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El Niño ameaça produção agrícola global e eleva risco no campo, analisa especialista

Fenômeno chega em momento de margens espremidas por juros altos e inadimplência no campo

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El Niño ameaça produção agrícola global e eleva risco no campo, analisa especialista
Imagem ilustrativa • Canva

O agronegócio brasileiro e global está prestes a enfrentar um de seus períodos mais desafiadores. A atual conjuntura de margens espremidas por juros elevados, inadimplência e queda no preço das commodities, soma-se agora a chegada do El Niño, que já é 100% garantida para os próximos meses, segundo o diretor acadêmico da FDC-Agroambiental (Fundação Dom Cabral), Marcello Brito, com chances crescentes de se transformar em um evento de forte intensidade (Super El Niño).

Para Brito, o momento exigirá do produtor uma racionalidade extrema, onde recuar e deixar de plantar pode ser a decisão mais inteligente para evitar a falência.

Raio-X do El Niño: Seca, fogo e imprevisibilidade no Brasil

Segundo o diretor, os percentuais de probabilidade monitorados por agências como a NOAA (EUA) e o Cemaden (Brasil) sobem semana a semana. Embora o El Niño seja caracterizado genericamente por excesso de chuvas nos extremos do planeta e seca na faixa central e equatorial, os impactos regionais no Brasil serão distintos e severos.

Norte e Nordeste: culturas perenes e rios baixos

Nas regiões Norte e Nordeste, o principal risco é a forte estiagem. O especialista projeta sérios reflexos sobre as florestas e a agricultura, com grande potencial para incêndios. "Em 2024 não era nem um Super El Niño, era só um El Niño, e nós tivemos queimadas fortíssimas no Brasil", recordou.

Além disso, a seca severa deve baixar o nível dos rios na Amazônia, apertando a logística de municípios que dependem exclusivamente do transporte hidroviário. No campo, o alvo principal serão as culturas perenes, que demandam um ciclo longo de desenvolvimento. Cacau, palma (dendê), açaí e pimenta devem sofrer perdas diretas por falta de água e umidade.

Centro-Oeste: o perigo de chuva na 'hora errada'

Para o principal cinturão de grãos do país, o problema central não será necessariamente a escassez total de chuva, mas a completa falta de previsibilidade.

"A característica do El Niño no Centro-Oeste é chover muito na hora errada. O produtor faz o plantio com a terra úmida, mas na hora da formação do grão, falta chuva", explicou Brito. Diante dessa quebra de ciclo, culturas como a soja e o milho de segunda safra (safrinha) correm sérios riscos. O café, localizado em faixas que devem registrar forte déficit hídrico, também está na lista dos mais prejudicados.

Sul: o oposto que atrai pragas

Na Região Sul, o impacto é inverso, mas igualmente danoso. O fenômeno trará volume excessivo de chuva e, principalmente, alta umidade. Esse ambiente é o cenário ideal para a proliferação de doenças fitossanitárias. "É a umidade que favorece a formação de fungos nas colheitas e o aparecimento de doenças que atraem pragas", apontou o diretor da FDC.

Impacto global: o exemplo do cacau africano

O redesenho climático não ficará restrito às fronteiras brasileiras. Países localizados na mesma faixa equatorial sofrerão consequências idênticas. Marcello Brito destacou o impacto esperado sobre a produção de cacau na África, região responsável pela maior parte do abastecimento mundial da amêndoa. Com a quebra de safra esperada no continente africano, a tendência é de um forte repique nos preços internacionais da matéria-prima, desequilibrando a indústria global de alimentos.

Gestão e o mercado: 'o agro não quebra, muda de mãos'

Ao analisar o cenário econômico adverso enfrentado pelo setor desde o início do ano, Brito ponderou que, embora a inadimplência assuste, ela não afeta o setor de forma homogênea. O fator divisor de águas entre o sucesso e a lona é a capacidade de gerenciamento do produtor.

"Existem alguns ditados antigos no agro. O primeiro é: ninguém quebra na baixa, quebra na alta, quando não se planejou suficientemente para os períodos de vacas magras. O outro é que o agro não quebra, ele muda de mãos. Ou seja, quem se planejou chega nas dificuldades e compra as áreas daquele que não investiu em gestão", disse.

Brito reforçou uma regra básica do mercado: o produtor rural não tem controle sobre o preço das commodities, sobre o valor dos insumos ou sobre os impostos cobrados pelos governos. "A única coisa que você pode mexer e controlar é a sua gestão financeira, contábil e econômica".

Segundo ele, os produtores que aproveitaram os anos de preços recordes para se capitalizar passarão pelo aperto atual com rentabilidades pressionadas, mas sobreviverão. Já aqueles que acreditaram que os preços continuariam nas alturas perpetuamente estão endividados e tendem a sofrer ainda mais.

Recuar pode ser a melhor estratégia

Para os produtores que ainda não se planejaram para a chegada do El Niño, Brito sugeriu uma análise fria no momento em que a janela de plantio for aberta. Se o clima estiver excessivamente seco e a imprevisibilidade meteorológica for alta, o melhor caminho pode ser o recuo estratégico.

"Às vezes, deixar de plantar é melhor do que fazer um investimento que corre o risco de não dar resultado. Caso contrário, o produtor sai ainda mais endividado do processo. É uma decisão difícil para quem vive de produzir, mas será necessária".

Caso o setor adote essa postura de cautela, o especialista projeta que o Brasil poderá colher uma safra menor do que a estimada no início do ano. Paradoxalmente, esse recuo produtivo pode trazer um alento financeiro. "Com uma menor oferta de grãos no mercado, a relação de oferta e demanda tende a se estabilizar, garantindo preços menos pressionados e mais justos para o produtor que conseguir colher", concluiu.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde