Belo Horizonte
Itatiaia

CPMI do 8/1: relatório paralelo da oposição propõe indiciamento de Lula e Flávio Dino

Parlamentares da oposição vão apresentar voto em separado que sugere indiciamentos de Lula e Dino ainda na sessão desta terça-feira (17)

Por
Documento paralelo produzido pela oposição sugere indiciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Documento paralelo produzido pela oposição sugere indiciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva  • Fábio Rodrigues Pozzebom | Agência Brasil

A oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) construiu um relatório paralelo ao da senadora Eliziane Gama (PSD-MA) e irá apresentá-lo na sessão desta terça-feira (17) da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos atos antidemocráticos. O documento sem validade oficial no âmbito da investigação é assinado por 16 parlamentares oposicionistas e sugere os indiciamentos de seis pessoas, entre elas o presidente Lula e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino (PSB-MA).

O voto em separado ainda pede que sejam responsabilizados o general Gonçalves Dias, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) à ocasião do 8 de Janeiro, Saulo Moura da Cunha, que é ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), coronel Klepter Rosa Gonçalves, comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), e tenente-coronel Paulo José Ferreira de Souza Bezerra, ex-interino do Departamento Operacional da PMDF.

Relatório oficial de Eliziane Gama propõe que Bolsonaro seja indiciado

Jair Bolsonaro (PL) e oito generais das Forças Armadas do Brasil são alvo de um extenso pedido de indiciamento contido no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos atos antidemocráticos. O documento apresentado pela senadora Eliziane Gama (PSD-MA) nesta terça-feira é um calhamaço com mais de mil e trezentas páginas, se debruça sobre cinco meses de investigação e indica quem é o principal culpado pelos ataques golpistas. "O nome é Jair Bolsonaro", cravou a relatora ao abrir a leitura do documento.

"Foi uma tentativa propositada e premeditada de Golpe de Estado. O objetivo era incendiar o país, provocar o caos e a desorganização política e, até mesmo, se necessário, levar a uma guerra civil", declarou. "Faltou-lhes, porém, ao bolsonarismo radical, o número. Os atos se circunscreveram à praça dos Três Poderes e limitaram-se a cinco mil pessoas capturadas pelo discurso de ódio", acrescentou.

"Não se pode analisar o 8 de Janeiro como ato isolado", indicou citando os ataques prévios ocorridos em Brasília no mês de dezembro — a colocação de uma bomba em um caminhão-tanque nas imediações do aeroporto da capital federal e a ofensiva contra a Polícia Federal nos dias 12 e 24 daquele mês.

Outros indiciados

O relatório final pediu, além do indiciamento de Jair Bolsonaro, as responsabilizações da deputada Carla Zambelli (PL-SP), do ex-ajudante de ordens Mauro Cid, do ex-ministro da Justiça Anderson Torres e de outras 57 pessoas. Entre elas estão generais das Forças Armadas, agentes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Polícia Rodoviária Federal. O documento é um calhamaço com mais de mil páginas e se debruça sobre os resultados de cinco meses de investigação, reunindo um balanço dos depoimentos coletados, das quebras de sigilo e dos documentos obtidos desde maio.

Além da parlamentar, de militares, de agentes públicos e de empresários ligados ao governo de Jair Bolsonaro, o relatório propõe ainda o indiciamento de membros da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) e sugere que sejam aprofundadas as investigações sobre a atuação do governador Ibaneis Rocha (MDB-DF). O político, aliás, permaneceu dois meses afastado do cargo por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a suspeita de omissão durante a invasão às sedes dos Três Poderes em janeiro.

Confira a seguir alguns dos destaques do relatório apresentado pela senadora Eliziane Gama:

Braga Netto: o relatório pede o indiciamento do candidato à vice-presidência na chapa de Jair Bolsonaro na eleição presidencial do ano passado pelos crimes de associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. No documento, Eliziane Gama escreveu que Braga Netto era um dos quatro elementos que “alimentavam as aventuras golpistas de Bolsonaro”;

General Heleno: o documento também propõe o indiciamento de Augusto Heleno pelos mesmos crimes imputados a Braga Netto. A relatora argumentou que o militar teve acesso a minutas de golpe que circularam na alta cúpula do governo Bolsonaro para mantê-lo na presidência da República. Eliziane Gama classificou que ele teve responsabilidade direta nos ataques do 8 de Janeiro;

Almir Garnier: o almirante da Marinha é acusado dos mesmos crimes imputados aos generais Braga Netto e Heleno. O comandante teria incentivado o “espírito golpista de Bolsonaro”, como escreveu Eliziane Gama. A delação premiada de Mauro Cid à Polícia Federal (PF) indica que ele teria colocado a Marinha à disposição do então presidente para um golpe de Estado;

Mauro Cid: o tenente-coronel à frente da ajudância de ordens de Jair Bolsonaro é igualmente acusado dos crimes de associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Ele é alvo de, pelo menos, quatro inquéritos da Polícia Federal e assinou recentemente um acordo de colaboração premiada homologado pela Justiça;

Anderson Torres: ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e secretário de Segurança Pública do Distrito Federal à ocasião do 8 de Janeiro, ele é acusado dos mesmos três crimes acima citados. Torres também é apontado como o responsável pelas blitze realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em municípios com maioria de eleitores do então candidato Lula (PT) no Nordeste do país durante o segundo turno das eleições. O diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, e a diretora de inteligência do Ministério de Justiça de Torres, Marília Ferreira de Alencar, também são apontados como responsáveis pelas operações ostensivas da polícia ao final da eleição presidencial;

Carla Zambelli: a deputada federal é indicada como o elo que ligava Jair Bolsonaro ao hacker Walter Delgatti Neto. O relatório pede que ela seja indiciada por associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado;

Ibaneis Rocha: a relatora Eliziane Gama indica no documento que o governador do Distrito Federal sabia da possibilidade de que atos violentos ocorressem na ocasião das manifestações do 8 de Janeiro. A senadora acusa o político de não ter requisitado o emprego da Força Nacional ao Ministério da Justiça para proteção da praça dos Três Poderes. Eliziane Gama não pede o indiciamento de Ibaneis, mas sugere que a Justiça aprofunde as investigações sobre a atuação dele nos atos antidemocráticos é possível crime de omissão.

Por

Repórter de política em Brasília. Na Itatiaia desde 2021, foi chefe de reportagem do portal e produziu série especial sobre alimentação escolar financiada pela Jeduca. Antes, repórter de Cidades em O Tempo. Formada em jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais.