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Engenharia genética pode ajudar a recuperar espécies extintas e salvar animais ameaçados

A tecnologia usada para recriar características do lobo gigante também está sendo estudada para aumentar a diversidade genética e desenvolver resistência a doenças em espécies que ainda existem, mas estão sob risco de desaparecer

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Fóssil de animal de 240 milhões de anos intriga cientistas
Imagem ilustrativa • Imagem gerada com auxílio de IA

A ideia de recuperar animais extintos parece pertencer ao universo da ficção científica, mas experiências recentes mostram que a engenharia genética já consegue reproduzir algumas características de espécies que desapareceram há milhares de anos. Ao mesmo tempo, as mesmas ferramentas podem ser utilizadas para tentar evitar que animais ameaçados tenham o mesmo destino.

A bióloga evolutiva Beth Shapiro, diretora científica da Colossal Biosciences, explicou o potencial dessas tecnologias em entrevista ao podcast Huberman Lab, apresentado pelo neurobiólogo Andrew Huberman.

Um dos principais exemplos é o projeto envolvendo o lobo gigante, animal extinto há mais de 10 mil anos e que inspirou os lobos retratados em "Game of Thrones". Atualmente, três exemplares, chamados Rômulo, Remo e Khaleesi, vivem em um espaço controlado nos Estados Unidos.

Como os cientistas recriaram características do lobo gigante

Para produzir os animais, os pesquisadores sequenciaram genomas obtidos de fósseis de lobos gigantes e compararam o material genético com o DNA de lobos cinzentos atuais.

A análise permitiu identificar alterações relacionadas a características que diferenciavam os animais extintos, como tamanho, estrutura corporal e coloração da pelagem. A equipe então realizou 20 edições genéticas no genoma de um lobo cinzento.

"Nossos lobos gigantes têm 20 edições que escolhemos. Sequenciamos genomas de lobos gigantes fósseis e aprendemos com esses genomas quais mudanças genéticas fizeram com que esses animais fossem maiores, mais robustos e tivessem pelagem clara. Depois, projetamos essas mudanças em um genoma de lobo cinzento para recriar o lobo gigante", explicou Shapiro.

A cientista também defendeu o uso do nome lobo gigante para os animais criados a partir dessas modificações genéticas.

"Se parece um lobo gigante e é capaz de ocupar o nicho de um lobo gigante, fico feliz em chamá-lo de lobo gigante", afirmou.

Apesar do projeto, os três animais não poderão se reproduzir entre si. Como são geneticamente muito próximos, a equipe utiliza hormônios para impedir a reprodução. A empresa pretende formar uma segunda manada para estudar melhor os efeitos desses animais e de suas características genéticas.

A tecnologia também pode ajudar espécies que ainda existem

Para Shapiro, a chamada desextinção e a conservação de espécies ameaçadas não devem ser vistas como áreas completamente diferentes. Segundo ela, as mesmas ferramentas desenvolvidas para estudar espécies desaparecidas podem ser utilizadas para enfrentar problemas que ameaçam animais vivos.

O interesse despertado por projetos envolvendo o mamute, o dodo e o tilacino também pode contribuir para aumentar investimentos e acelerar o desenvolvimento de tecnologias voltadas à conservação.

No caso do mamute, por exemplo, o objetivo não é simplesmente produzir uma cópia idêntica de um animal que viveu no passado. A estratégia é identificar as características genéticas presentes nos mamutes e diferentes daquelas encontradas nos elefantes atuais.

"Estamos nos concentrando nas características que são iguais em todos os mamutes, mas diferentes das dos elefantes, porque acreditamos que são essas características que definem o que faz um mamute ser um mamute", explicou a bióloga.

Edição genética contra doenças e ameaças

Entre os projetos voltados à conservação está o do furão-de-patas-negras, uma espécie que chegou perto da extinção após a caça de cães-da-pradaria. Atualmente, um dos problemas enfrentados pelo animal é a baixa diversidade genética, além da ameaça provocada pela peste.

Pesquisadores ligados à Colossal clonaram animais utilizando tecidos congelados para ampliar a diversidade genética da espécie. Também investigam quais alterações poderiam ajudar esses furões a desenvolver resistência à doença.

Na Austrália, outra estratégia está sendo estudada para proteger o quoll-do-norte, um marsupial carnívoro ameaçado pela ingestão de sapos-de-cana, animais tóxicos introduzidos no país.

De acordo com Shapiro, os pesquisadores conseguiram inserir no quoll uma variante genética encontrada em outros mamíferos que conseguem consumir esses sapos sem morrer. A expectativa é que essa característica possa ajudar o marsupial a lidar com uma das ameaças presentes em seu ambiente.

"Não fazer nada" também é uma decisão

As possibilidades abertas pela engenharia genética também levantam discussões sobre os limites da intervenção humana na natureza. Para a bióloga, porém, deixar de agir diante do risco de extinção também representa uma escolha.

"Não fazer nada não é não decidir. Não fazer nada é dizer que aceitamos o fato de que teremos um futuro menos biodiverso do que o presente", afirmou.

Shapiro também argumentou que a intervenção humana sobre outras espécies não começou com as atuais tecnologias genéticas. Ela citou como exemplos a domesticação do lobo cinzento e a transformação do teosinte, ancestral do milho, ao longo do processo de domesticação.

Apesar dos avanços, os lobos gigantes criados pelo projeto não serão soltos na natureza neste momento. A prioridade é acompanhar os animais em ambiente controlado e estudar como as alterações genéticas influenciam aspectos como saúde e expectativa de vida antes de considerar qualquer possibilidade futura.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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