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Pão cheio: a receita italiana que ganhou alma mineira em Santa Rita do Sapucaí

Reinventada no Sul de Minas por Maria Bonita, a receita se tornou patrimônio cultural e símbolo da identidade gastronômica de Santa Rita do Sapucaí

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Pão cheio foi eternizado na culinária de Santa Rita
Pão cheio foi eternizado na culinária de Santa Rita • André Viana/Itatiaia

Quem passa por Santa Rita do Sapucaí dificilmente vai embora sem provar o famoso pão cheio. À primeira vista, ele parece apenas um pão recheado, mas basta conhecer a história para entender que a receita carrega muito mais do que ingredientes: ela preserva a memória de uma cidade inteira.

De origem italiana, o prato atravessou gerações até encontrar, em Santa Rita do Sapucaí, uma guardiã responsável por eternizar seu preparo. Foi pelas mãos de Maria Idalina de Jesus, carinhosamente conhecida como Maria Bonita, que o pão cheio ganhou fama e se transformou em um dos maiores símbolos da gastronomia local.

"São várias famílias italianas que mudaram para Santa Rita do Sapucaí trazendo a sua cultura. Nisso veio o pão cheio. E tinha dona Maria, que era apaixonada por gastronomia, uma mulher visionária. Ela aprendeu essa receita, só que tinha uns ingredientes que eram lá do sul da Itália. Aí ela fez essa adaptação, usando os nossos", explica Luciana Afflisio, secretária do Conselho de Patrimônio Cultural do município.

Dona Maria tornou a receita tão popular que a venda dos pães se tornou sua principal fonte de renda. "Ela criou os filhos dela, criou a família dela trabalhando com a venda desse pão", relembra Afflisio. A cozinheira, uma das principais da cidade, moldava os ingredientes conforme cada cliente.

"Ela fazia tradicional, mas tinha algumas pessoas que tinham alergia, então ela mudava os ingredientes, ela fazia, ao invés da linguiça curada, com uma carne de porco mais suave ou com menos tempero. Então, ela já desde aquela época ela já tinha esse traquejo mineiro de de agradar todo mundo", pontua.

Maria Idalina de Jesus, a Maria Bonita • Arquivo pessoal de Marilena Tobias de Brito
Maria Idalina de Jesus, a Maria Bonita • Arquivo pessoal de Marilena Tobias de Brito

Hoje, a tradição continua viva nas cozinhas da cidade. Entre os responsáveis por manter a receita em evidência está o cozinheiro Marcos, mais conhecido em Santa Rita como Pizzaiolo Marcondes, que prepara o prato com um recheio especial: linguiça artesanal de varal e queijo minas. A azeitona é a gosto do cliente.

Para o cozinheiro, o segredo do pão cheio está longe de ser apenas a receita. "Pão cheio é uma soma. A primeira soma dela é o carinho. Nada de fazer correndo. Tem que pôr amor em tudo que você faz. Aprendi também que uma farinha, quanto mais fina e seca, melhor para o pão. E os recheios são variados. Hoje o que eu mais gosto é com massa de linguiça, essa linguiça de varal que é conhecida aqui em Santa Rita", conta.

Marcondes, cozinheiro e pizzaiolo • André Viana/Itatiaia
Marcondes, cozinheiro e pizzaiolo • André Viana/Itatiaia

Além da linguiça, recheios como pernil, tomate seco, muçarela e requeijão também fazem sucesso. "Vai da mente de cada um", resume Marcondes. Para ele, o verdadeiro diferencial está nas mãos de quem prepara. "Se você tiver amor e vontade de fazer aquilo, não tem pra ninguém", completa.

O carinho dos cozinheiros ajudou a transformar o pão cheio em patrimônio. A receita foi inventariada em 2011 ao lado de outras delícias tradicionais da cidade, como a cocada e o bolo de café e os cartuchos. Em 2017, tornou-se patrimônio imaterial de Santa Rita do Sapucaí e, cinco anos depois, o modo artesanal de preparo recebeu o título de patrimônio cultural de Minas Gerais.

Agora, o próximo passo é ainda mais ambicioso. "Primeiro começou no inventário, o registro municipal. Depois veio o registro estadual, inclusive no mesmo dia do aniversário de dona Maria, 5 de julho, que também é o Dia da Gastronomia Mineira. Agora estamos começando o processo para transformar o pão cheio em bem do Brasil. Ele veio da Itália, mas agora é nosso. Ainda existem trâmites legais, mas já estamos no caminho", afirma Luciana.

Mais do que uma receita, o pão cheio virou um elo entre gerações. É aquele tipo de comida que costuma aparecer no centro da mesa, acompanhado de café passado na hora, conversa boa e lembranças da infância. "A memória afetiva das pessoas começa na gastronomia. Você vai comer alguma coisa e lembra da sua família, dos seus avós. O pão tem essa tradição de reunir as pessoas. As famílias se encontram à mesa para tomar um cafezinho e, junto com ele, vêm todas essas memórias", conclui a secretária.

Luciana Afflisio, secretária do Conselho de Patrimônio Cultural de SRS • André Viana/Itatiaia
Luciana Afflisio, secretária do Conselho de Patrimônio Cultural de SRS • André Viana/Itatiaia

 

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André Viana é jornalista, formado pela PUC-MG. Já trabalhou como redator e revisor de textos, produtor de pautas e conteúdos para rádio e TV, social media, além de uma temporada no marketing.

 

 

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