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Dia do Pão de Queijo: conheça a história da receita tradicional

Considerada parte da tradição mineira, a receita destaca traços da colonização do Brasil

Tradicional, o pão de queijo conquistou espaço na cultura e no coração dos mineiros

O Dia Nacional do Pão de Queijo é celebrado nesta quarta-feira (17). Muito mais que um simples quitute, a receita faz parte da história de Minas Gerais e das famílias do estado, destacando traços da colonização do país e a permanência da cultura original indígena.

Apesar de ser considerada parte da tradição mineira, a origem exata do pão de queijo é incerta. “A gente não fala que um alimento nasceu ou partiu de algum lugar, o que a gente consegue dizer é o ponto mais antigo na história em percebemos a presença dele”, explica a professora de cultura alimentar e historiadora da alimentação, Carolina Figueira da Costa.

Raízes da receita

O pão de queijo é elaborado a partir de derivados da mandioca, produto largamente utilizado pelas populações ameríndias, e do leite, trazido para a América do Sul pelos colonizadores. “A mandioca é uma espécie nativa, que se espalhou por boa parte do mundo. Enquanto isso, vacas, galinhas e porcos só chegaram a partir da colonização, carregados de sentidos culturais”, conta a historiadora.

Para entender mais sobre a história do quitute, cadernos de receita, livros e receituários são fontes importantes. “O pão de queijo aparece em diversos documentos, principalmente entre o século 19 e 20”, aponta Carolina.

Os primeiros registros vêm de regiões onde acontecia criação de gado, com muito leite e queijo para serem aproveitados. “Na roça não se perde nada e, com todos os ingredientes tão disponíveis, a receita pode ter surgido como uma forma de aproveitamento total”, afirma o jornalista e especialista em queijos, Eduardo Girão.

Adaptação e permanência

O sucesso do pão de queijo pode ser explicado por um elemento: a possibilidade de adaptação. Através do tempo e apesar das alterações nos padrões alimentares, a receita não perdeu a força.

“Em alguns registros históricos, o polvilho azedo é essencial. Em outros, o que predomina é o polvilho doce. Ainda, dá para encontrar receitas que misturam os dois tipos de em quantidades iguais”, diz Carolina Costa. Regiões como o Norte de Minas e o Triângulo Mineiro são apontadas pela especialista por terem receitas características.

A intenção da produção também é responsável por alterações nos ingredientes tradicionais. “O polvilho doce resulta em um pão de queijo menor, mais delicado, ideal para consumo doméstico. Quando interessa a comercialização, o polvilho azedo é melhor para que o pão cresça e renda mais”, explica a professora.

A historiadora destaca que o pão de queijo continua sendo tradicional por ainda fazer sentido na contemporaneidade. “Não é algo exclusivo do passado, mas carrega sentidos de representação da cultura mineira”, define.

A dificuldade em identificar quando e onde surgiu o pão de queijo não muda o impacto do prato cultura mineira. “A identidade está no fim do percurso, não no começo”, define a historiadora. Pela identificação e pelo afeto que a receita gera nos mineiros, não dá para não dizer que o pão de queijo é de casa, da casa das Minas Gerais.

*Sob supervisão de Lara Alves

Este artigo foi originalmente publicado em 17 de agosto de 2022.

Maria Clara Lacerda é jornalista formada pela PUC Minas e apaixonada por contar histórias. Na Rádio de Minas desde 2021, é repórter de entretenimento, com foco em cultura pop e gastronomia.