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A força do interior na economia de Minas Gerais

Milena Pedrosa, presidente da Invest Minas, fala sobre atração de investimentos, desenvolvimento regional, diversificação econômica e estratégias para fortalecer a economia mineira

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Milena Pedrosa, presidente da Invest Minas
Milena Pedrosa fala sobre o trabalho da Invest Minas para atrair e manter empresas no estado, articular com o poder público e os fatores que influenciam a decisão dos investidores • Reprodução | Youtube Itatiaia

Milena Pedrosa, presidente da Invest Minas, fala sobre atração de investimentos, desenvolvimento regional, diversificação econômica e estratégias para fortalecer a economia mineira
A atração de investimentos e o fortalecimento do interior estão entre os caminhos para ampliar o desenvolvimento econômico de Minas Gerais. Desde 2019, a Invest Minas atendeu mais de 340 municípios, segundo Milena Pedrosa, presidente da agência. Somente em 2025, foram 137 municípios, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior.

No episódio 47 do Itatiaia Negócios Cast, Leonardo Bortoletto conversa com Milena Pedrosa sobre o trabalho da Invest Minas para atrair e manter empresas no estado, a articulação com o poder público e os fatores que influenciam a decisão dos investidores. A entrevista aborda ainda a transformação de investimentos anunciados em projetos concretos, o fortalecimento das cadeias produtivas e as oportunidades de desenvolvimento no interior.

Milena também fala sobre o Vale do Lítio, a transição energética, a descarbonização, a inovação e a importância da conectividade para a competitividade das empresas. A executiva explica como os investimentos podem movimentar a economia local, gerar empregos e fortalecer fornecedores e apresenta recomendações para municípios que desejam atrair novos negócios.

Leia a entrevista completa:

Leonardo Bortoletto: Eu queria que você explicasse um pouco, para quem não conhece ainda o trabalho da Invest Minas, o que você faz e qual é a importância da sua conexão com as demais secretarias e com o governo de Minas.

Milena Pedrosa: A Invest Minas é uma autarquia, uma empresa pública, antiga INDI. É uma instituição que tem 58 anos e que eu brinco que acaba trazendo essa Minas inovadora. Somos uma agência de atração de investimentos: promovemos a vinda de empresas para Minas Gerais.

Fazemos parte do sistema de desenvolvimento econômico, ligados à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, mas nosso principal trabalho é conversar com investidores e empresas para atraí-los para Minas. Somos uma ponte entre o empresário e o governo, tanto com a Secretaria de Meio Ambiente quanto com as secretarias de Fazenda e Desenvolvimento Econômico.

Eu brinco que somos a Invest Minas e também a “Mantenha Minas”, porque queremos que os empresários que já estão aqui continuem prosperando e que mais empresas venham para o estado.
Temos duas diretorias técnicas de atração de investimentos e mais de 20 técnicos especializados em aproximadamente 50 setores econômicos. Nossa equipe atua como consultora para novos negócios e para a expansão de empresas que já estão em Minas. Também trabalhamos com os territórios e com as prefeituras, porque o investimento acontece na ponta, nos municípios.

Leonardo Bortoletto: O que o empreendedor e o investidor mais avaliam, além de incentivos fiscais? O que querem saber sobre o estado antes de decidir colocar recursos aqui?

Milena Pedrosa: Uma das primeiras questões é conhecer o território. É preciso entender a região para saber o que pode ser feito ali. Outro ponto importante é o licenciamento, principalmente o ambiental. Os investidores querem compreender os processos e sua velocidade, e por isso trabalhamos de forma articulada com a Secretaria de Meio Ambiente.

A conectividade também é fundamental, tanto pelas rodovias e ferrovias quanto pela infraestrutura digital. A parte elétrica é outro fator relevante. Hoje, nossa matriz energética é quase (99%) renovável. Isso é importante para o empresário, que entende a relevância da descarbonização.

Temos ainda o Minas Maps, uma plataforma em que está cadastrada a grande maioria dos terrenos públicos e privados dos municípios. Isso facilita o acesso às informações sobre áreas disponíveis. Também contamos com uma gerência de inteligência que desenvolve teses de investimento. Uma das mais recentes foi sobre data centers, lançada no ano passado.

