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Inmet alerta para riscos do El Niño no agro e projeta perdas na safra de inverno e verão

Excesso de chuva entre setembro e outubro ameaça fases críticas das lavouras de trigo e aveia no Sul

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Inmet alerta para riscos do El Niño no agro e projeta perdas na safra de inverno e verão
Imagem ilustrativa • Canva

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) reforçou o alerta sobre os impactos e os riscos que um novo episódio do fenômeno El Niño pode trazer para o agronegócio brasileiro. A preocupação ganha força diante das últimas atualizações do Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a agência climática dos Estados Unidos, que apontam que a probabilidade do fenômeno se estabelecer entre os meses de maio e julho subiu para 82% — em abril, a estimativa era de 61%.

O cenário climático para o segundo semestre descarta uma transição neutra: os modelos indicam 98% de probabilidade para a formação do El Niño entre os trimestres de agosto-outubro e outubro-dezembro, além de 96% de chance de manutenção do fenômeno até fevereiro de 2027. O ritmo forte do aquecimento das águas equatoriais do Pacífico dá sustentação à tese de um "super El Niño".

Monitorado como parte do sistema ENOS, o El Niño é validado quando o desvio térmico das águas da região Niño 3.4 atinge ou supera +0,5°C. A confirmação técnica do episódio exige que esse aquecimento persista por no mínimo cinco trimestres móveis sucessivos e venha acompanhado por modificações na dinâmica da atmosfera tropical.

Excesso de chuva no Sul: quebra histórica no trigo e na aveia

Na Região Sul do Brasil, o El Niño atua de forma inversa ao restante do país, provocando o aumento expressivo dos volumes de chuva, especialmente durante o inverno e a primavera. De acordo com a análise técnica do Inmet, baseada nos dados históricos de produtividade da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) entre 1996 e 2025, essa configuração climática reduz severamente o potencial produtivo dos cereais de inverno.

Os meses mais críticos para essas culturas coincidem com o pico das chuvas, entre setembro e outubro. O excesso hídrico castiga as plantas justamente nas fases mais sensíveis do ciclo fenológico (desenvolvimento biológico): a floração, o enchimento de grãos e a maturação.

O Inmet destaca que o encharcamento do solo traz um tripé de prejuízos:

  • Problemas fitossanitários: Explosão de doenças fúngicas nas lavouras.
  • Perda de qualidade: Danos diretos à qualidade comercial do grão.
  • Logística travada: Solo excessivamente úmido que impede o tráfego de máquinas para o manejo e a colheita.

Com base nas safras das últimas três décadas sob o efeito do El Niño, o Inmet calculou a probabilidade de o produtor colher um rendimento abaixo da média histórica para cada estado:

  • Santa Catarina: Apresenta uma elevada probabilidade de perdas, com cerca de 80% de chance de a produtividade ficar abaixo da média para o trigo e 60% para a aveia.
  • Rio Grande do Sul: Segue o mesmo cenário crítico, registrando em torno de 80% de chance de rendimento abaixo da média para o trigo e 60% para a aveia.
  • Paraná: Registra 40% de probabilidade de a produtividade do trigo ficar abaixo ou próxima da média histórica (os dados para a cultura da aveia não foram destacados no levantamento).

Safra de verão sob ameaça de veranicos e atrasos

Os desdobramentos do fenômeno para a safra de verão (período que compreende o plantio de grandes culturas como soja e milho) exigirão estratégias de mitigação diferentes a depender da região geográfica do país.

Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste

O El Niño historicamente reduz as precipitações e aumenta a frequência de veranicos (períodos de estiagem acompanhados de calor intenso dentro da estação chuvosa), sobretudo durante a primavera e o início do verão. Esse ambiente seco eleva drasticamente o risco de perdas nas lavouras conduzidas em sistema de sequeiro (sem irrigação) e tende a atrasar a implantação e o desenvolvimento inicial das plantas.

Região Sul

Embora a maior abundância de chuvas na primavera e início do verão possa garantir boa disponibilidade hídrica para o desenvolvimento das plantas, o Inmet adverte que o excesso continua sendo o principal gargalo. Chuvas torrenciais recorrentes e acima da média na largada da safra de verão causam encharcamento das raízes, dificultam a entrada das plantadeiras no campo, atrapalham a aplicação de tratos culturais e favorecem fungos.

O instituto ressalta, por fim, que o tamanho real do impacto nas lavouras brasileiras não dependerá unicamente do Pacífico. O comportamento das temperaturas da superfície do mar nas porções tropical e subtropical do Oceano Atlântico, operando em conjunto com a intensidade final do El Niño, ditará o balanço climático definitivo da safra.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde