Como é o documentário de Bolsonaro, que estreou um dia após polêmica de Flávio com Vorcaro
O filme dirigido por Doriel Francisco e produzido pelo deputado Mário Frias (PL-SP) e pelo ex-deputado e filho 02 do ex-presidente, está em exibição na capital mineira no Shopping Cidade e no Ponteio Lar Shopping

Um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se ver envolvido no furacão do Banco Master por ter vazadas mensagens em que negociava o financiamento de Daniel Vorcaro para a cinebiografia de seu pai, estreou nos cinemas brasileiros um documentário sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Além da reportagem da Itatiaia, dois casais e três mulheres compareceram à primeira sessão do documentário “A Colisão dos Destinos” em Belo Horizonte, na tarde desta quinta-feira (14). O filme dirigido por Doriel Francisco e produzido pelo deputado Mário Frias (PL-SP) e pelo ex-deputado e filho 02 do ex-presidente, está em exibição na capital mineira no Shopping Cidade e no Ponteio Lar Shopping.
Com 69 minutos de duração, o documentário não tem narração em off e a história de Jair é contada por uma sucessão de entrevistas com familiares e o próprio homenageado pela produção. Em sua total extensão, o filme tem uma trilha sonora instrumental com um piano em destaque e as transições são marcadas por vídeos e fotografias animadas em uma estética semelhante à produzida por inteligência artificial.
Falam na obra três irmãs e um irmão de Jair Bolsonaro; os deputados federais Mário Frias, Hélio Lopes (PL-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG) e o deputado estadual Gil Diniz (PL-SP); e os três filhos mais velhos do ex-presidente: Carlos, ex-vereador do Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, Eduardo e Flávio, pré-candidato à presidência da República.
Os filhos mais novos, Jair Renan e Laura, não dão entrevista. Michelle Bolsonaro, atual esposa e ex-primeira dama não é sequer citada. Na total obscuridade também ficaram as mães dos filhos de Jair.
A dinâmica do filme
O documentário começa com Denise, Renato, Solange e Vânia, todos irmãos de Jair Bolsonaro, contando sobre a infância do ex-presidente em Eldorado Paulista. O próprio Bolsonaro comenta sobre sua relação com os irmãos e como ajudava os pais trabalhando na pesca e revenda de peixes.
Carlos e Eduardo aparecem para comentar que o pai não relata muitas histórias da infância e que comenta mais sobre a própria vida a partir da maioridade e a entrada no Exército.
Ainda que Jair participe do documentário (cujas imagens foram gravadas em 2024, antes de sua prisão), quem conta sua história são os filhos.
Uma parte significativa do miolo do documentário é despendida tentando constituir a imagem de Bolsonaro como um homem brincalhão e que manifesta seu amor pelos filhos de forma diferente: “com porrada” e “chute na bunda”, nas palavras de Flávio.
“Nunca beijei um filho meu e nunca falei ‘eu te amo’ pra um filho homem meu. Você tem que tratar o moleque como a vida é. Em certos países com cinco anos a criança aprende a desmontar uma arma. É a vida”, diz Jair Bolsonaro.
Neste momento, Carlos também relata o medo que sentiu quando teve de mostrar sua primeira tatuagem ao pai: uma tatuagem com a ilustração do rosto de Jair no braço do filho.
O tom pessoal do filme permite frases em que os filhos revelam sentimentos sobre o pai e análises não tão bem calculadas do ponto de vista político.
“Se você pega a vida dele desde o quartel, ele fazia tudo pra dar errado e de repente faça certo. Inexplicável”, afirma Flávio sobre a vida política do pai.
A intimidade escala ainda mais em outros momentos como nesta fala de Carlos sobre o pai: “O momento de lazer dele é no banheiro. […]Tem gente que vai levar isso pro lado pejorativo, mas quem quiser um bate-papo bacana vai entender o que eu quero dizer”.
Feito para apoiadores
O documentário não tem a menor pretensão de convencer ninguém além dos bolsonaristas mais convictos, como era o caso da risonha e emotiva plateia que assistiu à estreia do filme em BH.
Prova disso é que o filme termina com o discurso de posse de Bolsonaro em 2019 e quase não fala sobre o governo que ele empreendeu nos quatro anos seguintes. O único ponto abordado nesse sentido é justamente o maior calcanhar de Aquiles, a pandemia.
Neste momento, Hélio Lopes lembra entre soluços de uma passagem em que Bolsonaro promoveu uma aglomeração e ouviu de uma senhora a suplica para que ele não fechasse o país e deixasse o povo trabalhar.
Na mesma linha, Nikolas Ferreira narra um passeio com o então presidente pela periferia de Brasília em que Bolsonaro garantiu a uma idosa que não fecharia as igrejas no momento da maior crise sanitária do planeta em um século.
O atentado sofrido a faca em Juiz de Fora, inclusive, é o principal tema do documentário. Os 25 minutos finais do filme de pouco mais de uma hora são integralmente dedicados ao episódio que Carlos classifica como um divisor de águas para o amadurecimento do pai.
Eduardo dá detalhes gráficos sobre o ferimento e diz que o pai “morreu” e voltou “duas vezes”. O ex-deputado paulista e o Carlos choram bastante ao lembrar dos momentos vividos pela família após a facada.
Fora o baixo público, o resultado no Shopping Cidade na tarde desta quinta-feira pode ser considerado um sucesso. Os espectadores saíram da sala empolgados e ironizando a mais recente polêmica da família Bolsonaro: “eu não estou nem aí, podem me chamar de ‘Vorcara’”, disse uma senhora a outra descendo as escadas da sala.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



