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Coreia do Norte recomenda sopa de cachorro para enfrentar o calor

Com temperaturas de até 40 °C no país, as habituais ameaças de ações militares foram intercaladas com modestos conselhos culinários para enfrentar o calor

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Península coreana enfrenta um verão sem precedentes • STR / KCNA / AFP

A península coreana enfrenta um verão sem precedentes, marcado por temperaturas extremas e recordes sucessivos. Diante de marcas que atingiram até 40 °C no país, a imprensa estatal da Coreia do Norte tem intercalado suas habituais ameaças militares com conselhos culinários modestos e remédios caseiros para mitigar os efeitos da onda de calor.

Entre as recomendações de Pyongyang, destacam-se a tradicional sopa de carne de cachorro e o samgye-tang — uma canja de frango recheada com arroz glutinoso, tâmaras e ginseng, famosa por aumentar a resistência física. Em artigo publicado pelo jornal oficial Rodong Sinmun, um médico defendeu a sopa de cachorro como uma opção "benéfica como aporte nutricional complementar". O prato, que também costumava ser uma iguaria apreciada durante o verão na Coreia do Sul, tem dias contados no lado sul da fronteira, onde sua comercialização estará oficialmente proibida a partir de fevereiro de 2027.

A agência de notícias estatal KCNA também promoveu os benefícios do samgye-tang. Curiosamente, a apreciação pela sopa de frango e ginseng une as duas nações historicamente rivalizadas. Em Seul, o prato continua sendo um fenômeno de vendas nos dias quentes: "No geral, temos mais clientes no verão do que no inverno", revelou o proprietário de um restaurante sul-coreano. A busca por alternativas medicinais no verão é comum em outros países asiáticos, onde pratos como a sopa de melão de inverno integram o repertório da medicina tradicional.

Contraste na fronteira e tragédia no Sul

O impacto do clima extremo é severo em ambos os lados da Zona Desmilitarizada (DMZ) — a faixa de fronteira que divide a península desde o armistício do conflito de 1950-1953. Na Coreia do Sul, a semana passada registrou recordes térmicos por três dias consecutivos, culminando em uma máxima de 42,5 °C no domingo e um saldo de ao menos 23 mortes atribuídas ao calor intenso.

Enquanto as autoridades de Seul emitiam alertas de emergência orientando a população a suspender atividades ao ar livre, a rotina ao norte do paralelo 38 parecia seguir sem interrupções. A partir de uma plataforma de observação na DMZ — de onde é possível avistar sob o véu de calor a cidade de Kaesong, autoproclamada capital da sopa, e o mastro de 160 metros que sustenta a gigantesca bandeira do Norte —, observavam-se civis pedalando e trabalhando manualmente nos campos.

Em paralelo, a televisão estatal norte-coreana divulgou imagens de moradores nas praias de Wonsan, em um complexo turístico inaugurado no ano passado pelo líder Kim Jong Un. "Começam a encher de gente por volta das 8h00 e ficam animadas até o anoitecer", destacou a emissora.

Infraestrutura sob pressão e crise alimentar

A cobertura ostensiva da mídia de Pyongyang busca exaltar o juche — o conceito ideológico da dinastia Kim baseado na autossuficiência nacional. No entanto, analistas apontam que a realidade de um país empobrecido é consideravelmente mais dramática.

Para Rachel Minyoung Lee, pesquisadora do Stimson Center especializada em assuntos norte-coreanos, o esforço da imprensa em garantir que o fornecimento de água e eletricidade está regularizado "sugere que ambos os serviços estão sob forte pressão".

"É provável que os norte-coreanos sofram mais com o calor do que os sul-coreanos, já que não dispõem da infraestrutura de que a Coreia do Sul desfruta", afirmou a especialista.

A vulnerabilidade é amplificada pelo quadro humanitário do país. Dados do Programa Mundial de Alimentos (PMA) indicam que mais de 40% da população norte-coreana — estimada em 26 milhões de habitantes — sofre de desnutrição e enfrenta sérias dificuldades de acesso a alimentos básicos, tornando os apelos do regime por "suplementação nutricional" uma questão que vai muito além de uma simples dica de verão.

Com informações de AFP

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