Itabira se prepara para o pós-mineração com diversificação econômica, diz Marco Antônio Lage
Prefeito ressaltou a importância de investir simultaneamente em infraestrutura e qualificação profissional

Prefeito de Itabira e presidente da AMIG Brasil fala sobre planejamento de longo prazo, infraestrutura, qualificação profissional, novas indústrias e oportunidades para os jovens.
Como preparar uma cidade para o futuro quando sua principal atividade econômica tem prazo para se esgotar? Esse é um dos desafios de Itabira, município historicamente ligado à mineração e que tem previsão de exaustão mineral em 2053.
No episódio 49 do Itatiaia Negócios Cast, o prefeito de Itabira e presidente da AMIG Brasil, Marco Antônio Lage, conversa com Leonardo Bortoletto sobre as estratégias para diversificar a economia, atrair investimentos e preparar a população para novas oportunidades de trabalho.
A entrevista aborda o programa Itabira Sustentável, os investimentos em infraestrutura, a qualificação de jovens, o reaproveitamento de rejeitos minerais, a industrialização de terras raras e o potencial do turismo e do agronegócio.
Leia a entrevista completa:
Leonardo Bortoletto: Quero começar falando sobre a sua gestão atual, que tem trazido ao povo de Itabira uma relação diferenciada com a diversificação econômica. Queria que você falasse sobre isso e sobre a importância da diversificação em uma cidade como Itabira.
Marco Antônio Lage: É muito importante por vários motivos. Uma cidade vive de receita, vive de promover sua própria economia. Itabira é conhecida e reconhecida pela mineração. São 84 anos de exploração mineral. A Vale, antiga Companhia Vale do Rio Doce, foi criada em 1942 pelo governo Getúlio Vargas para explorar a primeira grande mina de minério de ferro a céu aberto do país, em um acordo feito durante a Segunda Guerra Mundial para atender à demanda da indústria bélica.
Itabira contribuiu para atender a essa demanda por meio do minério produzido no município. Desde então, viveu uma grande pujança econômica com a produção em larga escala. Já exportou mais de 2 bilhões de toneladas de minério de ferro de alta qualidade, contribuindo para a industrialização de Minas Gerais, do Brasil, da Alemanha, do Japão e, cada vez mais, da China.
Foi uma história de economia minerária de muito sucesso. A Vale, que nasceu em Itabira, hoje é uma das principais empresas mineradoras do mundo. O grande desafio agora é diversificar a economia. O minério é um produto finito, não renovável, e já existe uma data prevista para a exaustão mineral: 2053, definida pela Vale e anunciada em relatório à Bolsa de Nova York.
Leonardo Bortoletto: Quando você olha para Itabira daqui a 30 ou 40 anos, que diversidade econômica você considera possível para a cidade?
Marco Antônio Lage: Hoje, Itabira tem uma visão de futuro e da própria diversificação econômica. Estou no segundo mandato, são quase seis anos de gestão. Desde o primeiro mandato, pactuamos com a Vale a construção de um planejamento chamado Itabira Sustentável, que está indo muito bem.
Esse plano prevê uma estratégia de curto, médio e longo prazo, preparando a cidade do ponto de vista da infraestrutura e do conhecimento para promover a transição econômica e desenvolver novas matrizes econômicas. A ideia é que, quando chegar 2053, data definida para a exaustão mineral, Itabira esteja preparada para continuar sendo uma cidade sustentável, porque a mineração deixa marcas muitas vezes difíceis de reverter.
Leonardo Bortoletto: O ecodistrito industrial tem potencial para contribuir com essa diversificação. Onde estão as oportunidades reais de trabalho para a população?
Marco Antônio Lage: Hoje, a melhor oportunidade de trabalho ainda está na Vale. Itabira produz perto de 25 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, e a empresa mantém suas usinas e minas em atividade. O segundo maior empregador é o comércio, porque Itabira é uma cidade polo. Depois, temos a saúde e a própria prefeitura, que também são grandes empregadores.
