Guerra no Oriente Médio: Brasil pode ser atingido por uma bomba atômica?

Programa nuclear do Irã foi um dos motivadores para o início dos ataques dos EUA e Israel; especialista da UFMG explica sobre a arma de destruição em massa

Únicos ataques nucleares na história foi comandado pelos EUA e atingiram as cidades no Japão, Hiroshima e Nagasaki

O programa nuclear do Irã foi um dos pontos que motivaram o início dos ataques comandados pelos Estados Unidos com o apoio de Israel no país. O conflito, que começou em 28 de fevereiro, já registrou mais de 1.200 mortes.

O Irã busca enriquecer urânio no próprio território. O elemento químico é um combustível utilizado em usinas nucleares — que geram eletricidade — mas, quando enriquecido a níveis muito altos, pode ser usado para fabricar armas nucleares.

O conflito entre o país do Oriente Médio e os Estados Unidos começou a partir da divergência de opiniões sobre o assunto. O Irã argumenta que tem o direito de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos, incluindo o enriquecimento.

Embora os Estados Unidos reconheçam o direito do Irã à energia nuclear civil, o país não confia nas garantias de Teerã de que o programa de enriquecimento continuará pacífico. Assim, por meio de ataques estratégicos, há dez dias os EUA e Israel tentam neutralizar as usinas de Teerã.

Uma pessoa observa, do telhado de um prédio, uma coluna de fumaça que se eleva após um ataque à capital iraniana, Teerã, em 3 de março de 2026

Mas o que é uma bomba nuclear? Qual o risco deste armamento? Um ataque nuclear no Oriente Médio poderia atingir o Brasil? A reportagem da Itatiaia conversou com a professora do Departamento de Engenharia Nuclear, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Antonella Lombardi, para explicar essas e outras questões.

O que é uma bomba nuclear?

A bomba nuclear, ou bomba atômica, é descrita como uma arma de destruição em massa devido a grande quantidade de energia em forma de calor que o dispositivo libera. Lombardi explicou que este tipo de armamento também libera radiação e provoca um deslocamento de ar. “Esse deslocamento causa uma destruição instantânea ao redor do foco da bomba”, disse.

Um outro dispositivo que pode ser confundido com a bomba nuclear são as armas químicas. Estas, por sua vez, são constituídas por substâncias tóxicas em estado líquido ou gasoso. Porém, as armas nucleares têm um poder maior de destruição no momento da explosão e a longo prazo, explicou a professora da UFMG.

Oficialmente, nove países possuem armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Cerca de 90% do total do armamento no mundo está concentrado nos EUA e na Rússia.

Como funciona o mecanismo de uma bomba nuclear?

O armamento funciona a partir da liberação de quantidades massivas de energia através da fissão (divisão) ou fusão (união) de núcleos atômicos. Uma bomba nuclear possui um material capaz de sofrer reação de fissão — como plutônio-239 e urânio-235 — desencadeando um processo que comprime esse material.

“A fissão aumenta a densidade formando uma massa crítica de material físsil. Assim, inicia-se uma reação de fissão em cadeia, sendo neste caso descontrolado. Essas reações de fissão geram um processo de alta conversão de massa em energia e, assim, a onda de choque é gerada pela explosão”, explicou Lombardi.

Quais são as consequências de um ataque nuclear?

“O centro da explosão de uma bomba nuclear pode alcançar um milhão de graus Celsius”, destacou a professora da UFMG. A condição pode gerar incêndios e a onda de choque gerada pela detonação da bomba causa um deslocamento do ar que pode destruir o que estiver por perto, como construções e árvores.

Lombardi detalha que a explosão traz uma “vaporização direta de tudo que está ao redor ou contaminação radioativa imediata e a longo prazo”. No âmbito humanitário, dependendo do nível de contaminação, os sobreviventes podem ter doenças agudas devido à radiação. A longo prazo, quem estiver mais distante da área atingida pode também sofrer consequências, como casos de câncer, por exemplo.

“A chamada síndrome aguda da radiação causa uma destruição imediata das células que leva pode levar cegueira, náuseas, falência de órgãos e colapso do sistema imunológico”, destacou a especialista.

Na região atingida, o solo e o ar ficam contaminados e as condições podem ser espalhadas em longas distâncias através da atmosfera e da própria movimentação dos ventos. De acordo com Lombardi, não é possível responder precisamente qual o raio de distância que pode ser atingido a partir do ponto de explosão.

Os ataques comandados pelos Estados Unidos nas cidades do Japão de Hiroshima e Nagasaki, durante a Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, foram as únicas vezes em que armas nucleares foram utilizadas em um conflito armado. Nos dois ataques as bombas tinham uma potência de aproximadamente 15 mil toneladas de explosivos, o que destruiu todo um raio de dois quilômetros, de acordo com a especialista da UFMG.

Os bombardeios foram responsáveis por incêndios intensos que destruíram uma área de cerca de 10km². Ainda de acordo com Lombardi, a temperatura no centro da explosão nas cidades japonesas chegou a três mil graus Celsius.

Brasil pode ser atingido por um ataque nuclear no Oriente Médio?

O Brasil está muito distante geograficamente do Oriente Médio. Porém, um ataque nuclear geraria impactos ambientais, econômicos e diplomáticos no mundo inteiro. Em primeiro lugar, um resíduos radioativos de um bombardeio poderiam ser transportados por longas distâncias por meio da atmosfera e pelo vento, explicou Lombardi. Com isso, é possível prever que poderiam acontecer “mudanças nos regimes de chuva e alterações climáticas que afetariam o mundo inteiro, incluindo o Brasil”, disse a especialista da UFMG.

No ponto de vista econômico, um ataque nuclear impactaria diretamente o mercado de energia. A relação econômica entre o Brasil e Irã é marcada por um superávit comercial do país sul-americano, com a região do Oriente Médio sendo uma das principais consumidoras de alimentos do Brasil, principalmente de carne de aves e bovina, milho, soja e açúcar, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Em termos de relações diplomáticas, mesmo com o Brasil, historicamente, sendo um país defensor da neutralidade, do multilateralismo e busca por mediação em conflitos, além de apoiar o uso pacífico da energia nuclear, poderia ser pressionado a abandonar essa posição.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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