Relatório de comissão oficial aponta que JK foi assassinado pela ditadura
Relatório apresentado na Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) reacende discussão sobre a causa da morte do ex-presidente

A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) reanalisará o caso da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). Um relatório do grupo, assinado pela historiadora Maria Cecília Adão foi apresentado apontando que o mineiro foi assassinado pela ditadura militar, conforme noticiado pela Folha de S. Paulo na quinta-feira (7). O documento será votado pela comissão na próxima reunião.
JK morreu em agosto de 1976 em um acidente de carro na Via Dutra, que liga o Rio de Janeiro a São Paulo. Ele estava em um Opala dirigido por seu motorista Geraldo Ribeiro e foi atingido por uma carreta. Os dois ocupantes do automóvel faleceram.
O acidente passou por diversos escrutínios ao longo das últimas quase cinco décadas. A versão da ditadura militar, em curso no país entre 1964 e 1985, foi a de um acidente de trânsito comum. O veredito foi depois confirmado por outras análises, notadamente a da Comissão da Verdade, em 2014.
Há também outras versões, como a da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG) que, em 2012, pediu uma nova investigação do caso a partir da exumação do corpo do motorista de JK e a descoberta de um projétil metálico em sua cabeça. O fato deu nova força à hipótese de Geraldo ter sido baleado enquanto dirigia. Há também a hipótese dele ter sido envenenado ou do carro ter sido alvo de uma sabotagem mecânica, como sustentado pelas Comissões Estaduais da Verdade de São Paulo.
JK não foi um opositor da ditadura logo após o golpe de 1964 e nutria esperanças de voltar à Presidência da República em 1965, para quando os militares haviam prometido reabrir o pleito pelo Palácio do Planalto (o que só ocorreu efetivamente em 1989). Ao longo da duração do regime, no entanto, Juscelino passou ao campo da oposição como um dos líderes da frente ampla crítica ao governo dos generais.
A CEMDP tem caráter de órgão de Estado e foi fundada em 1995 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Hoje, ela é amparada tecnicamente pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e tem a prerrogativa de alterar, inclusive, a certidão de óbito de JK alterando a causa da morte.
Em nota enviada à reportagem, a CEMDP informou que o pedido de reabertura da investigação do caso JK foi protocolado logo após a reinstalação da comissão, por solicitação encaminhada em novembro de 2024 por Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e Ivo Patarra. Desde então, a historiadora Maria Cecília Adão tem trabalhado em seu relatório.
O relatório da historiadora foi apresentado na 7ª reunião ordinária da CEMDP, em 1º de abril de 2026 para conhecimento e apreciação do colegiado. Ainda não há uma data para que a comissão tome uma decisão definitiva sobre o caso.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