A cidade tem uma área de influência que compreende cerca de 27 municípios, que utilizam seus serviços. O desafio é construir essa diversificação. Atualmente, 82% da economia de Itabira ainda está ligada à Vale e à sua cadeia de fornecedores. Precisamos reduzir gradualmente essa dependência e trazer novas atividades para buscar um equilíbrio econômico.
O Itabira Sustentável é o nosso mapa de planejamento. Um dos pontos é a infraestrutura. Itabira tinha um problema hídrico histórico, que está sendo resolvido. A Vale está investindo mais de R$ 1 bilhão na captação de água do Rio Tanque, localizado a cerca de 26 quilômetros do núcleo urbano. É uma obra que deve resolver o abastecimento para as próximas décadas, desde que também haja atuação ambiental para preservar os mananciais e as nascentes.
O ecodistrito será um novo condomínio industrial, com uma área de 3 milhões de metros quadrados, sendo um terço aproveitável e o restante composto por matas e lagos. A proposta é oferecer cerca de 50 terrenos para atrair novas indústrias.
Outro projeto fundamental é a duplicação da rodovia que liga Itabira ao trevo da BR-381. A qualidade viária é essencial para qualquer programa de diversificação econômica. Com água, acesso rodoviário e um condomínio industrial adequado para receber empresas, teremos uma infraestrutura preparada para atrair investimentos. A indústria, porém, não será a única responsável pelo desenvolvimento futuro da cidade.
Leonardo Bortoletto: A parceria com a Unifei também tem o objetivo de deixar um panorama mais adequado para os jovens de Itabira?
Marco Antônio Lage: Essa é uma questão essencial. De um lado, temos a infraestrutura; do outro, precisamos preparar nossa mão de obra e nossos jovens para as novas atividades e profissões do futuro. Isso vale para Itabira e também para os municípios do entorno impactados pela mineração.
A Unifei está em Itabira há 18 anos e tem menos de 2 mil alunos. Estamos trabalhando com o reitor e a reitoria para ampliar essa estrutura, concluir novas edificações e trazer mais 12 cursos, em um acordo com o Ministério da Educação. São cursos direcionados à nova economia, principalmente baseada em tecnologia.
Um dos aspectos estratégicos é desenvolver conhecimento e formar mão de obra qualificada para uma nova engenharia voltada ao aproveitamento dos rejeitos da mineração. Itabira tem cerca de 500 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério e 15 barragens em processo de descomissionamento.
A Vale está cumprindo seu papel no tratamento dessas estruturas. Além da possibilidade de recuperar parte dos rejeitos como minério de ferro, queremos aproveitar outros materiais na construção civil, produzindo blocos, cerâmicas, tijolos, telhas e pisos. Isso pode desenvolver tecnologias, pesquisas e novas atividades econômicas, dentro de uma lógica de mineração circular.
Outro aspecto fundamental é o desenvolvimento de uma nova indústria ligada às terras raras e aos minerais críticos e estratégicos. Como presidente da AMIG, defendo que esses minerais sejam beneficiados e industrializados no Brasil, agregando valor e desenvolvendo uma indústria capaz de gerar empregos e conhecimento nos territórios minerados.
Também temos o Instituto Federal, com cursos técnicos voltados a essa nova formação e às oportunidades que podem surgir. Precisamos deixar de exportar apenas a matéria-prima e avançar na produção de bens com maior valor agregado. Quanto mais valor agregado, melhor para o país e maior a possibilidade de gerar empregos qualificados.
Leonardo Bortoletto: A requalificação do centro histórico também pode trazer oportunidades para o turismo, gerando emprego e renda para o município?
Marco Antônio Lage: O turismo é um grande potencial de desenvolvimento. Itabira tem mais de 300 anos de história e um centro histórico muito bonito. Já temos um projeto de requalificação voltado ao turismo e ao desenvolvimento de pequenos negócios, especialmente nas áreas de gastronomia e hotelaria. Para isso, vamos contar com parceiros como Senac, Fecomércio e Sebrae, que têm experiência na formação de profissionais e novos empreendedores.
