O Dachshund, carinhosamente apelidado no Brasil como “salsicha”, tem o tronco alongado e as patas curtas. Ou seja: uma estrutura óssea que exige vigilância rigorosa dos tutores. Segundo o Padrão Oficial da Raça da Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), documento técnico que descreve as características físicas e temperamentais ideais de cada raça canina, essa anatomia foi selecionada para o trabalho de caça em tocas.
Porém, no ambiente urbano, ela predispõe o cachorro à Doença do Disco Intervertebral (DDIV). No Brasil, onde o número de cães dessa raça em apartamentos é expressivo, a adaptação da ergonomia pet dentro de casa deixou de ser um cuidado estético para se tornar uma medida vital de saúde pública veterinária.
A maior ameaça à integridade do “salsicha” não são as grandes quedas, mas o impacto cumulativo de atividades cotidianas que parecem inofensivas. A médica veterinária Maira Formenton, referência em fisiatria animal e diretora da FisioCare Pet, explica que a mecânica da coluna desses cães é comparável a uma estrutura sobrecarregada.
“O Dachshund nasce com uma condrodistrofia, o que significa que seus discos intervertebrais envelhecem mais rápido. Quando ele sobe uma escada ou pula do sofá, o impacto gera uma microlesão. Com o tempo, esse disco pode ‘explodir’ para dentro do canal medular, causando dor intensa ou paralisia imediata”, diz.
Para a especialista, o uso de rampas não é uma opção, mas uma regra de manejo para quem quer livrar o cão de problemas maiores.
Além da infraestrutura da casa, a forma como o tutor interage fisicamente com o animal pode ser um fator de risco ou de proteção. O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), em seus guias de posse responsável, destaca a importância do manejo correto para raças condrodistróficas.
Ao contrário do que se faz com outras raças, o “salsicha” jamais deve ser levantado pelas axilas, com a coluna pendente. O manual de boas práticas sugere que a sustentação deve ser horizontal, com uma mão apoiando o peito e a outra o bumbum, com o dorso sempre “reto”.
Isso para evitar o estresse mecânico na região toracolombar, local em que ocorrem a maioria das lesões graves relatadas em prontuários de hospitais veterinários brasileiros, segundo o CFMV.
Essas medidas de prevenção em casa devem ser acompanhadas de um olhar clínico. Sinais como relutância em subir degraus, tremores ou o arco das costas (cifose) devem ser tratados como emergência.
De acordo com a especialista Maira Formenton, o segredo está no “investimento em prevenção estrutural”.
A Itatiaia separou algumas dicas de adaptação para casas de tutores de “salsichas”:
- Onde for possível, substituir escadas por rampas. O ângulo de inclinação das rampas deve ser suave e a superfície obrigatoriamente antiderrapante para evitar deslizes.
- Treinar o cão para não pular de camas e sofás, pois o impacto da descida é ainda mais prejudicial que o da subida.
Na hora dos passeios , usar guias no modelo de peitorais em vez de coleiras de pescoço. Esse modelo não gera tensão cervical em cães com tendência a problemas de coluna.- Atenção ao peso do pet: o sobrepeso desloca o centro de gravidade do animal, o que leva ao aumento da curvatura da coluna.