Camaleões não conseguem imitar qualquer cor, revela estudo científico
Pesquisa da Universidade de Exeter mostra que camaleões conseguem ajustar a cor e o brilho da pele para se aproximar de determinados fundos, mas têm limitações e não são capazes de reproduzir padrões do ambiente como sugere a cultura popular

Durante anos, os camaleões foram retratados como verdadeiros mestres do disfarce, capazes de assumir praticamente qualquer cor para desaparecer diante do ambiente. Um novo estudo científico, porém, mostra que essa habilidade é mais limitada do que a crença popular faz parecer.
Pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, analisaram oito camaleões-de-pescoço-com-dobra (Chamaeleo dilepis) para descobrir até que ponto esses animais conseguem adaptar a aparência da pele aos diferentes fundos. Os resultados indicaram que eles realmente conseguem alterar a coloração e o brilho do corpo, mas não são capazes de copiar qualquer tonalidade ou reproduzir desenhos presentes no ambiente.
Amarelo foi a cor que provocou a resposta mais rápida
Nos experimentos, os pesquisadores colocaram os animais diante de fundos de diferentes cores, incluindo amarelo, amarelo-esverdeado, laranja e azul-esverdeado. Também foram utilizados ambientes pretos, brancos e cinzentos.
Os camaleões apresentaram a resposta mais rápida e precisa diante do amarelo. Com o passar do tempo, também aumentaram a semelhança com o laranja.
Para realizar os testes, cada animal permaneceu inicialmente durante 20 minutos em um recinto cinza. Depois, foi levado para o ambiente que seria analisado. Fotografias foram feitas imediatamente e em intervalos de um a três minutos, durante até 21 minutos.
Os pesquisadores também interrompiam o procedimento caso o animal apresentasse sinais de desconforto, tentasse escapar ou se a sessão ultrapassasse 40 minutos.
Segundo Tom Major, um dos pesquisadores, as cores amarelo-esverdeado e azul-esverdeado foram escolhidas porque estão entre aquelas que podem ser produzidas por outros camaleões.
Camaleões também conseguem alterar o brilho da pele
A capacidade de adaptação não se limita à cor. Os pesquisadores observaram mudanças importantes no brilho da pele quando os animais foram colocados sobre diferentes superfícies.
No fundo preto, por exemplo, os flancos dos camaleões ficaram mais escuros. A redução média da luminosidade chegou a 23,3%, uma alteração registrada em questão de minutos.
Já diante do branco, os animais ficaram, em média, 20,7% mais claros. No entanto, os dados não foram suficientes para afirmar com segurança que essa mudança ocorreu especificamente como resposta ao fundo.
Os cientistas também avaliaram a aparência dos animais considerando a maneira como um possível predador poderia enxergá-los. Para isso, utilizaram um modelo baseado na visão de aves, buscando estimar o quanto o camaleão ficaria parecido com o ambiente.
Eles não conseguem copiar desenhos e manchas
Uma das descobertas mais importantes do estudo foi justamente o limite da capacidade de camuflagem.
Os pesquisadores criaram fundos com diferentes padrões de manchas, combinando preto e branco ou verde e amarelo. As manchas também variavam de tamanho.
Nenhum dos camaleões, porém, alterou o desenho de sua pele para reproduzir a distribuição ou o tamanho das manchas presentes no fundo. Ou seja, se o animal fosse colocado sobre uma superfície com vários desenhos, não passaria a apresentar automaticamente um padrão semelhante.
Os pesquisadores consideram que isso pode acontecer porque esses estímulos não desencadearam uma mudança de padrão ou porque esse tipo de transformação exigiria mais tempo do que os 21 minutos utilizados nos experimentos.
A fama dos camaleões vai além do que a ciência comprova
O estudo ajuda a explicar por que a imagem do camaleão como um animal capaz de assumir qualquer aparência é tão difundida, mas não corresponde completamente à realidade.
Segundo a pesquisadora Alexia C. M. Hesten, "essas famosas habilidades têm seus limites e talvez os camaleões prefiram os tipos de lugares que instintivamente sabem que podem mimetizar".
A pesquisa também reforça que a mudança de cor desses répteis não serve exclusivamente para a camuflagem. Estudos anteriores já apontaram que alterações na aparência podem estar relacionadas à comunicação entre indivíduos e à regulação da temperatura corporal.
No novo experimento, os pesquisadores observaram que os animais podem utilizar a mudança de cor e brilho para melhorar a camuflagem, mas dentro de uma faixa limitada de possibilidades.
O ambiente pode influenciar as cores que eles conseguem imitar
Os camaleões-de-pescoço-com-dobra vivem em áreas com vegetação diversificada, incluindo gramíneas, arbustos e árvores, além de também passarem parte do tempo no solo.
Esses ambientes mudam ao longo das estações, especialmente entre períodos úmidos e secos. Com isso, as cores da vegetação também podem variar.
Para os pesquisadores, essa característica pode ajudar a explicar por que os camaleões apresentaram respostas mais claras diante de determinadas tonalidades, especialmente o amarelo e, em menor grau, o laranja.
Em contrapartida, os animais já apresentavam uma boa correspondência com os fundos azul-esverdeados e amarelo-esverdeados antes mesmo de qualquer mudança significativa.
Os autores destacam que os resultados não indicam que os camaleões tenham uma capacidade ilimitada de adaptação. A conclusão é justamente a oposta: eles conseguem modificar sua aparência de maneira eficiente em determinadas situações, mas dentro de limites definidos pela própria biologia.
O estudo, publicado na revista científica Biology Letters, aponta ainda que novas pesquisas devem investigar outras cores, como diferentes tons de marrom, além de ambientes mais complexos. Os cientistas também querem entender melhor quanto de energia é necessário para essas mudanças e em quais situações o animal prioriza camuflagem, comunicação ou controle da temperatura.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



