Beavis e Butt-Head, os críticos musicais improváveis da MTV nos anos 90
Dupla criada por Mike Judge comentou centenas de videoclipes e transformou a ignorância dos personagens em uma das sátiras mais marcantes da cultura pop

Os anos 1990 foram marcados por mudanças profundas na música e na televisão. Grunge, heavy metal, hip-hop, pop e rock alternativo disputavam espaço, enquanto a MTV ainda tinha enorme influência sobre o que chegava aos olhos e aos ouvidos de uma geração.
Foi nesse cenário que dois adolescentes desajustados, preguiçosos e aparentemente incapazes de levar qualquer coisa a sério ganharam espaço na programação do canal.
Beavis e Butt-Head não eram apresentadores, jornalistas ou especialistas em música. Sentados diante da televisão, os dois simplesmente assistiam a videoclipes e faziam comentários absurdos sobre o que aparecia na tela. E justamente por isso acabaram se tornando uma espécie de críticos musicais involuntários.
Quase 600 videoclipes
A série estreou na MTV em 1993 e rapidamente encontrou uma fórmula própria. As histórias acompanhavam as confusões da dupla, mas os episódios também eram intercalados por videoclipes que recebiam os comentários dos personagens.
Segundo levantamento publicado pela Vice, os quatro anos da primeira fase da série na MTV reuniram 592 videoclipes. A dupla não analisava as músicas com critérios técnicos ou preocupação jornalística. Os comentários eram baseados em uma lógica muito mais simples: eles gostavam ou não gostavam, achavam algo “legal” ou simplesmente classificavam como ruim.
A quantidade de vídeos ajuda a entender por que a dupla acabou tão associada à música dos anos 1990. Naquele período, aparecer na MTV ainda era uma vitrine importante para artistas e bandas.
Entre os nomes que passaram pelo universo dos comentários de Beavis e Butt-Head estavam Nirvana, Metallica, Green Day, Primus, Radiohead, Nine Inch Nails, Faith No More, Snoop Dogg, Cypress Hill, Smashing Pumpkins, Marilyn Manson, Björk, Beastie Boys e Type O Negative.
A lista é bastante representativa da diversidade musical que circulava pelo canal.
Crítica sem nenhuma pretensão
A graça estava justamente na falta de autoridade. Beavis e Butt-Head não precisavam demonstrar conhecimento musical, citar referências ou construir argumentos sofisticados. A dupla reagia aos vídeos de acordo com seus próprios interesses adolescentes, muitas vezes completamente desconectados da importância artística dos grupos que estavam diante deles.
Foi essa inversão que tornou os personagens tão interessantes. Um videoclipe poderia ter produção milionária, uma banda consagrada ou uma proposta artística complexa. Ainda assim, tudo poderia ser reduzido a uma risada, uma provocação ou algum comentário completamente absurdo.
A brincadeira também funcionava como uma sátira da própria televisão musical. Em vez de aceitar a autoridade dos VJs e especialistas que apresentavam os vídeos, a série colocava dois adolescentes ignorantes no sofá para dizer o que achavam de tudo aquilo.
A dupla mais inadequada da televisão
Criados por Mike Judge, Beavis e Butt-Head eram dois adolescentes do ensino médio que viviam em Highland, no Texas. Eles trabalhavam no Burger World, passavam tempo na loja de conveniência e tinham uma obsessão constante por garotas, televisão, música e qualquer situação que pudesse resultar em alguma confusão.
Não eram heróis. Não eram populares. Não lideravam grupos. E tampouco tinham grande capacidade de planejamento. O humor vinha justamente dessa combinação entre incompetência, preguiça e confiança exagerada.
As conversas eram recheadas de referências a sexo, partes do corpo, funções corporais e outras obsessões adolescentes. As risadas repetitivas e os comentários grosseiros faziam parte de uma construção deliberadamente irritante. Mas havia inteligência por trás daquela aparente idiotice.
Quando a idiotice virou sátira
Beavis e Butt-Head funcionavam porque a série não dependia apenas das piadas escatológicas.
A dupla também servia para satirizar comportamento adolescente, televisão, consumo de música e a própria cultura popular. Eles podiam ser ridículos, mas muitas vezes revelavam, de maneira involuntária, o absurdo do mundo ao redor.
O impacto foi grande o suficiente para que a dupla ultrapassasse os limites da MTV. Em 1996, chegou aos cinemas o filme Beavis e Butt-Head Detonam a América, ampliando a história dos personagens para uma aventura de longa duração.
A relação deles com a música também ajudou a construir uma memória específica dos anos 1990. Para quem acompanhava a MTV naquela época, os comentários dos dois passaram a fazer parte da experiência de assistir aos videoclipes.
De ícones dos anos 90 à era do streaming
A nostalgia, porém, não ficou restrita ao século passado. Mais de duas décadas depois da estreia, Beavis e Butt-Head voltaram à televisão e ao streaming. Em 2022, o Paramount+ lançou Beavis and Butt-Head Do the Universe, primeiro filme da dupla em mais de dez anos, e posteriormente estreou uma nova série com episódios inéditos.
A volta mostrou que a lógica dos personagens ainda podia funcionar em uma cultura completamente diferente daquela dominada pela MTV.
Na década de 1990, eles ficavam diante da televisão esperando os próximos videoclipes. Na era do streaming, o comportamento mudou, mas a essência permaneceu: dois adolescentes continuam reagindo ao mundo com uma mistura de ignorância, sarcasmo e uma confiança desproporcional ao próprio conhecimento.
Os críticos que nunca quiseram ser críticos
Talvez seja justamente aí que esteja o legado mais curioso da dupla. Beavis e Butt-Head nunca tiveram a intenção de estabelecer critérios para avaliar música. Não estavam interessados em explicar arranjos, discutir produção ou analisar letras.
Eles simplesmente reagiam. E, ao fazer isso, ajudaram a transformar o ato de comentar videoclipes em parte do entretenimento. A frase atribuída ao guitarrista Larry LaLonde, do Primus, de que os dois seriam “os maiores críticos de música da história” resume bem a ironia.
Eles eram grosseiros, preguiçosos, ignorantes e frequentemente insuportáveis. Mas também eram engraçados, reconhecíveis e perfeitamente sintonizados com uma televisão que ainda tinha os videoclipes no centro da cultura musical.
Por isso, décadas depois, continuam sendo lembrados não apenas como personagens de uma animação adulta, mas como dois dos espectadores mais improváveis — e mais divertidos — da história da MTV.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



