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Alerta de El Niño e crise de custos ameaçam próxima safra de grãos e café em MG

Fenômeno climático deve se estabelecer a partir de junho e se estender até o início de 2027; combinação de clima severo, juros altos e incerteza de insumos ameaça o produtor

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Café conilon ganha força em Minas Gerais impulsionado pela indústria de solúvel
Plantio de café conilon em Governador Valadares, projeto Leite com Café. • Sistema Faemg Senar/ Divulgação

Meteorologistas e entidades do setor produtivo acompanham com preocupação a possibilidade de formação de um novo El Niño em 2026. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), uma das principais agências climáticas, a chance de o fenômeno se estabelecer ao longo de 2026 ultrapassa os 90%, com estimativa de duração até o início de 2027.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño costuma provocar temporais no Sul do Brasil e estiagem ou redução das chuvas nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Em Minas Gerais, a expectativa é de atraso no início do período chuvoso e elevação das temperaturas, o que impacta diretamente o calendário e a produtividade do setor agropecuário.

"O principal centro de pesquisas dedicado ao El Niño é a NOAA. O boletim enviado pelo departamento nos últimos dias aponta que a probabilidade de entrada do fenômeno na América do Sul oscila entre 93% e 96% já para o mês de junho. Contudo, a agência pondera que ainda não é possível saber se teríamos um 'Super El Niño'. Independentemente da intensidade, se os modelos se concretizarem, teremos ondas de calor, temperaturas acima da média histórica para Minas Gerais e diminuição da precipitação no segundo semestre, quando começa o nosso período úmido, trazendo prejuízos para a agricultura", explicou o doutor em climatologia e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Alceu Raposo.

Impacto nas culturas: soja, milho e o café mineiro

Diante do alerta, o setor produtivo mineiro já trabalha em estado de atenção. O gerente de agronegócio do Sistema Faemg Senar, Rafael Rocha, detalha que a principal preocupação está no prolongamento da estação seca na região central do país, o que deve desregular as principais janelas de cultivo do estado.

No setor de grãos, o impacto tende a ser em efeito cascata. "Ocorrendo esta seca mais prolongada, isso pode atrasar o início do plantio da primeira safra, principalmente da soja. Consequentemente, o atraso na colheita encurta a janela da safrinha de 2027. Isso prejudica bastante o potencial produtivo do milho e do sorgo", apontou Rocha. Ele acrescenta que o feijão é outra cultura sob forte receio, por ser altamente sensível à escassez hídrica.

Principal fortaleza do agronegócio mineiro, a cafeicultura também entra no radar de riscos. Após enfrentar desafios climáticos em ciclos anteriores, a expectativa era de uma safra de plena recuperação. "A expectativa para a safra 2025/26 é positiva, mas a consolidação de um El Niño severo no final do ano pode comprometer o potencial das lavouras", disse o gerente.

Gargalos na irrigação e crise de custos

Embora a irrigação surja como a alternativa tecnológica mais viável para mitigar a seca, a expansão da técnica esbarra em entraves locais. De acordo com o representante da Faemg, o potencial de crescimento em Minas Gerais e no Brasil ainda é alto, mas sofre com limitações. "Temos diversas questões legais e estruturais em Minas Gerais, relacionadas tanto à nossa legislação ambiental e de recursos hídricos quanto à distribuição de energia elétrica no campo, que limitam a velocidade de expansão dessa tecnologia", explicou.

Para agravar o cenário, a instabilidade climática chega em um momento de fragilidade financeira para o produtor rural. A combinação de juros elevados, queda nos preços das commodities internacionais e endividamento tem freado o planejamento do campo.

"O que nos preocupa muito, além do El Niño, é o crescimento da dívida do produtor rural. Para a próxima safra, uma grande parte dos insumos ainda não foi comprada porque o produtor enfrenta muitas incertezas. Com custos elevados de produção, juros altos e o preço de venda das commodities em redução, a margem do produtor fica cada vez mais espremida, chegando a inviabilizar o plantio em muitos casos", conclui Rafael Rocha.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde