Itatiaia

Minério verde, desenvolvimento e licença social: os desafios para o futuro da mineração

José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro Participações, defende investimentos em minério de maior qualidade, ações próximas às comunidades e ampliação do mercado para fortalecer a atividade mineral

Por
José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro Participações
Para José Carlos Martins, além dos aspectos produtivos e comerciais, o relacionamento com as comunidades é parte importante da implantação de projetos de mineração • Reprodução | Youtube Itatiaia

A competitividade da mineração brasileira depende de mais do que a capacidade de extrair minério do solo. Qualidade do produto, acesso aos mercados, infraestrutura, redução das emissões na siderurgia e relacionamento com as comunidades estão entre os fatores que influenciam o futuro do setor. Para José Carlos Martins, presidente do conselho de administração da Cedro Participações, esses elementos precisam ser considerados de forma integrada.

Em entrevista a Leonardo Bortoletto, no Itatiaia Negócios Cast, Martins destacou o potencial de Minas Gerais para desenvolver o chamado minério verde, explicou por que a qualidade do minério de ferro se tornou estratégica e abordou a responsabilidade das empresas nas regiões onde operam.

QUALIDADE DO MINÉRIO E DESCARBONIZAÇÃO

A redução das emissões de carbono na produção de aço é um dos desafios que impactam a mineração. Segundo Martins, embora a eliminação das emissões ainda dependa de avanços tecnológicos, a adoção de soluções capazes de reduzi-las já é importante para a competitividade da indústria.

“Ele não é uma exigência, mas é uma condição para ser competitivo”, afirmou, ao comentar o papel do minério verde.

O executivo explicou que a siderurgia tem um peso significativo nas emissões de carbono e que a transição para processos menos poluentes depende de tecnologias capazes de reduzir esse impacto. Na avaliação dele, a utilização de hidrogênio poderá contribuir para mudanças futuras, desde que exista eletricidade limpa em quantidade suficiente e a custos competitivos.

“Não tem como você eliminar essa emissão de carbono. O que você pode fazer é reduzir”, disse Martins.

Nesse cenário, a qualidade do minério de ferro ganha relevância. O executivo avalia que o Brasil precisa considerar sua distância dos principais mercados asiáticos e buscar diferenciais que favoreçam o produto nacional diante da concorrência.

“Eu acho que pro Brasil produzir minério de qualidade é quase uma questão de sobrevivência”, afirmou.

A Cedro tem iniciativas relacionadas à produção de minério de maior qualidade em Mariana. De acordo com Martins, esse produto pode contribuir para a descarbonização da siderurgia e representa uma oportunidade para a mineração mineira.

O VALOR DA MINERAÇÃO VAI ALÉM DA EXTRAÇÃO

Martins também contestou a percepção de que a mineração agrega pouco valor à economia por ser uma atividade extrativa. Para ele, o processo envolve uma cadeia industrial que transforma o material encontrado no solo em um produto adequado ao mercado.

Ao citar o itabirito, o executivo explicou que o minério precisa passar por processos de concentração para que possa ser utilizado. Essa etapa exige estrutura industrial, gera empregos e contribui para a arrecadação de impostos.

“Do jeito que ele está lá, não serve para nada”, afirmou, ao se referir ao minério antes do beneficiamento.

Na avaliação de Martins, o debate sobre agregação de valor precisa considerar também a existência de demanda para os produtos. Ele argumentou que ampliar a transformação industrial no país depende de um mercado capaz de absorver a produção.

“Eu acho que a melhor maneira de você conseguir agregar mais valor é gerar mercado”, disse.

Como exemplo, citou os investimentos em infraestrutura. Uma expansão desse tipo, segundo ele, aumenta a demanda por aço e, consequentemente, por minério de ferro. O executivo também relacionou a procura chinesa pelo minério brasileiro aos investimentos contínuos em infraestrutura realizados no país asiático.

Para Martins, a exportação não deve ser analisada isoladamente como perda de valor. O desafio é criar condições para ampliar a demanda e fortalecer as atividades econômicas relacionadas à mineração.

A LICENÇA SOCIAL E A RELAÇÃO COM AS COMUNIDADES

Além dos aspectos produtivos e comerciais, o relacionamento com as comunidades é parte importante da implantação de projetos de mineração. Martins destacou que a atuação das empresas precisa considerar as necessidades concretas das regiões onde estão presentes.

Na Cedro, segundo ele, as ações incluem iniciativas próximas à realidade local, como apoio a creches e escolas. O executivo defendeu que os investimentos sociais sejam direcionados às demandas mais imediatas da população.

“Você tem que chegar mais próximo daquilo que as pessoas necessitam”, afirmou.

Martins também chamou atenção para a importância de a comunidade perceber os benefícios gerados pela atividade. Na avaliação dele, a geração de empregos e o recolhimento de impostos são relevantes, mas nem sempre tornam visíveis todas as contribuições da empresa para o território.

Por isso, ele destacou a necessidade de iniciativas que complementem as obrigações legais das companhias. Na entrevista, chamou esses recursos adicionais de “imposto voluntário”, referindose aos gastos realizados além dos tributos obrigatórios.

“Você precisa da licença social, a licença da comunidade”, afirmou.

A declaração resume um dos desafios da mineração: a viabilidade de um projeto não depende apenas de recursos minerais e financiamento. A implantação também exige atenção às questões ambientais, às licenças necessárias e à relação com as populações do entorno.

MINAS GERAIS E O POTENCIAL DO MINÉRIO VERDE

Martins vê em Minas Gerais condições favoráveis para ampliar a contribuição da mineração à economia e desenvolver produtos alinhados à redução das emissões. Ele ressaltou que a atividade faz parte da história de muitos municípios mineiros e ainda tem potencial para gerar benefícios econômicos e sociais.

“Eu vejo em Minas hoje um grande potencial no desenvolvimento do minério verde”, afirmou.

O executivo defendeu que as empresas atuem próximas das comunidades e que os resultados da atividade mineral sejam percebidos tanto localmente quanto em escala mais ampla. Para ele, o desenvolvimento de produtos de maior qualidade pode contribuir para a sociedade ao favorecer a redução das emissões na cadeia siderúrgica.

A perspectiva apresentada por Martins reúne três dimensões: aprimoramento do produto, desenvolvimento de mercado e responsabilidade com as regiões onde a mineração acontece. Na visão do executivo, esses fatores precisam caminhar juntos para que o setor mantenha sua competitividade e amplie sua contribuição econômica.

A entrevista com José Carlos Martins integra o episódio 48 do Itatiaia Negócios Cast, apresentado por Leonardo Bortoletto.

O episódio completo está no ar, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

Grandes nomes. Grandes histórias. Grandes decisões.

Itatiaia Negócios Cast. Onde líderes se encontram.

Confira a entrevista completa:

Assistir vídeo:
Por

Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

Belo Horizonte