compostos bioativos. O trabalho também chamou atenção para questões de segurança relacionadas à possível formação de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos em determinados processos tradicionais de secagem.

Como preparar o chimarrão

Para preparar o chimarrão tradicional, são necessários uma cuia, uma bomba, erva-mate e água quente. A erva ocupa boa parte da cuia e é posicionada de maneira inclinada para criar um espaço onde a água será adicionada.

A bomba deve ser colocada nesse espaço, evitando mexer constantemente na erva depois do preparo. A água quente é acrescentada aos poucos, permitindo que a bebida seja consumida enquanto a erva mantém seu sabor.

Mais do que uma bebida estimulante, o chimarrão representa um costume que atravessou séculos. Sua força está justamente na combinação entre cultura, convivência e sabor.

Os estudos recentes mostram que a erva-mate possui compostos bioativos interessantes e pode apresentar efeitos fisiológicos promissores, mas ainda existem limitações importantes nas evidências. Por isso, o chimarrão deve ser encarado como parte de uma alimentação equilibrada, e não como tratamento para doenças ou fórmula de emagrecimento.

No Rio Grande do Sul, contudo, seu significado vai muito além da composição nutricional. A cuia que passa de mão em mão representa uma tradição preservada por gerações e reconhecida oficialmente como patrimônio cultural.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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