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O menino Ney
O menino Ney

Penso que já esteja claro que o objetivo desta coluna é falar mal de todo mundo. Resguardadas as devidas proporções da ironia e seus gatilhos, entenda-se: nossas reflexões objetivam abordar tensionamentos. Para além da hipocrisia e das paixões afetivas, interessa-nos interrogar causas. O tema de nossa reflexão é Neymar. Aliás, não exatamente ele. Porque o sujeito em si, em sua singularidade, em seus avessos, como todos nós, nunca está ao alcance de um texto. Todos somos mais do que a soma daquilo que se vê. 

É fato que o futebol é uma paixão nacional. E isso na ambiguidade própria da paixão: ela conjuga amor e ódio. Nesse triângulo amoroso entre nós e a nação está Neymar. O jogador que, sem sombra de dúvidas, foi a grande revelação de sua geração, carrega nos ombros o peso de um futebol brasileiro que já não produz tantos craques como antes. 

Que ele cai, cai. Mas também é fato que muita coisa mudou nos últimos anos. Já não há espaço para tanto individualismo no futebol mundial, nem para o antigo “futebol arte”. Os times tornaram-se mais coletivos; a técnica passou a exigir mais organização, intensidade e preparo físico. Talento, sozinho, já não basta. E aqui, nessa coisa meio tragédia, meio romance, há uma grande lição. A vida exige de nós, continuamente, fórmulas novas. A crise do futebol brasileiro encontra em Neymar uma poderosa metáfora: talento ajuda muito pouco quando se ausentam o coletivo e a cultura. 

Via de regra, os esquemas que nos levam a algum patamar deixam, cedo ou tarde, de ser suficientes. Tornam-se incapazes de garantir o que antes funcionava e ineficazes para proporcionar aquilo que se espera depois. A metáfora serve tanto para o futebol quanto para o casamento: em ambos, o jogo nunca está ganho. 

Nesta era da espetacularização midiática, tivemos mais uma demonstração de como instituições em crise costumam agir. Olhando para os cantos, aqui e acolá, nada indicava clima de Copa. Estamos meio desiludidos com o futebol, com a camisa da seleção, com a própria ideia de identidade nacional em torno dela. Mas, das igrejas à padaria, a pergunta era sempre a mesma: “E Neymar, vai para a Copa?”. 

A CBF nos ofereceu um grande espetáculo cinematográfico: gatilhos, tensão, expectativa, um evento interminável, catarse. A indignação no Brasil costuma ter prazo de validade. É afetivamente condicionada, seletiva, episódica. E nem vamos entrar aqui no hype político. Sucesso da mídia tradicional ao TikTok. Clamor entre os jovens: “Bora, menino Ney!”. E aqui subjaz uma reflexão pertinente: como um homem de 32 anos ainda pode ser chamado de menino? Eis uma grande metáfora da cultura brasileira. Somos o país do futuro, dos gênios prematuros, do “jeitinho”. 

Neymar é, para além das controvérsias sobre seu desempenho em campo, um símbolo de uma cultura imediatista. Mais do que técnica e objetividade, sua convocação mobiliza visibilidade. Miramos na celebridade, que, no jogo ou na vida íntima, gera sempre engajamento e notícia, e, de tabela, acertamos o jogador. 

Fenômenos assim nos dão a dimensão de quanto narrativas que movimentam as mídias terminam por se impor como verdade social. 

Se a presença de Neymar em campo e seus envolvimentos afetivos são ambíguos, é tácito que o jogador se construiu como símbolo de sucesso, carisma e desejo. Sim, não apenas entre mulheres, mas sobretudo entre homens. O futebol é uma curiosa demonstração de como o homem heterossexual organiza seus afetos de modo "homoafetivo" . A relação matrimonial e sexual pode ser com mulheres, mas a admiração apaixonada, a euforia coletiva, a idolatria e os vínculos simbólicos recaem, quase sempre, sobre figuras masculinas. 

Todo homem traz dentro de si um menino, um moleque caminhando pelo coração. A identificação com Neymar ativa fantasias muito profundas, quase arquetípicas: talento sem necessidade de perfeição moral, ser objeto de amor incondicional apesar dos próprios desvios, ascensão social por meio de uma atividade lúdica, conjugar vaidade, sensualidade e testosterona, viver numa eterna síndrome de Peter Pan, transformar “meninices” em salvo-conduto para não amadurecer nem assumir responsabilidade emocional. 

Neymar representa uma espécie de "abraço de afogado" da masculinidade brasileira. Se, por um lado, a ressaca moral em torno do “masculino” tem levado muitos homens a reafirmarem performaticamente a própria testosterona, por outro, boa parte deles deseja justamente a vida do “moleque”: ser amado com a condescendência que as mães costumam dedicar aos filhos. Há muito “macho” que não percebe o paradoxo de querer os benefícios e prerrogativas da idade adulta sem abrir mão dos vícios e imaturidades dos meninos. 

A questão, ao fim e ao cabo, nem de longe é sobre futebol, Neymar ou Copa. Trata-se da crise da masculinidade contemporânea. O feminismo escancarou o machismo. Resta agora compreender que tipo de homem queremos ou seremos. Quem reage jura mirar no “macho”, mas frequentemente apenas atiça as dores e frustrações do menino. 

Há um horizonte necessário e possível. Talvez ele passe menos por “montanhas”, “gritos” e “filtros” e mais pela angústia, isto é, pelo parto, de um novo homem: mais próximo do barro (adam, Adão) do que das estrelas; um homem que não seja criado acreditando que os piores defeitos masculinos sejam ser “Maria” ou “mulherzinha”; alguém forjado para amar com escuta, entrega, responsabilidade afetiva e capacidade de sacrifício. 

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.