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Uma mineira e um manauara na Academia Brasileira de Letras: o brilho do salão e a luz dos livros

‘A bibliotecária, Dona Aidê, me via entrar com olhos de curiosidade e sair com a mochila mais pesada e a cabeça mais leve’, relembra esse colunista

‘Comecei pelos contos que cabiam nos primeiros anos: fábulas, recontos, livrinhos ilustrados’

Costumo dizer que, antes e acima de tudo, sou leitor. Leio muito; leio sempre. Leio desde menino. Aos seis anos, eu já circulava pela Biblioteca Municipal Guimarães Rosa, em Itaguara, levado pela mão paciente da professora Dona Helenice. Lembro do caderno pautado, do lápis nº 2, do cheiro de papel novo e da voz que soletrava vogais.

A bibliotecária, Dona Aidê, me via entrar com olhos de curiosidade e sair com a mochila mais pesada e a cabeça mais leve. Comecei pelos contos que cabiam nos primeiros anos: fábulas, recontos, livrinhos ilustrados. Logo vieram Monteiro Lobato, com Reinações de Narizinho, em que Emília e o Visconde me ensinaram a força da imaginação, e, em edições adaptadas, As Aventuras de Gulliver, entre liliputianos e gigantes.

Depois das primeiras leituras infantojuvenis, a pilha cresceu e a curiosidade também. Vieram O Escaravelho do Diabo, O Menino do Dedo Verde, A Ilha do Tesouro, A Marca de uma Lágrima. Na transição para a adolescência, Memórias Póstumas de Brás Cubas me espantou com o defunto-autor que narra. Pouco depois, por volta dos quatorze anos, arrisquei Guimarães Rosa por Campo Geral e Primeiras Estórias; Miguilim me ensinou que a língua pode ser paisagem e que certas páginas se abrem devagar e com emoção.

Hoje me parece loucura ter lido Machado e Rosa tão cedo, mas foi ali que acordaram em mim uma curiosidade sem volta e um amor definitivo pela literatura. Nessa mesma época, descobri que Rosa havia morado em Itaguara, e isso acendeu em mim um orgulho imenso.

Por falar em Guimarães Rosa, cresci ouvindo a história da cigana que teria lhe dito que, quando alcançasse a maior conquista, algo muito forte aconteceria; saber, anos depois, que ele vivera em Itaguara só ampliou o assombro. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, tomou posse numa quinta-feira, 16 de novembro de 1967, e morreu três dias depois, em 19 de novembro. Esse encontro entre mito e história sempre me fascinou por três motivos: a lenda que alimenta o imaginário, a força da literatura que atravessa biografias e cidades, e o simbolismo da ABL como casa da língua e da memória.

A Academia faz sentido justamente quando cumpre a missão de zelar pelo idioma e pelo patrimônio cultural de nossa gente, quando estimula a leitura, protege bibliotecas, abre espaço para vozes diversas e reconhece quem faz a língua avançar, e não como mero salão de cerimônias. Literatura é infraestrutura de cidadania. Por isso é alento ver a ABL fiel a esse princípio, com escolhas que reafirmam a literatura como medida.

Ana Maria Gonçalves, mineira de Ibiá, é daquelas escolhas que iluminam a razão de existir da Academia. Autora de Um defeito de cor, romance de fôlego que venceu o Prêmio Casa de las Américas (2007) e, anos depois, virou enredo da Portela, ela foi eleita na quinta-feira, 10 de julho de 2025, para a Cadeira 33, com 30 dos 31 votos, sucedendo o filólogo Evanildo Bechara (falecido em 22 de maio de 2025). O fato de tornar-se a primeira mulher negra em 128 anos de ABL é tão relevante quanto o critério literário que a sustenta: pesquisa histórica, imaginação narrativa, linguagem precisa e impacto cultural que transborda a página e chega à escola, às bibliotecas e às ruas. Sua eleição recoloca a literatura, com absoluto rigor de língua e memória, no centro do fardão e diz ao país que o cânone pode e deve se expandir sem renunciar à excelência.

Milton Hatoum confirma essa direção com a autoridade de uma obra que narra o Brasil a partir da Amazônia. Manauara, professor e romancista de mão firme, foi eleito na quinta-feira, 14 de agosto de 2025, para a Cadeira 6, com 33 de 34 votos, sucedendo Cícero Sandroni; tornou-se o primeiro amazonense entre os imortais. De Relato de um certo Oriente a Dois Irmãos, de Cinzas do Norte a Órfãos do Eldorado e à trilogia iniciada por A Noite da Espera, sua prosa combina atmosfera, arquitetura narrativa e atenção às tensões familiares e urbanas de um país em mutação. A qualidade narrativa já era reconhecida por prêmios e por adaptações para a TV e o cinema. Ao escolhê-lo, a ABL afirma que o ofício do escritor, com sua paciência de artesanato e visão de mundo, deve ser a melhor régua da casa da língua.

É desejável que a ABL seja uma casa plural. A língua vive de travessias: do romance à poesia, da crônica ao ensaio, da dramaturgia à canção, da antropologia à sociologia, passando pela filosofia e pela economia; da reportagem à tradução e à filologia. É bom que artistas, compositores, cineastas, pensadores e vozes de outras linguagens ocupem a mesa quando trazem densidade verbal, invenção e diálogo com a tradição.

O diálogo entre linguagens enriquece quando a palavra permanece no centro de gravidade. Pluralidade, no entanto, pede critério. Não pode ser a celebridade pela celebridade, nem o ruído pelo ruído. O que sustenta a casa é a qualidade do texto, sua capacidade de alargar repertórios, refinar a escuta e devolver o país aos seus leitores. A casa pode ser plural sem perder o eixo, acolher outras artes sem renunciar ao livro como fundamento.

Para que essa história ficasse completa, faria falta Chico Buarque: músico inteiro, letrista raro, escritor premiado, ponte viva entre canção e prosa. Mas se até Drummond, nosso poeta maior, preferiu ser imortal sem fardão, não se pode exigir que Chico queira a ABL. A Academia é casa da literatura; a literatura, porém, não cabe numa casa. Quando a obra é grande, o fardão é detalhe. Que a Academia siga aberta e exigente, e que nós, leitores, não confundamos o brilho do salão com a luz que vem dos livros.

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br

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