Por unanimidade, Câmara de BH recebe nova denúncia contra Lucas Ganem
Denúncia define a abertura de uma nova comissão processante que pode cassar o mandato do parlamentar investigado por fraude no domicílio eleitoral

A Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) aprovou o recebimento de nova denúncia contra o vereador Lucas Ganem (MDB) nesta terça-feira (14). Com 39 votos favoráveis e nenhum contrário, os vereadores decidiram acatar nova denúncia que pede a cassação do mandato do parlamentar, que é investigado na Justiça por possível fraude na informação de domicílio eleitoral no pleito municipal de 2024.
O placar de 39 a 0 significa que Ganem recebeu votos de todos os vereadores da Casa, já que ele próprio e o presidente Juliano Lopes (Podemos) não votam. O pleito seria simbólico, mas foi nominal devido a requerimento apresentado por Osvaldo Lopes (Podemos).
Ganem já foi alvo de uma comissão processante na Câmara de BH pelo mesmo motivo. Os trabalhos foram iniciados em janeiro deste ano, mas o processo terminou arquivado diante da decisão da Justiça pela suspensão dos trabalhos no Legislativo.
Na nova denúncia, apresentada pela cidadã de BH Daniela Conceição de Sousa, o pedido de cassação de Ganem é justificado pela fraude no domicílio eleitoral e pela montagem de uma estrutura administrativa artificial.
O documento questiona novamente o fato de que o vereador afirmou morar em uma residência no Bairro Trevo, na Região da Pampulha, embora nunca tenha morado lá, conforme apontado no inquérito feito pela Polícia Federal em processo que corre na Justiça para averiguar a possível irregularidade eleitoral.
Em relação à estrutura administrativa artificial, a denúncia aponta que um relatório de geolocalização do cartão-benefício de alimentação da Câmara mostra que nove servidores do gabinete de Ganem concentraram de 53% a 100% de seus gastos em municípios paulistas em dias úteis de 2025.
Com o recebimento da denúncia, foi sorteada uma nova comissão processante com três vereadores mediante sorteio, são eles: Juninho Los Hermanos (Avante), Marilda Portela (PL) e José Ferreira (Podemos). O prazo para a conclusão dos trabalhos incluindo instrução, defesa e julgamento é de 90 dias.
O recebimento e votação da denúncia dão um sinal de persistência da Câmara de BH no objetivo de avançar com o processo contra Ganem. O presidente da Casa, Juliano Lopes, chegou a relatar ameaças de exclusão de seu partido, o Podemos, por ter pautado o antigo processo em plenário. Lucas faz parte de uma família proeminente na legenda em outros estados.
Relembre o caso na Justiça
As primeiras suspeitas sobre a possível fraude eleitoral cometida por Ganem foram publicadas originalmente pelo portal O Fator já em outubro de 2024, semanas após a eleição. A reportagem mostrou também que o então vereador eleito integra uma família de candidatos que se baseia na defesa dos direitos dos animais para montar campanhas supraterritoriais em diferentes cidades e estados do país.
O caso então passou a ser formalmente investigado. Rubão, primeiro suplente do Podemos, acionou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Em dezembro de 2025, a corte determinou a cassação do parlamentar. Ganem recorreu da decisão e o caso ainda não foi avaliado por instâncias superiores.
Um mês antes, em novembro de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) já havia emitido um parecer pela cassação do vereador. O documento apontava que a própria Justiça Eleitoral teve dificuldades de encontrar o então candidato no endereço informado como seu domicílio na capital mineira.
No início de abril, a Polícia Federal indiciou Lucas Ganem por fraude na apresentação de domicílio eleitoral. O inquérito concluiu que o parlamentar nunca morou na cidade, apesar de tê-lo alegado ao registrar sua candidatura.
A conclusão da investigação apontou que Ganem nunca residiu ou sequer pernoitou no endereço fornecido à Justiça Eleitoral como sua residência no Bairro Trevo, na região da Pampulha. Segundo o inquérito, a informação foi corroborada por documentos do proprietário do imóvel, moradores locais e o próprio investigado.
Em dezembro de 2025, Ganem pediu uma licença de quatro meses na Câmara de BH e ficou afastado abril deste ano. Neste ínterim, o parlamentar chegou a declarar que pretende concorrer a deputado estadual no pleito de outubro.
Em uma das reuniões da comissão processante, Ganem chegou a admitir que se mudou para Belo Horizonte logo que foi eleito vereador de BH. A Lei Eleitoral, no entanto, determina que os candidatos já morem no município em que disputarão o pleito ao menos seis meses antes da votação.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.



