Até 2016, plenário do Senado Federal não tinha banheiro feminino
Há 90 anos não podíamos votar, há 60 anos precisávamos de autorização do marido para trabalhar, há 17 anos não havia punição para quem cometesse violência contra nós

Até 2016, o plenário do Senado Federal não tinha banheiro feminino. Parece absurdo, e é mesmo. Quando revelada nas visitas guiadas ao Congresso, a informação assusta. Foram 55 anos de funcionamento apenas com banheiro masculino, uma demonstração clara de que o espaço foi planejado para que a política fosse debatida e exercida apenas por homens. Uma contradição em um pais majoritariamente feminino.
Até a última sessão plenária de 2015, as 12 senadoras, quando precisavam, tinha que deixar o plenário do Senado e ir ao banheiro no restaurante da Casa. A realidade só foi alterada depois de uma grande mobilização das parlamentares, que representavam 15% dos senadores.
Passados sete anos, o número de parlamentares mulheres ainda é pequeno. Das 81 cadeiras, 15 são ocupadas por senadoras. E tem explicação: o plenário tem banheiro, mas muita gente continua trabalhando para que as mulheres fiquem fora da política. Enquanto isso, uma maioria de homens permanece debatendo leis e ditando regras que afetam o universo feminino.
Em 2018, uma projeção do Fórum Econômico Mundial mostrou que somente daqui 200 anos vamos conquistar igualdade de gênero no mercado de trabalho. O Canal Futura fez uma linha do tempo das principais conquistas femininas e elas mostram que há 200 anos não tínhamos o direito de frequentar a escola, há 90 anos não podíamos votar, há 60 anos precisávamos de autorização do marido para trabalhar, há 17 anos não havia punição para quem cometesse violência doméstica contra nós. Um histórico de desigualdades e abusos que vem sendo, aos poucos, superados:
1827 – Meninas são liberadas para frequentarem a escola
1852: Primeiro jornal feminino
1879 – Mulheres conquistam o direito ao acesso às faculdades
1910 – O primeiro partido político feminino é criado
1932 – Mulheres conquistam o direito ao voto
1962 – Criação do Estatuto da Mulher Casada – mulheres não precisam mais de autorização do marido para trabalhar
1977 – É aprovada a Lei do Divórcio
1979 – Direito à prática do futebol
Todas essas transformações, ainda que tardias, só foram possíveis porque muitas de nossas tataravós, bisavós e mães lutaram. Se elas tivessem ficado caladas, as mudanças não ocorreriam.
Por isso, toda vez que virem qualquer injustiça: denunciem, reivindiquem, debatam. Se um colega de trabalho homem, que exerça a mesma função, por ventura, ganhe mais que você: reivindique. Se o seu irmão tiver algum benefício em casa que você não tenha, converse com seus pais. Se o seu marido, que trabalha fora como você, achar que não deva dividir as tarefas domésticas: mostre a ele que ele precisa.
E um recado que vale para todos (chefes, mães, pais, filhos, maridos): não apenas desejem “Feliz Dia das Mulheres”, façam o possível para que, de fato, nós mulheres sejamos mais felizes, menos julgadas e menos sobrecarregadas. É uma missão de todos nós.
E não se esqueça, somos imparáveis!
Este é um artigo de opinião
Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.



