Lugar de coelho não é na gaiola; entenda por que a criação livre é a nova norma de bem-estar

A criação livre se tornou o padrão ouro de bem-estar, porque permite que esses animais expressem seus comportamentos naturais

O estresse do confinamento reduz a imunidade dos coelhos

Muita gente quando imagina um coelho de estimação, tem em mente a imagem de um coelho na gaiola. A boa notícia é que o avanço da medicina de animais exóticos e dos estudos de comportamento animal transformou essa visão. Hoje, a recomendação de especialistas e do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) é clara: coelhos não devem viver confinados.

A criação livre se tornou o padrão ouro de bem-estar, porque permite que esses animais expressem seus comportamentos naturais, como correr, saltar e explorar. No caso de apartamentos, são necessárias adaptações importantes para garantir tanto a segurança do pet quanto a integridade da casa.

Do ponto de vista fisiológico, o confinamento em gaiolas é extremamente prejudicial. Coelhos têm uma estrutura óssea frágil e uma musculatura potente nas patas traseiras. Ou seja, sem espaço para se exercitarem, podem desenvolver atrofia muscular, obesidade e pododermatites, feridas nas patas causadas pelo piso gradeado.

Segundo a Academia Brasileira de Clínicos de Felinos (ABFEL), que estende suas diretrizes de bem-estar a pequenos mamíferos que convivem em lares multiespécies, o estresse do confinamento também reduz a imunidade dos coelhos.

“Um coelho que vive preso é um animal apático e propenso a doenças gastrointestinais, que são as principais causas de óbito na espécie”, alertam os manuais técnicos.

Para quem não pode deixar o animal totalmente solto 24 horas por dia, a solução intermediária são os cercados modulares. Diferente das gaiolas, os cercados oferecem uma área grande onde o coelho pode se esticar e brincar.

E antes de liberar o acesso do pet ao restante da residência, o tutor deve fazer algumas adaptações em casa. O maior risco doméstico é o perigo de roer fios: coelhos têm dentes de crescimento contínuo e um instinto inato de “podar” o que encontram pelo caminho. Cabos de internet, carregadores e fios de eletrodomésticos devem ser protegidos com conduítes de plástico rígido ou escondidos atrás de móveis.

Além dos fios, plantas ornamentais tóxicas e frestas atrás de sofás representam riscos. Segundo a médica veterinária especialista em exóticos, Selene Sanches, a adaptação da casa é um investimento na longevidade do pet.

“O coelho é um animal limpo e inteligente, capaz de aprender a usar a caixa de areia como um gato. Quando ele tem liberdade e segurança, sua personalidade floresce e ele se torna um companheiro muito mais interativo e dócil”, explica a especialista.

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A Itatiaia preparou um guia básico para o tutor adaptar a própria casa para um coelho livre:

Proteção de cabos

Utilize organizadores de fios ou canaletas de PVC em todos os cabos que estejam ao alcance do animal, algo até cerca de 50 centímetros de altura.

Piso adequado

Coelhos não possuem almofadas nas patas (coxins). Pisos muito lisos podem causar lesões; use tapetes de algodão ou placas de EVA para criar “rotas de fuga” antiderrapantes.

Área de base

Mesmo solto, o coelho precisa de um “porto seguro” com seu feno, água, caixa de areia e uma toca para se esconder quando se sentir inseguro.

Cuidado com a mobília

Ofereça brinquedos de madeira própria para roer e feno à vontade. Isso redireciona o instinto de roer e evita que ele destrua pés de mesa e rodapés.

Bloqueio de frestas

Vãos pequenos onde o coelho possa enfiar a cabeça e ficar entalado devem ser bloqueados com telas ou móveis.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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