Renda média cresce, mas concentração e desigualdade entre gêneros persistem, aponta estudo
Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2026 mostra avanços na distribuição de renda, mas pontua desafios

O rendimento mensal real, considerando todas as fontes de renda, alcançou R$ 3.376 em 2025, um crescimento de 16,4% em comparação com 2022, segundo o relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2026 publicado nesta quarta-feira (12). Apesar do avanço na renda do trabalhador, o estudo revela que a concentração de recursos e a desigualdade entre homens e mulheres ainda persistem.
O relatório observa que os dados do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) mostram que a tributação é progressiva apenas até determinados níveis de renda. A partir das faixas mais elevadas, a carga tributária se torna regressiva, fazendo com que os mais ricos paguem proporcionalmente menos impostos do que os contribuintes da base da pirâmide.
Nesse caso, em 2024 os 1% mais ricos possuíam rendimentos 30,2 vezes superiores aos 50% mais pobres. Essa concentração de renda teve um aumento para 31,5 vezes maior em 2025. Se comparado com 2022, o indicador permanece em patamar relativamente estável.
“Esse resultado demonstra que o avanço das condições do mercado de trabalho brasileiro contribuiu para melhorar as condições de vida da população, mas não modificou substancialmente a forma como a riqueza é distribuída. A desigualdade de renda atua como um dos principais mecanismos de reprodução das desigualdades, restringindo o acesso à moradia adequada, à saúde, à educação e à segurança alimentar”, diz o relatório.
O estudo reafirma que a reforma do IRPF, implementada a partir de 2026, ao ampliar a faixa de isenção para rendimentos de até R$ 5 mil mensais e instituir uma alíquota mínima para rendas efetivas, representa um passo importante para fortalecer a progressividade tributária. Porém, não é suficiente para enfrentar a elevada concentração de renda, mesmo sendo um ponto de partida “relevante”.
Desigualdade entre homens e mulheres
Ainda de acordo com o relatório, as mulheres continuaram recebendo, em média, apenas 72% do rendimento dos homens, percentual que se manteve estável no período do estudo, indicando que os avanços recentes no mercado de trabalho não foram suficientes para mitigar a desigualdade de rendimento entre os gêneros.
A desigualdade é ampliada quando raça e gênero são analisados conjuntamente. Em 2025, o rendimento médio mensal das mulheres negras foi de R$ 2.184, apenas 42% do rendimento dos homens não negros, patamar inferior ao observado em 2022.
Nesse caso, a desigualdade também está relacionada ao tempo disponível para o trabalho remunerado. A jornada das mulheres é menor do que a dos homens, em razão da conciliação com as atividades de cuidados. O relatório conclui que, menos tempo para o trabalho, significa também menores salários.
“Essas diferenças refletem oportunidades desiguais de acesso à educação profissional e tecnológica, às ocupações de maior prestígio, aos cargos de liderança e aos setores econômicos mais dinâmicos. Também evidenciam a persistência de mecanismos discriminatórios, explícitos ou implícitos, que limitam a mobilidade social de mulheres e pessoas negras”, destaca o relatório.
Novos passos
Publicado pelo Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, e produzido pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos (Dieese), o documento sugere uma série de agendas capazes de alterar os mecanismos de reprodução das desigualdades.
O grupo defende políticas de promoção de igualdade salarial e de acesso, permanência e progressão nas carreiras, aprofundando a lei de igualdade sancionada em 2023. Também defendem a aceleração da política de valorização do salário mínimo, instrumento criado para garantir o crescimento real da renda, além do aprofundamento da progressividade tributária.
“Essas iniciativas atuam simultaneamente sobre a distribuição da renda, do tempo, das oportunidades e da riqueza, criando condições para que os avanços observados nos últimos anos se convertam em transformações duradouras. Mais do que reduzir desigualdades conjunturais, trata-se de transformar as estruturas que produzem e reproduzem desigualdades”, completa.
Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.



