Segundo painel do Eloos Indústria debate o futuro da escala de trabalho
Especialistas discutem os impactos da proposta de fim da escala 6x1, a modernização das relações trabalhistas e os desafios para aumentar a produtividade da indústria

O segundo painel do ciclo Indústria do Eloos Itatiaia reuniu representantes do setor produtivo, do poder público e da advocacia trabalhista para discutir o futuro das relações de trabalho no Brasil. A proposta de fim da escala 6x1, a escassez de mão de obra, a necessidade de modernização da legislação trabalhista e os desafios para elevar a produtividade estiveram entre os principais temas do debate.
Participaram do encontro Ricardo Faria, prefeito de Contagem; Raphael Lafetá, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG); Bruno Ligório, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG); e Cássia Marize Hatem Guimarães, secretária-geral adjunta da OAB-MG e presidente da Associação Mineira da Advocacia Trabalhista (Amat).
A proposta de redução da jornada de trabalho e o possível fim da escala 6x1 dominaram a discussão, mas os participantes defenderam que o tema seja analisado de forma ampla, considerando também produtividade, competitividade, informalidade e as mudanças no perfil da força de trabalho brasileira.
Para Cássia Marize Hatem Guimarães, a negociação coletiva é o principal caminho para construir soluções que atendam tanto empregadores quanto trabalhadores. Segundo ela, uma legislação rígida dificilmente conseguirá contemplar as diferentes realidades dos setores econômicos.
"A saída é a negociação coletiva. O que funciona para um setor não funciona necessariamente para outro", afirmou.
A advogada ressaltou que o debate sobre a jornada não deve se restringir à quantidade de horas trabalhadas. Na avaliação dela, temas como metas, organização do trabalho, saúde mental e adoecimento dos trabalhadores precisam fazer parte da discussão.
"A questão não é apenas de jornada. Se os trabalhadores estão adoecendo, o problema é muito mais amplo", acrescentou.
Construção civil
Raphael Lafetá afirmou que uma eventual redução da jornada teria impacto direto sobre a construção civil. Segundo ele, o setor precisaria ampliar o quadro de funcionários para manter o mesmo nível de produção, justamente em um momento de dificuldade para contratar trabalhadores.
"O impacto é muito grande. Se implantarmos essa mudança, vamos precisar de mais trabalhadores para manter a produção", disse.
Para o presidente do Sinduscon-MG, discutir apenas a jornada de trabalho não resolve os problemas enfrentados pelas empresas. Ele defendeu uma revisão mais ampla da legislação trabalhista, argumentando que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi criada em um contexto econômico e social muito diferente do atual.
"Discutir apenas a jornada não é inteligente. Precisamos olhar para toda a legislação e para os processos produtivos", afirmou.
O prefeito de Contagem, Ricardo Faria, avaliou que o país vive uma oportunidade para discutir mudanças nas relações de trabalho, mas ressaltou que o debate precisa levar em consideração o cenário econômico brasileiro.
Segundo ele, a escassez de mão de obra já afeta diversos segmentos produtivos, enquanto o país continua precisando ampliar sua capacidade de crescimento.
"Precisamos compatibilizar qualidade de vida para o trabalhador com aumento da produtividade. O Brasil precisa crescer, e isso exige responsabilidade na condução desse debate", afirmou.
Informalidade do mercado
Ricardo também chamou atenção para o aumento da informalidade. Na avaliação do prefeito, o excesso de burocracia nas relações de trabalho dificulta acordos entre empresas e empregados e pode estimular vínculos informais.
"Precisamos criar mecanismos para aproximar empregadores e trabalhadores. É um tema complexo, que exige soluções igualmente complexas e maturidade para ser enfrentado", disse.
Bruno Ligório destacou que a produtividade continua sendo um dos principais desafios da economia brasileira. Para ele, mudanças constitucionais ou legais não serão suficientes para impulsionar o desenvolvimento se o país não criar um ambiente favorável aos investimentos.
"Não existe aumento de riqueza sem produtividade. É uma ilusão imaginar que apenas uma alteração constitucional fará o país prosperar".
Segundo o presidente do Sicepot-MG, o Brasil precisa construir um pacto nacional envolvendo trabalhadores, empresas e poder público para recuperar sua capacidade produtiva.
"A jornada de trabalho é apenas uma das variáveis. Precisamos ampliar essa discussão e pensar também no aumento da renda e na produtividade", destacou.
Acordos coletivos
Ao longo do painel, Cássia Marize voltou a defender que os acordos coletivos são a melhor alternativa para adaptar as relações de trabalho às necessidades de cada categoria.
"Nada melhor do que as próprias partes para entender o que funciona para elas. Quem sair na frente nas negociações terá melhores condições de enfrentar esse novo cenário", afirmou.
Raphael Lafetá voltou a destacar que a dificuldade de contratação na construção civil está relacionada às transformações do mercado de trabalho e às expectativas das novas gerações.
Segundo ele, muitos trabalhadores passaram a buscar ocupações com maior flexibilidade, o que exige uma adaptação das empresas.
"O setor precisa investir em qualificação, modernização dos processos e melhoria das condições de trabalho para voltar a atrair mão de obra", afirmou.
Para o dirigente, modernizar as relações de trabalho será essencial para enfrentar a escassez de profissionais observada atualmente na construção civil.
No encerramento do debate, os participantes convergiram na avaliação de que o futuro do mercado de trabalho dependerá da capacidade de diálogo entre empresas, trabalhadores e poder público. A negociação coletiva, a modernização das relações trabalhistas e o aumento da produtividade foram apontados como pilares para enfrentar a escassez de mão de obra e garantir maior competitividade à indústria brasileira.
Eloos Itatiaia
O Eloos Itatiaia é um movimento independente, apartidário e plural, criado pelo Grupo Itatiaia para reunir diferentes vozes, ideias e experiências em torno de um objetivo comum: impulsionar o desenvolvimento socioeconômico de Minas Gerais e do Brasil.
Por meio do Eloos, o Grupo Itatiaia promove a integração entre pessoas que atuam com propósito, em diferentes setores estratégicos para o país. O projeto é um espaço de diálogo qualificado, onde pontos de vista se encontram para gerar soluções concretas para os desafios comuns.
Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), atualmente mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já atuou na Band Minas e na TV Alterosa.