Leonardo Bortoletto: O governo de Minas informa mais de R$ 530 bilhões em investimentos privados anunciados. O que muda e transforma um anúncio em realidade? A taxa de projetos que saíram do papel passou de 19% em 2019 para 63%.

Milena Pedrosa: Primeiro, acredito no acompanhamento de perto e no apoio mútuo para que as coisas aconteçam. A Invest Minas passou a trabalhar com esse objetivo de desenvolver o estado e ajudar o empreendedor a estar aqui.

Também investimos muito em infraestrutura, o que é importante para atrair investimentos e manter as empresas. Outro trabalho fundamental é o adensamento de cadeias produtivas. Quando trazemos uma grande empresa, fortalecemos os fornecedores ao redor dela. Isso faz com que o empresário queira permanecer em Minas, próximo desses fornecedores.

É uma forma sustentável de fazer negócios e também de tornar as empresas mais competitivas. Tudo isso contribui para que elas continuem no estado.

Leonardo Bortoletto: Como é esse balanceamento de forças entre a Região Metropolitana de Belo Horizonte e o interior, considerando a quantidade de municípios mineiros?

Milena Pedrosa: Desde 2019, atendemos mais de 340 municípios. Somente em 2025, foram 137, um crescimento de 20% em relação a 2024.

A Região Metropolitana é importantíssima para o estado, mas já apresenta um nível de saturação, com muita coisa acontecendo. Ao mesmo tempo, os municípios estão se preparando cada vez mais para atrair investimentos e promover o desenvolvimento socioeconômico sustentável.

Lançamos a plataforma Minas Digital justamente para apoiar os municípios na atração de investimentos. O estado não faz nada sozinho: é preciso articulação com prefeituras, entidades de classe e empresários.

Também trabalhamos para que os municípios pensem regionalmente. Um exemplo é o polo farmacêutico de Montes Claros. A partir dessa concentração de empresas, surgiu o Kifarma, e temos trabalhado com a entidade e com as indústrias para fortalecer a cadeia produtiva. Assim, não apenas Montes Claros, mas também os municípios do entorno podem se fortalecer a partir da presença de uma grande indústria.

Leonardo Bortoletto: Você citou o polo farmacêutico, mas queria falar também sobre um caso que marcou esse período: o da Heineken. Acho que ele é simbólico para entender a capacidade da Invest Minas. Comente esse caso para a gente.

Milena Pedrosa: Foi o primeiro grande projeto greenfield desse tipo para nós, ou seja, a implantação de uma fábrica do zero, em Passos. A fábrica seria instalada em outro município, mas algumas questões impediram que isso acontecesse naquele local.

A partir daí, houve um grande trabalho coletivo para conseguir que a Heineken permanecesse em Minas Gerais. Foi um esforço muito grande da Invest Minas para viabilizar mais de R$ 1 bilhão em investimentos no estado.

O projeto foi para Passos e já estamos colhendo frutos que vão além da própria empresa. A região está se fortalecendo ao redor dessa grande indústria e pensando cada vez mais em como ampliar seu potencial a partir desse investimento.

Leonardo Bortoletto: Sobre o Vale do Lítio, qual é a expectativa de que essa região se transforme? Qual é o tamanho e a importância dessa cadeia para Minas Gerais?

Milena Pedrosa: Minas Gerais é um estado da mineração, mas trabalhamos cada vez mais para que essa atividade seja sustentável e agregue valor à cadeia produtiva. Temos minerais críticos, terras raras, lítio e nióbio, no qual somos muito fortes, com a CBMM, em Araxá.

As terras raras e o lítio são fundamentais para a transição energética e para fortalecer a agregação de valor. Historicamente, Minas foi um estado minerador muito voltado à exportação, especialmente de minério de ferro. Cada vez mais, trabalhamos para agregar valor a essas cadeias.

O lítio foi muito importante para o Vale do Jequitinhonha porque trouxe diversos investimentos, principalmente internacionais. A ideia é que esses projetos fortaleçam o desenvolvimento socioeconômico da região. O lítio não vem sozinho: as terras raras e o nióbio também contribuem para posicionar Minas nessa cadeia da transição energética.

Leonardo Bortoletto: A descarbonização deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser um fator relevante para os investimentos. Como Minas está posicionada nesse cenário?

