Os Intocáveis? Miseráveis...

Já deu para notar que os líderes, no Brasil e no mundo, estão à flor da pele? Está sobrando até para o papa, como refletíamos no ensaio passado. No contexto mais doméstico, tivemos algo mais que dentes "arrancados a fórceps", em um evento cívico. Ah, e em instâncias mais supremas, o argumento da defesa institucional assume as feições de um impulsionamento eleitoral gratuito. Morde-se a isca do gatilho. Na era dos algoritmos, derrapa-se nos argumentos. A linha entre retórica e preconceito entre a indignação e xenofobia é transposta facim, facim.
Seja-nos permitido o trocadilho, esperamos que não infame: há, sim, um grande problema no dialeto, não no campo dos "sotaques", mas na própria linguagem institucional. Elas sim, antes de tudo, as instituições, estão com dificuldade de dizer.
Fala-se de Intocáveis. Eles existem aqui e acolá. Quem dera fossem um privilégio desta ou daquela instituição. Aliás, diríamos, boa parte das vezes o impulso inconsciente que leva ao terno, à túnica, à farda ou à toga diz respeito ao receio dos toques que a vida causa, da própria "pele".
Talvez, parafraseando Victor Hugo, o nosso olhar deva se voltar, antes que aos "Intocáveis", aos "Miseráveis". Há uma indigência moral, política, espiritual, cívica pairando sobre o mundo...
Assim como no romance, a vida imita e aprofunda a dimensão trágica da arte. Disso dá testemunho essa indústria do ódio a que estamos submetidos o tempo todo. Na era dos algoritmos, atacar engaja. A miséria deste mundo em crise se funda no fato de que nos falta coragem e lucidez para assumir que ninguém - nem as instituições - sabe exatamente o que fazer. Estamos todos expostos a uma sociedade que pensa sempre de modo binário, não lê ou interpreta e, por isso mesmo, está cheia de indivíduos que adjetivam.
Destilamos ódio, um dos sintomas claros de nossa miséria e de nossos não-me-toques. Essa agressividade, presente no ambiente digital e contaminando nossas instituições, é o sintoma de uma indigência ainda mais profunda que a corrupção. Sim, isso mesmo. Até a famigerada corrupção, o discurso que desperta de quatro em quatro anos catalisando o desejo de "acabar com tudo isso que está aí", é o mal número dois.
O mal número um é a miséria. Essa diz respeito, em primeiro lugar, ao aumento da pobreza material, ao fato de que, no Brasil e no mundo, há pessoas atravessadas em suas necessidades mais básicas, à perda de renda, ao endividamento crescente. Em segundo, num sentido igualmente desafiante, resistimos ao reconhecimento de que a modernidade deixou a todos nus. As visões de mundo, as referências políticas, filosóficas, transcendentes que nos trouxeram até aqui parecem não servir mais. Não é que os princípios e valores deixaram de dizer, mas precisam falar de outro modo, ou não dizem nada. Aliás, geram ou fundamentalismo ou indignação. Duas atitudes, por vezes, siamesas. Há gente que, repetindo fórmulas, julga trazer o paraíso à terra. Há gente que se revolta vendo a letargia, a conveniência, a hipocrisia de certas instituições e escolhe partir para a “anarquia”.
A reprodução recorrente de cenas de violência dos nossos líderes é um grande alerta: sobram gritos onde o argumento é fraco. A agressividade é uma força ancestral. A ira, se bem empregada, defende e impulsiona ao cuidado. Quando ela sobe aos palanques, púlpitos ou tribunas, é certo que estamos diante do desequilíbrio. Não há argumento mais eloquente do que convicção e coerência. Se um sábio é questionado, sobre si ou sobre as ideias que reafirma, ele não esbraveja, explica.
Que a falta de decoro, nunca antes vista, nos sirva de alerta. É típico que quem possui "meias verdades" se engalfinhe. Isso vem dos tempos da infância: se a argumentação é oportunista e fraca, a gente, geralmente, grita...
Estamos todos tensionados em nossas ideias. O pensamento, a moral, os argumentos que nos trouxeram até aqui, em grande medida, não servem mais. Ainda não sabemos o que pode, a partir daqui, nos sustentar.
Certamente, a resposta não virá de acusações fúteis, de uma ética binária, de uma compreensão quase mágica de que um lado representa o mal e o outro o bem. Ajuda, antes de tudo, não perder o bom humor resguardemos a sátira. (tipo dizer que o papa é virginiano! #católicoscontraohoroscopo). O riso descontrai os pulmões. As vezes até dói, mas cura!
O diabo não sabe sorrir. Ele leva os próprios "crimes" ao pé da letra. Como lembra G. K. Chestertos: "Anjos só podem voar porque não se levam a sério". Por dedução lógica, poderíamos dizer: quem espuma demais pela boca está mais próximo de um pacto com o inferno...
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
