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A mobilidade mudou com a Uber e a Localiza decidiu acelerar

Da parceria com a Uber ao carro por assinatura, passando pela eletrificação e pelas montadoras chinesas, Eugênio Mattar explica como a Localiza se adapta às novas formas de mobilidade na cidade e nas estradas

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Eugênio Mattar, Localiza
Eugênio Mattar explica que a empresa conseguiu enxergar uma oportunidade de expansão após o surgimento dos aplicativos de mobilidade • Reprodução | Youtube Itatiaia

A transformação da mobilidade está mudando não apenas os carros, mas também a relação das pessoas com eles. Para Eugênio Mattar, presidente do Conselho de Administração da Localiza, a evolução do setor passa por acesso, tecnologia, serviços e capacidade de adaptação. Esse movimento ganhou força com a chegada da Uber e abriu novas oportunidades para a empresa.

A entrada dos aplicativos poderia ter sido vista como uma ameaça ao modelo tradicional de aluguel de veículos. A Localiza, porém, decidiu entender a mudança de comportamento e identificou uma nova demanda: motoristas que precisavam de carros para trabalhar.

“Descobrimos que era uma oportunidade porque a Uber precisava de motoristas”, explicou Mattar.

Muitos desses profissionais não tinham veículo próprio ou utilizavam carros com cinco, seis ou sete anos de uso. A partir dessa percepção, a empresa criou uma operação específica para atender os motoristas de aplicativo, oferecendo veículos, manutenção e a possibilidade de substituição frequente.

A parceria com a Uber também levou a uma mudança na experiência de atendimento. O motorista passou a contar com agendamento de revisões pelo aplicativo, pontos específicos para manutenção e uma estrutura preparada para reduzir o tempo de espera.

A lógica de oferecer mobilidade como serviço também aparece no carro por assinatura. Para Mattar, o modelo atende principalmente quem não considera a posse do veículo essencial e prefere pagar pelo uso associado a serviços.

“Quem quer serviço também vai preferir a assinatura”, afirmou.

O executivo relaciona essa mudança a uma transformação mais ampla no comportamento do consumidor. No Raio X do programa, ao responder se prefere “comprar ou usar”, Mattar apontou que cada vez mais pessoas buscam acesso em vez de propriedade. A escolha, segundo ele, depende do custo-benefício.

Essa mudança de mentalidade exige também uma operação cada vez mais eficiente. Para a Localiza, não basta disponibilizar veículos: é preciso controlar manutenção, utilização, transporte, preparação e venda com precisão.

Mattar chama atenção para o impacto financeiro de um carro parado. Considerando um veículo de valor médio de R$ 100 mil, ele estima um custo de aproximadamente R$ 1.500 por mês quando o automóvel não está em operação.

“Então, o carro não pode estar parado”, afirmou.

A mesma busca por eficiência aparece na gestão financeira. Segundo Mattar, a frota representa cerca de R$ 55 bilhões em capital. Um crescimento de 10% significaria aproximadamente 70 mil carros adicionais e uma necessidade de cerca de R$ 7 bilhões, considerando o valor médio dos veículos.

Por isso, a expansão precisa ser acompanhada de disciplina na alocação de capital. Mattar destaca que a Localiza mantém uma estrutura de capital controlada e afirma que 55% da frota paga 100% da dívida.

Para o executivo, porém, números consolidados não são suficientes para administrar uma operação dessa dimensão. A análise precisa chegar ao nível da agência e do próprio veículo.

Durante a integração, a empresa chegou a perder parte dessa granularidade ao trabalhar com dois sistemas de informação. A retomada de uma análise mais detalhada permitiu identificar diferenças importantes entre as unidades: algumas apresentavam resultados muito bons, enquanto outras tinham desempenho ruim, apesar de a média geral parecer satisfatória.

“Porque a gente nunca pode olhar pela média”, afirmou.

Essa necessidade de antecipação também se aplica às mudanças na indústria automotiva. A chegada das montadoras chinesas aumentou a competição e afetou os preços dos veículos seminovos, impacto sentido pela Localiza nos últimos três anos.

Em vez de apenas reagir ao movimento, a empresa decidiu se aproximar dessas fabricantes. Segundo Mattar, a Localiza já estabeleceu relacionamento com montadoras chinesas e começou a comprar veículos dessas marcas.

A eletrificação é outro fator que deve alterar profundamente o setor. Mattar destaca características dos veículos elétricos, como menor quantidade de peças, menor gasto de energia com calor e menor nível de ruído.

A transição, porém, não deve acontecer de maneira uniforme. Na avaliação do executivo, diferentes tecnologias poderão atender diferentes necessidades. Os elétricos tendem a ganhar espaço nos grandes centros, enquanto os híbridos podem ser mais adequados para quem percorre longas distâncias. Para deslocamentos menores, modelos com baterias mais simples também podem fazer sentido.

“A Localiza já está se adaptando”, afirmou.

O avanço tecnológico das baterias também deve acelerar essa transformação. Mattar cita melhorias em segurança e durabilidade, além da redução do tempo necessário para recarga. Segundo ele, há situações em que uma carga que antes poderia levar um dia já pode ser feita em aproximadamente dez minutos.

Mas a mudança não depende apenas dos veículos. A infraestrutura de recarga será determinante para que a eletrificação avance, e a empresa acompanha esse processo enquanto amplia o relacionamento com novas montadoras.

A preparação para o futuro também envolve entender antecipadamente como a mobilidade vai evoluir. Mattar contou que a Localiza promove encontros com representantes da indústria automotiva brasileira e chinesa, especialistas em inteligência artificial, profissionais ligados aos carros autônomos, economistas e consultorias especializadas em clientes e mobilidade.

A ideia é discutir diferentes cenários antes que as transformações estejam completamente consolidadas.

Essa preocupação com o futuro também está presente na sucessão da própria companhia. Ao deixar a operação e assumir a presidência do Conselho de Administração, Mattar passou a defender uma visão em que a empresa precisa sobreviver aos seus executivos e fundadores.

“A empresa pode ser eterna.”

Para ele, a sucessão é parte natural da evolução de uma organização. O atual presidente da Localiza é mais jovem, tem formação internacional, fala três línguas e é nativo em tecnologia. Mattar reconhece que a experiência acumulada ao longo dos anos continua sendo importante, mas ressalta que o conhecimento também se transforma.

“Embora a gente tenha uma cabeça boa, a idade dá muita sabedoria, mas o conhecimento muda”, afirmou.

A passagem para o conselho, portanto, representa uma transferência de conhecimento e não uma ruptura. A execução fica com uma nova geração, enquanto a experiência acumulada continua contribuindo para as decisões estratégicas.

Ao olhar para a própria trajetória, Mattar também reconhece que crescimento empresarial não acontece em linha reta. Questionado sobre decisões que faria diferente, ele não apontou um grande arrependimento, mas destacou a importância de corrigir os problemas ao longo do caminho.

“A vida também não é só uma reta para cima. De vez em quando dá umas caidinhas mesmo, aí você conserta. Faz parte da trajetória.”

Para quem deseja construir uma empresa capaz de permanecer relevante por décadas, a recomendação do executivo reúne ambição e disciplina: sonhar grande, executar bem, preservar valores, trabalhar duro e ter resiliência.

“Sonhar grande, mas saber fazer da forma certa.”

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todos os sábados, às 8h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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