Água potável pode ser o novo alvo da guerra no Oriente Médio

Ataques em usinas de dessalinização podem abrir uma crise econômica e humanitária na guerra que se desenrola no golfo pérsico

Ataque no Bahrein no domingo atingiu uma importante usina de dessalinização de água

Ataques à infraestrutura hídrica são raros em tempos de guerra, mas não ocorreram conflitos em curso no Oriente Médio com bombardeios a usinas de dessalinização, um setor essencial para milhões de pessoas na região.

Uma usina de dessalinização no Bahrein foi danificada no domingo (8) após um ataque de drone iraniano, disseram autoridades locais, um dia depois de Teerã acusar o país de uma ataque semelhante em Qeshm, na República Islâmica, que teria afetado o abastecimento de água de 30 vilarejos.

Esses tipos de ataques ainda são limitados, mas, como disse à AFP a economista especializada em recursos hídricos Esther Crauser-Delbourg: “Quem se atrever a atacar a água desencadeará uma guerra muito mais devastadora do que a atual”, alertou.

Por que a água dessalinizada é tão importante?

Numa das regiões mais secas do mundo, onde o acesso à água é dez vezes menor que a média global, segundo o Banco Mundial, as usinas de dessalinização desempenham um papel fundamental na economia e no abastecimento de água potável para seus milhões de habitantes. Cerca de 42% da capacidade mundial de dessalinização está localizada no Oriente Médio, de acordo com um estudo recente publicado na revista Nature.

Nos Emirados Árabes Unidos, 42% da água potável provém dessas usinas, enquanto o número sobe para 70% na Arábia Saudita, 86% em Omã e 90% no Kuwait, segundo um relatório de 2022 do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri). “Lá, sem água dessalinizada, não há nada”, afirmou Crauser-Delbourg.

É especialmente estratégico em grandes cidades como Dubai e Riade. Em 2010, uma análise da CIA afirmou que “a interrupção das instalações de dessalinização na maioria dos países árabes poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima”.

Em 2008, o WikiLeaks divulgou um telegrama diplomático dos EUA afirmando que “Riade deveria ser evacuada em uma semana” caso a usina de dessalinização de Jubail — que abastece a cidade — ou seus óleodutos fossem “gravemente danificados ou destruídos”.

Quais ameaças pairam sobre essas instalações?

Além dos ataques relatados neste fim de semana, essas usinas são vulneráveis aos cortes de energia e às possíveis contaminações da água do mar, principalmente por vazamentos de petróleo, disseram vários especialistas à AFP.

“A segurança e os controles de acesso no perímetro imediato das usinas foram reforçadas”, explicou à AFP Philippe Bourdeaux, diretor da região África/Oriente Médio da empresa francesa Veolia, que fornece água dessalinizada para a Arábia Saudita em Jubail e para Omã nas regiões de Mascate, Sur e Salalah.

“Obviamente, os eventos recentes nos deixaram muito vigilantes. Estamos monitorando de perto a situação nas instalações”, acrescentou, especificando que “em alguns países, as autoridades implantaram baterias de mísseis ao redor das maiores usinas ante a ameaça de drones ou mísseis”.

Em relação aos vazamentos de petróleo, os operadores dispõem de ferramentas para mitigar seus contrapesos.

Quais são os precedentes?

Na última década, houve diversos ataques a usinas de dessalinização: o Iêmen e a Arábia Saudita atacaram conjuntamente, e Gaza sofreu bombardeios israelenses, segundo o Pacific Institute, um think-tank com sede na Califórnia que monitora conflitos relacionados à água.

Antes de 2016, é preciso voltar a 1991 e à Guerra do Golfo para encontrar ataques semelhantes.

Quais as consequências em caso de ataque?

Caso esses problemas persistam, as consequências podem variar de pequenos inconvenientes a situações muito mais graves. “Podemos ver grandes cidades em êxodo. E depois racionamentos”, disse Crauser-Delbourg.

Além disso, teriam efeitos na cadeia na economia, especialmente no turismo, na indústria e nos centros de dados, que consomem grandes quantidades de água para sua refrigeração. No entanto, existem medidas de segurança, ressaltou Bourdeaux. Segundo o representante da Veolia, as usinas de dessalinização geralmente são interligadas, o que pode limitar o impacto da paralisação de uma delas.

Eles também costumam ter reservas de água suficientes para vários dias — de dois a sete —, acrescentou, o que pode mitigar a escassez, já que as interrupções não duram muito tempo.

*Por Ali Bekhtaoui, na agência AFP

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