Ataques à infraestrutura hídrica são raros em tempos de guerra, mas não ocorreram conflitos em
Uma usina de dessalinização no
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Esses tipos de ataques ainda são limitados, mas, como disse à AFP a economista especializada em recursos hídricos Esther Crauser-Delbourg: “Quem se atrever a atacar a água desencadeará uma guerra muito mais devastadora do que a atual”, alertou.
Por que a água dessalinizada é tão importante?
Numa das regiões mais secas do mundo, onde o acesso à água é dez vezes menor que a média global, segundo o Banco Mundial, as usinas de dessalinização desempenham um papel fundamental na economia e no abastecimento de água potável para seus milhões de habitantes. Cerca de 42% da capacidade mundial de dessalinização está localizada no Oriente Médio, de acordo com um estudo recente publicado na revista Nature.
Nos Emirados Árabes Unidos, 42% da água potável provém dessas usinas, enquanto o número sobe para 70% na Arábia Saudita, 86% em Omã e 90% no Kuwait, segundo um relatório de 2022 do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri). “Lá, sem água dessalinizada, não há nada”, afirmou Crauser-Delbourg.
É especialmente estratégico em grandes cidades como Dubai e Riade. Em 2010, uma análise da CIA afirmou que “a interrupção das instalações de dessalinização na maioria dos países árabes poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima”.
Em 2008, o WikiLeaks divulgou um telegrama diplomático dos EUA afirmando que “Riade deveria ser evacuada em uma semana” caso a usina de dessalinização de Jubail — que abastece a cidade — ou seus óleodutos fossem “gravemente danificados ou destruídos”.
Quais ameaças pairam sobre essas instalações?
Além dos ataques relatados neste fim de semana, essas usinas são vulneráveis aos cortes de energia e às possíveis contaminações da água do mar, principalmente por vazamentos de petróleo, disseram vários especialistas à AFP.
“A segurança e os controles de acesso no perímetro imediato das usinas foram reforçadas”, explicou à AFP Philippe Bourdeaux, diretor da região África/Oriente Médio da empresa francesa Veolia, que fornece água dessalinizada para a Arábia Saudita em Jubail e para Omã nas regiões de Mascate, Sur e Salalah.
“Obviamente, os eventos recentes nos deixaram muito vigilantes. Estamos monitorando de perto a situação nas instalações”, acrescentou, especificando que “em alguns países, as autoridades implantaram baterias de mísseis ao redor das maiores usinas ante a ameaça de drones ou mísseis”.
Em relação aos vazamentos de petróleo, os operadores dispõem de ferramentas para mitigar seus contrapesos.
Quais são os precedentes?
Na última década, houve diversos ataques a usinas de dessalinização: o Iêmen e a Arábia Saudita atacaram conjuntamente, e Gaza sofreu bombardeios israelenses, segundo o Pacific Institute, um think-tank com sede na Califórnia que monitora conflitos relacionados à água.
Antes de 2016, é preciso voltar a 1991 e à Guerra do Golfo para encontrar ataques semelhantes.
Quais as consequências em caso de ataque?
Caso esses problemas persistam, as consequências podem variar de pequenos inconvenientes a situações muito mais graves. “Podemos ver grandes cidades em êxodo. E depois racionamentos”, disse Crauser-Delbourg.
Além disso, teriam efeitos na cadeia na economia, especialmente no turismo, na indústria e nos centros de dados, que consomem grandes quantidades de água para sua refrigeração. No entanto, existem medidas de segurança, ressaltou Bourdeaux. Segundo o representante da Veolia, as usinas de dessalinização geralmente são interligadas, o que pode limitar o impacto da paralisação de uma delas.
Eles também costumam ter reservas de água suficientes para vários dias — de dois a sete —, acrescentou, o que pode mitigar a escassez, já que as interrupções não duram muito tempo.
*Por Ali Bekhtaoui, na agência AFP