O turismo já está em desenvolvimento. Temos um festival literário internacional, que chega ao quinto ano, e que chama atenção para Itabira como a cidade de Carlos Drummond de Andrade, a cidade da poesia. Isso abre perspectivas para o turismo literário e cultural. O município tem pelo menos dez equipamentos culturais importantes, três deles ligados à história e à poesia de Drummond.
Também temos um grande potencial para o turismo ecológico e rural. A zona rural de Itabira tem mais de mil quilômetros quadrados e reúne regiões como Senhora do Carmo, Serra dos Alves e Ribeirão São José. Temos dois projetos importantes: a requalificação do centro histórico, para valorizar a história e a cultura, e o desenvolvimento do turismo rural e ecológico, com melhorias de acesso às cachoeiras, aos cânions e aos espaços naturais da região.
RAIO X
Leonardo Bortoletto: Mineração ou diversificação econômica?
Marco Antônio Lage: Mineração com diversificação econômica. Essa é a nossa tese. Itabira trabalhou com a mineração durante oito décadas sem se preocupar com a diversificação e agora precisa fazer esse esforço rapidamente para preparar a cidade para o futuro e para o pósmineração. Mas a mineração continua sendo uma atividade economicamente importante. Precisamos desenvolver novos negócios sem esperar que ela acabe, para que as atividades convivam e reduzam essa dependência perigosa.
Leonardo Bortoletto: Indústria ou turismo?
Marco Antônio Lage: Os dois. A indústria é importante, sobretudo pela geração de empregos e receitas para o município. O turismo também é fundamental: é uma indústria limpa, promove conhecimento e mobiliza visitantes. Com as mudanças da reforma tributária, o consumo no destino também será importante para a receita municipal. Por isso, acredito que indústria e turismo precisam se desenvolver juntos.
Leonardo Bortoletto: Investir em infraestrutura ou em qualificação profissional?
Marco Antônio Lage: Também os dois. Não conseguimos avançar em apenas uma dessas frentes. Estamos investindo em água, na solução de um problema histórico, no novo distrito industrial e na duplicação da rodovia que liga Itabira à BR-381. Temos ainda o projeto de um aeroporto regional, que depende do governo federal.
Mas, sem qualificação profissional, não adianta ter infraestrutura. Precisamos preparar principalmente os jovens para os novos empregos, para a inteligência artificial e para as profissões ligadas à tecnologia. É necessário desenvolver essas duas frentes ao mesmo tempo.
PERGUNTA DE OURO
Leonardo Bortoletto: Quem está começando a carreira hoje deve buscar oportunidades em Itabira ou é melhor procurar emprego em outra cidade?
Marco Antônio Lage: Pode buscar oportunidades em Itabira. A mineração ainda é o principal empregador, mas o empreendedorismo já começa a crescer e será uma grande oportunidade para os jovens. Há possibilidades no turismo, no agronegócio, na agricultura familiar, na saúde e no setor de serviços. É importante que os jovens se preparem para essas novas atividades e pensem também em empreender no futuro.
RESPONDE AÍ, CHEFE
Leonardo Bortoletto: José Carlos Martins, da Cedro Participações, pergunta se a questão ambiental é determinante para os projetos de investimento.
Marco Antônio Lage: Sem dúvida. A questão ambiental é definitiva para investimentos e para qualquer programa de desenvolvimento em um território. Em uma cidade minerada como Itabira, depois de quase um século de atividade, isso é ainda mais fundamental. O programa Itabira Sustentável prevê iniciativas como a captação de água do Rio Tanque, o cinturão verde, o plantio de árvores, a recuperação de áreas afetadas pela mineração e a preservação das nascentes.
Leonardo Bortoletto: Para encerrar, quais conselhos você daria aos gestores públicos que querem preparar suas cidades para a diversificação econômica?
0000000000000,,,, O primeiro conselho é planejar, não apenas para o próprio mandato ou para o curto prazo, mas também para o médio e longo prazo. O segundo é ouvir a sociedade civil organizada, as pessoas e as principais lideranças do município. Elas ajudam a construir o planejamento e a garantir sua continuidade, para que os projetos se tornem políticas de Estado, e não apenas de governo.
O episódio completo está no ar, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.
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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.



