O veto do Governo de MG que indignou servidores da Fazenda
Medida vetada pelo governador Mateus Simões (PSD) nega majoração na gratificação de carreiras com salário menor enquanto o próprio governo atua para atender a postos com vencimentos mais altos

Um veto assinado pelo Governador Mateus Simões (PSD) no Diário Oficial do Estado na última sexta-feira (3) causou estranheza entre os servidores da Secretaria de Estado de Fazenda (SEF-MG). Foi rejeitado um trecho que alteraria regras para o pagamento da Gratificação de Desempenho Individual (GDI) para técnicos e analistas da pasta. A medida ocorre enquanto o próprio Executivo tenta aprovar na Assembleia Legislativa (ALMG) um projeto que regulamenta gratificações a auditores e gestores da mesma secretaria, carreiras que podem receber até seis vezes mais que os colegas que tiveram o benefício negado.
O veto publicado enquanto tramita na ALMG o PL 5.234/2026, o que trata sobre auditores e gestores, causou entre os técnicos e analistas a ideia de que o Governo de Minas está favorecendo carreiras específicas na Secretaria de Estado de Fazenda.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público no Estado de Minas Gerais (Sindpúblicos-MG), o trecho vetado pelo governador estabeleceria o fim do teto estabelecido à GDI paga aos analistas e técnicos, hoje estabelecido por 80% do maior vencimento da carreira.
Na prática, se sancionado, o trecho faria com que o valor de R$ 4.883,00 mensais referentes à gratificação seriam pagos integralmente aos servidores e não cortados em mais de R$ 1 mil, como é feito atualmente. O Governo de Minas disse que o veto atende às normas constitucionais que impedem que emendas parlamentares impliquem em um aumento de despesa em projetos que são prerrogativa reservada ao Executivo.
Por outro lado, o sindicato questiona o fato de que o cálculo de impacto orçamentário do pagamento integral da GDI a técnicos e analistas seria de R$ 4 milhões anuais, enquanto o impacto do PL 5.234/2026 é calculado em R$ 35 milhões anuais.
“O que causa indignação para todos os técnicos e analistas fazendários com o veto foi a falta de empenho da secretária de fazenda para chegar até o governador e explicar do que que se trata. Na verdade, a partir do momento que a gente construiu uma emenda e conseguiu aprovar a emenda, era uma correção de uma injustiça que já perdura há quatro anos. Essa emenda é uma correção de injustiça, que retira o desconto de R$ 1.055 que todos os técnicos já têm nos seus contracheques. E a estranheza toda é o seguinte: quando a matéria interessa aos auditores, a Secretaria de Fazenda com seu põe todo o seu staff para ir na AGE (Advocacia Geral do Estado), solicitar parecer, mobiliza a parte política, vai até o governador, promete resultados, mas quando é para para os técnicos, que é o andar de baixo da secretaria de fazenda, ninguém se movimenta. Há um tratamento desigual”, disse à reportagem o diretor fazendário do Sindpúblicos, Ronaldo Luz Machado.
A reportagem procurou o Governo de Minas e a SEF para que ambos se posicionem sobre as alegações do Sindpúblicos. Em nota, a pasta disse que “as justificativas para o veto estão contidas na referida publicação do Diário Oficial Eletrônico de Minas Gerais”.
Relembre o PL 5.234/2026
O projeto regulamenta a Gratificação de Estímulo à Produção Individual e a Gratificação de Desempenho Individual pagos às carreiras mais altas da Fazenda, como os auditores fiscais. A medida transforma em lei dispositivos que majoram em até quatro vezes o vencimento da categoria, que integra o recorte mais bem pago do funcionalismo público do estado.
O texto está travado há meses em primeiro turno na Comissão de Fiscalização Financeira e Orçamentária (FFO) da ALMG diante das pedidas de outras categorias para serem incluídos na proposta.
A FFO é a última comissão antes de o projeto ser avaliado por todos os deputados em plenário no primeiro turno. A passagem do texto nas comissões de Administração Pública (APU) e de Constituição e Justiça (CCJ) foi marcada por longos debates entre situação e oposição na Casa.
É de interesse do Governo de Minas aprovar o projeto para pacificar a situação na Secretaria de Fazenda, já que a não regulamentação das gratificações poderia reduzir drasticamente os salários da pasta.
Por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), os reajustes em gratificações devem ser feitos via lei e não podem mais ser feitos por decretos governamentais, como ocorria anteriormente. Como mostrou a colunista da Itatiaia, Bertha Maakaroun, entre 2019 e 2026, a gratificação aos servidores da Fazenda teve uma variação positiva de 66,92%. Já os demais servidores do Executivo tiveram um reajuste de 20,08% no mesmo período.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



