O retorno do analógico: por que a nova geração prefere discos de vinil e câmeras de filme?

Jovens nascidos na era digital impulsionam mercado de produtos ‘retrô' em busca de autenticidade e desconexão

Experiência sonora e estética pode ser motivação para o aumento do consumo de discos de vinil

Para quem nasceu com o mundo na palma da mão e acesso ilimitado a bibliotecas de música por streaming, o ato de tirar um disco de uma capa de papel e posicionar uma agulha pode parecer arcaico. No entanto, para a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), o ritual é o novo luxo.

O fenômeno, apelidado de “renascimento analógico”, está transformando mercados que pareciam condenados à extinção. Em 2025, as vendas de discos de vinil superaram novamente as de CDs em vários mercados globais, e o interesse por câmeras de filme de 35mm e câmeras digitais “antigas” (as digicams dos anos 2000) disparou nas redes sociais.

No streaming, a música é utilitária e invisível; no vinil, contudo, ela se torna um objeto tangível. A Geração Z valoriza justamente essa posse física, apreciando a arte da capa, o encarte e a textura do som. Assim, ter um LP torna-se uma declaração de identidade e um convite à apreciação deliberada de uma obra completa, combatendo a cultura do “pular faixa” imposta pelos algoritmos.

Somada a essa experiência sensorial, nota-se também um forte componente visual que atrai os jovens. O grão das fotos analógicas e o som imperfeito do vinil trazem uma estética que filtros de Instagram tentam, mas não conseguem replicar com perfeição. Trata-se de uma “nostalgia por um tempo que não viveram”, em que as imperfeições são vistas como sinais de humanidade e autenticidade dentro de um mundo saturado por inteligência artificial e imagens retocadas.

Essa busca pelo autêntico reflete, em última análise, uma tentativa de cura, já que viver 24 horas conectado gera o chamado “cansaço digital”. O analógico, portanto, surge como uma barreira física necessária contra o excesso de notificações. Exemplos claros disso são as câmeras de filme, que eliminam a ansiedade pela aprovação social imediata ao não permitirem ver a foto na hora, e as vitrolas, que exigem uma atenção exclusiva, afinal, é impossível abrir 20 abas no navegador enquanto se dedica ao ritual de trocar o lado de um LP.

Embora pareça um movimento de nicho, essa tendência foi impulsionada por grandes artistas contemporâneos, como Taylor Swift, Billie Eilish e Harry Styles. Ao lançarem múltiplas variantes coloridas de seus álbuns em vinil, esses ídolos transformaram o formato em um item de colecionador indispensável, criando uma nova porta de entrada para o mercado de alta fidelidade entre o público jovem.

Diante desse cenário, fica claro que o retorno ao analógico não é apenas um modismo passageiro, mas um movimento de resistência à efemeridade do digital. No fim das contas, o jovem de hoje não quer apenas consumir cultura; ele quer tocá-la.

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Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.

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