Tentativas de golpe: Brasil registra outras intenções frustradas de militares ao longo da história
Do 'Punhal Verde e Amarelo' à Revolta da Vacina, Brasil tem histórico de crises de cunho golpista nas últimas décadas

As revelações recentes da Polícia Federal sobre um plano golpista que tinha por objetivo impedir a posse do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2022 sacudiram o Brasil. Chamado "Punhal Verde e Amarelo", o plano incluía ações como sequestros e homicídios de autoridades, como o próprio Lula, seu vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à época.
A investigação indicou a impressão do plano no Palácio do Planalto e revelou ligações com militares e ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro. A PF indiciou o ex-presidente e mais 36 pessoas por tentativa de golpe de Estado. O episódio é mais um na história brasileira de ameaças à democracia. A diferença, na visão da professora de história da UFMG, Priscila Carlos Brandão, é que as chances de sucesso da tentativa recente eram remotas.
“Primeiro porque quem sobe para regularizar a situação é o presidente da Câmara, não seria o Bolsonaro. Segundo, o Brasil quebraria, porque seria automaticamente expulso de todos os tratados comerciais atualmente existentes, que colocam a democracia como condição sine qua non (indispensável) de participação. A OEA nem entraria em contato, nos expulsaria à revelia”, explica.
Histórico
Um destes episódios de tentativa frustrada de golpe militar aconteceu durante o governo Rodrigues Alves, na Revolta da Vacina, em 1905. A rebelião durou cinco dias e teve seu estopim após uma lei que determinava a obrigatoriedade de vacinação contra a varíola. Na ocasião, uma rebelião liderada por Lauro Sodré tentou, sem sucesso, derrubar o presidente. “Foi um desastre total, todas as lâmpadas haviam sido quebradas e ninguém sabia em quem estava atirando”, explica a professora.
Outra tentativa ocorreu na crise de sucessão presidencial após a licença de Café Filho, em 1955, que ocorreu após a licença do ex-presidente por motivos de saúde. Carlos Luz, presidente da Câmara, assumiu interinamente, mas foi acusado de tentar impedir a posse de Juscelino Kubitschek, presidente eleito. Então, o general Henrique Lott liderou um movimento militar para garantir a ordem constitucional, destituindo Carlos Luz. O Congresso nomeou Nereu Ramos como presidente interino. Café Filho tentou reassumir, mas foi impedido pelos militares.
"Quando Lott evita o golpe, eles fogem para a Bahia de Guanabara, esperando vir uma reação de São Paulo, que não veio", diz a professora.
Em 1897, após o fim da Guerra de Canudos, republicanos radicais (que foram apelidados de jacobinos) descontentes tentaram assassinar o presidente Prudente de Morais. O ato foi frustrado pela intervenção do vice-presidente, Manuel Vitorino, que acabou morto.
Por fim, a Campanha da Legalidade de 1961 foi um movimento liderado por Leonel Brizola para garantir a posse de João Goulart após a renúncia de Jânio Quadros. Goulart, que estava na China, enfrentou oposição militar e de setores conservadores.
Contextos diferentes
A professora Priscilla explica que o comportamento dos militares antigamente envolvia mais articulações políticas. “Você vê que o país sobreviveu à história com muita gente achando que nunca vivemos uma ditadura. Ali tinha articulação, hierarquia, tinha contexto. Hoje falseiam uma guerra fria que é muito interessante para eles”, conta.
“O medo une quem desconhece a realidade, então esse anacronismo de guerra fria e o medo que eles produzem e que alguém vai invadir sua casa é extremamente útil”, finalizou.
Graduado em jornalismo e pós graduado em Ciência Política. Foi produtor e chefe de redação na Alvorada FM, além de repórter, âncora e apresentador na Bandnews FM. Finalista dos prêmios de jornalismo CDL e Sebrae.