Milena Pedrosa: Minas aderiu ao Race to Zero e, a partir desse movimento, avançou em ações climáticas. No ano passado, a Invest Minas lançou a Rota da Descarbonização, um estudo para mapear os principais setores emissores e identificar tecnologias que podem contribuir para reduzir as emissões no estado.

O levantamento considera quatro setores: indústria, transporte, energia e agricultura e florestas. Identificamos 54 tecnologias e as dividimos entre curto, médio e longo prazo, de acordo com a viabilidade econômica e as condições necessárias para sua implementação.

Hoje, temos 12 tecnologias com viabilidade econômica. Trabalhamos para atrair esses projetos, que podem representar novas empresas ou tecnologias aplicadas às indústrias que já existem em Minas. Também desenvolvemos estudos para apresentar oportunidades ao mercado e aos investidores e potencializar a descarbonização do estado.

Leonardo Bortoletto: A conectividade é tão importante que algumas cidades podem perder potencial de investimento quando executivos ou clientes têm dificuldade de acesso, seja por via terrestre ou aérea. Isso realmente afeta a decisão de investir?

Milena Pedrosa: É verdadeiramente importante. A conectividade aérea cresceu muito e hoje temos voos diretos de Belo Horizonte para praticamente todo o país. Em Minas Gerais, contamos com voos regionais da Azul para 17 cidades.

Essa conexão ajuda em várias frentes, inclusive no transporte de cargas. Também é importante para o turismo de negócios e de lazer. Com a reforma tributária, o turismo ganha relevância porque a arrecadação do IBS estará relacionada ao consumo. Assim, cidades e estados que tiverem mais consumo poderão ter mais receita.

A conectividade aérea é importante, mas precisamos olhar também para a infraestrutura rodoviária e ferroviária. São diferentes formas de conexão que precisam trabalhar juntas para fortalecer Minas Gerais.

Leonardo Bortoletto: Minas Gerais é muito conhecida pela mineração. O que precisamos fazer para que o investidor perceba que o estado tem uma economia diversificada e que essa diversificação pode ser incentivada?

Milena Pedrosa: Um fator imprescindível é a inovação, junto com a disponibilidade de pessoas qualificadas. Hoje, os negócios precisam cada vez mais de profissionais preparados, e Minas tem uma boa posição nesse sentido, com universidades federais, como a UFMG, centros de tecnologia e iniciativas como o BH-TEC.

Podemos citar Santa Rita do Sapucaí e o Vale da Eletrônica. A partir do trabalho das universidades e de uma mobilização da sociedade, desenvolveu-se uma região com mão de obra qualificada e empresas de tecnologia.

A inovação é importante para diversificar a economia e também para tornar a mineração mais sustentável. Com a inteligência artificial e as transformações dos negócios, precisamos manter esse olhar para a inovação em diferentes setores.

Leonardo Bortoletto: Na sua opinião, o que o governo tem que aprender com as empresas?

Milena Pedrosa: Acredito que a agilidade é um dos principais pontos. O mercado tem uma dinâmica própria, e o poder público precisa estar atento a isso. Ao mesmo tempo, servir à população é uma motivação muito grande para quem está no serviço público.

Também acredito muito na colaboração. O governo não faz nada sozinho se a sociedade civil organizada não estiver junto. Na Invest Minas, escutamos empresários para identificar mudanças necessárias nas políticas públicas. Não adianta imaginar que as decisões devam ser tomadas apenas dentro do governo.

As entidades de classe, as empresas e a mídia também têm um papel importante. A sociedade precisa participar da construção das soluções, e acredito que o setor público e o privado têm muito a aprender um com o outro.

Leonardo Bortoletto: O que mais mudou na relação entre empresas e agentes públicos?

Milena Pedrosa: Acredito que o setor privado entendeu que pode construir com o poder público. No passado, muitas vezes o empresário dizia que o governo precisava fazer isso ou aquilo, mas ficava apenas na reclamação.

Reclamar é fácil; fazer parte da solução exige disposição. Hoje, vejo mais entendimento de que precisamos participar para mudar as coisas. Às vezes, uma pequena alteração na legislação pode transformar um negócio. Já recebemos várias contribuições desse tipo na Invest Minas.

Essa mudança de postura mostra que podemos construir soluções coletivamente.

RAIO X

Leonardo Bortoletto: No Raio X, capital ou interior?

