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A pesquisa foi conduzida por cientistas ligados a instituições do Chile, Dinamarca, Canadá, Argentina e Irlanda e publicada na revista GeroScience. Pela primeira vez, os resultados mostraram que o treinamento muscular pode reduzir a idade biológica do cérebro entre um e dois anos, mesmo em pessoas idosas.
O trabalho reuniu especialistas do Instituto Latinoamericano de Salud Cerebral da Universidad Adolfo Ibáñez, do Instituto Neurológico de Montreal e do Trinity College Dublin, além de centros científicos da Dinamarca. Entre os autores está o neurocientista argentino Agustín Ibáñez.
Em entrevista ao site Infobae, Ibáñez destacou que, embora o estudo tenha alto nível de evidência, ainda precisa ser testado em populações mais diversas. Mesmo assim, ele afirma que os dados reforçam uma ideia importante. Da mesma forma que a demência acelera o envelhecimento do cérebro, fatores como exercício físico, sono adequado, criatividade e interação social podem retardá-lo. Segundo o pesquisador, isso abre caminho para políticas públicas que valorizem a saúde cerebral ao longo da vida.
Músculos como aliados do cérebro
A pesquisa surgiu de uma lacuna científica. Estudos anteriores focavam principalmente exercícios aeróbicos ou analisavam áreas isoladas do cérebro, sem observar o envelhecimento cerebral como um todo. Também eram trabalhos de curta duração, o que dificultava entender os efeitos no longo prazo.
Para responder a essa questão, os cientistas acompanharam durante um ano o impacto do treinamento de força na saúde cerebral. O estudo utilizou técnicas modernas de neuroimagem e modelos computacionais conhecidos como relógios cerebrais, capazes de estimar a idade biológica do cérebro a partir de exames de ressonância magnética.
Assim, foi possível comparar a idade cronológica com a idade cerebral e verificar se o exercício realmente desacelera o envelhecimento.
Como foi feito o estudo
A pesquisa analisou 309 adultos entre 62 e 70 anos que participaram do ensaio clínico LISA, realizado na Dinamarca. Os voluntários foram divididos em três grupos: treino de força intenso, treino moderado e grupo sedentário.
Durante um ano, os participantes dos grupos ativos seguiram programas supervisionados de exercícios de força e funcionalidade. Todos passaram por avaliações de força muscular e exames cerebrais no início do estudo, após um ano e depois de dois anos.
Os resultados foram claros. Apenas os grupos que fizeram treino de força apresentaram redução significativa da idade cerebral. O grupo sedentário não mostrou melhora.
No grupo de treino intenso, o cérebro ficou em média 1,4 ano mais jovem após um ano e 1,85 ano mais jovem após dois anos. Já no grupo moderado, a redução foi de 1,39 ano após um ano e 2,26 anos após dois anos.
Segundo os pesquisadores, o efeito ocorreu no cérebro de forma global, e não apenas em áreas específicas. Além disso, houve melhora da conectividade funcional na região pré-frontal, área ligada à atenção e ao controle executivo.
Impactos e próximos passos
Os cientistas observaram que os benefícios persistiram mesmo um ano após o fim do treinamento. Ainda assim, eles ressaltam que os resultados se aplicam principalmente a adultos mais velhos, saudáveis e de alta renda europeia, grupo que predominou na amostra.
Embora a redução da idade cerebral tenha sido estatisticamente significativa, o impacto clínico ainda precisa ser confirmado em estudos mais longos e com populações diferentes.