Milena Pedrosa: Interior. O interior tem uma força muito grande em Minas Gerais. Quase 80% do PIB e quase 80% da população estão no interior. Por isso, não podemos pensar apenas na Região Metropolitana, embora ela continue sendo importante.

Leonardo Bortoletto: Investimento nacional ou estrangeiro?

Milena Pedrosa: Estrangeiro. Desde 2019, foram mais de R$ 500 bilhões em atração de investimentos, dos quais 31% são internacionais. Acredito que existe espaço para ampliar a atração de fundos de investimento estrangeiros. Isso não significa que o investimento nacional não seja importante, porque ele também acontece e recebe nosso apoio. Mas vejo potencial para aumentar a participação internacional.

Leonardo Bortoletto: Mineração ou transição energética?

Milena Pedrosa: Transição energética. Mas não se faz transição energética sem mineração. Precisamos das terras raras e do lítio. Temos que pensar nas duas coisas juntas e fortalecer a agregação de valor à mineração, para não ficar restrita à extração e contribua para a transição energética no Brasil.

PERGUNTA DE OURO

Leonardo Bortoletto: Onde o investimento que chega a uma cidade melhora a vida da população local?

Milena Pedrosa: Quando um investimento chega, ele contrata empresas, serviços e produtos locais, fazendo o dinheiro circular naquela região. Também gera empregos e contribui para o desenvolvimento social.

Muitas empresas trabalham com responsabilidade social e com a preocupação de estabelecer uma relação com a comunidade. Além disso, quando uma empresa chega, fortalece outras atividades e fornecedores ao redor dela.

A atração de investimentos é fundamental para o desenvolvimento socioeconômico e sustentável. Há ainda a capacitação da mão de obra, porque a empresa prepara profissionais para sua operação, mas esse conhecimento também pode beneficiar o setor. A inovação vem junto e contribui para transformar a região.

RESPONDE AÍ, CHEFE

Eugênio Mattar: da Localiza, pergunta como a Invest Minas vai fazer o mercado perceber que as empresas são suas clientes. Como a agência vai facilitar a atuação delas, retirar barreiras desnecessárias e contribuir para a produtividade e a competitividade?

Milena Pedrosa: Somos uma agência extremamente comercial, voltada à promoção e à atração de investimentos. Trabalhamos ativamente para demonstrar nosso conhecimento técnico e oferecer consultoria às empresas.

Temos um CRM para atendê-las, e nossas equipes atuam tanto na busca proativa quanto no recebimento de demandas. Trabalhamos em um cenário competitivo, porque disputamos investimentos com outros estados brasileiros e também com outros países.

Contamos com uma equipe técnica preparada, ações de comunicação e marketing e sistemas que apoiam esse trabalho. Nossa atuação não se limita a fazer a ponte entre o empresário e o governo.

Também buscamos contribuir para mudanças nas políticas públicas e encontrar formas de desenvolver mais o estado.

A ideia é ajudar as empresas a prosperar, para que sejam bem atendidas e permaneçam em Minas Gerais.

Leonardo Bortoletto: Que conselhos você daria a um município que quer se preparar para atrair investimentos nos próximos dez anos?

Milena Pedrosa: O primeiro é se cadastrar na plataforma Minas Digital, que reúne recursos para ajudar os municípios a entender como atrair investimentos. A plataforma foi preparada para apoiar nosso trabalho regional e a atuação junto às cidades.

O segundo ponto é ter uma secretaria de desenvolvimento econômico ou, pelo menos, uma pessoa responsável que conheça a sistemática de atração de investimentos. A Invest Minas está à disposição para apoiar os municípios, mas é fundamental que eles identifiquem e cadastrem os terrenos disponíveis. Não consigo ajudar um município que não tem nenhuma área cadastrada na plataforma.

Também é importante ter políticas públicas adequadas, como leis de liberdade econômica, além de investir em capacitação, educação e inovação. Preparar as pessoas é fundamental para atrair novos negócios.

O episódio completo está disponível no Itatiaia Negócios Cast, que vai ao ar todos os sábados, às 8h, no YouTube da Itatiaia e nas principais plataformas de áudio.

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Leonardo Bortoletto é empresário e apresentador do Itatiaia Negócios Cast e comentarista do Conversa de Redação. Com olhar estratégico para gestão e mercado, entrevista líderes que impulsionam decisões e transformações reais.

 

 

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