Polarização enlouquecida

A Internet parece ter inaugurado uma nova formação: a achiologia. Impressiona ver o quanto as plataformas digitais se tornaram um espaço, um ringue de comentários agressivos e ideias precoces. Particularmente no Brasil, onde as relações, pelo bem e pelo mal, são fortemente marcadas pelo afeto, há vários gênios prematuros.
Fala-se em polarização calcificada e afetiva. Devemos considerar que são conceitos importantes para compreender o fenômeno cultural de nossa sociedade. Há polos energéticos e em tensão. Calcificados, porque, não importa o que aconteça, há pessoas que definem uma vida inteira - a sua e a dos outros - sob a perspectiva política: esquerda e direita, coxinha, gado, mortadela. Há polos afetivos de tensão, de modo que a simples menção a um nome faz o juízo descer do cérebro às vísceras, levando o raciocínio para a fossa.
Textos ensaísticos, como é a proposta desta nossa coluna semanal, costumam ser escritos tendo o narrador como sujeito oculto. Essa é uma forma cortês, academicamente adequada, de indicar que uma reflexão madura deve ir além de uma simples opinião pessoal. O autor cuja voz aqui fala hoje sai da casinha, com certa indignação! Fiquei, de fato, abismado com a repercussão da coluna da semana passada. Um ensaio objetivo acerca de um fenômeno de mídia foi lido, surpreendentemente, como apoio político, passada de pano ou endosso à figura em questão.
Nossas reflexões não são sobre apoio ou rejeição. Nosso objetivo, para além das impressões, afetos e moralizações, é refletir sobre temas pujantes do cotidiano. Por vezes, à luz da fé, investigando as contradições internas e despertando a consciência. Isso não torna nossos ensaios imunes a críticas, é claro! Mas é desonestidade intelectual procurar ver neles uma apologia a freis, a políticos, a quem quer que seja.
Lançando mão das palavras de Friedrich Nietzsche, o padre que aqui vos fala não quer seguidores! Parafraseando Zaratustra, ninguém pode ser um bom seguidor de outrem se não aprende a seguir a si mesmo. Eu não quero substituir consciências, dizendo às pessoas o que elas devem fazer ou pensar... O arrependimento (conversão) cristão é metanoia: mudança de consciência (Mt 4,17)!
Nosso objetivo não é tirar conclusões, mas trazer menos emoção e mais razão. É preciso, caro(a) leitor(a), nestes tempos difíceis, evitar a violência da verdade presumida! Estamos sendo ensurdecidos pelas impressões e fantasias que projetamos sobre o mundo. Não! Por melhores que sejam as ideias do pastor ou do partido, ninguém pode arrogar para si o monopólio da razão e da virtude.
Os áudios, os vídeos e os memes estão aí espalhados aos montes para dar testemunho de que todos subimos ao altar, ao púlpito e à tribuna com nossas meias-verdades.
Os clássicos diziam: “acredite em metade do que vê e em nada do que ouve”. Esse conselho nunca foi tão atual quanto agora. Oxalá ele não seja apenas aplicado aos outros!
Antes de qualquer crítica a uma fala, a um texto, a um recorte na Internet ou a uma mensagem no WhatsApp, é preciso reflexão. Toda boa crítica pressupõe amadurecimento e reflexão. A verdade é filha do tempo, não de nossas ansiedades.
Estamos à flor da pele e descidos às vísceras. Como lembra Friedrich Nietzsche, com certa lucidez e ironia, o cérebro é parte das vísceras. Isso serve para “conservadores” e “progressistas”. Sabe-se lá Deus o que isso hoje significa! Há, certamente, algo de muito doentio quando até chinelo e detergente viram objeto de devaneio político. Quando tudo se resume à política, significa que ali se desidratou uma verdade muito mais profunda e maior.
O desafio, se não falha nossa análise, é que as redes sociais estão dando vazão a nossos “instintos” mais primitivos de sobrevivência. Elevam nossa ansiedade à máxima potência. Com seus filtros e sua I.A., criam realidades paralelas e simulacros do real, despertando em nós uma grande agressividade. A questão passa a ser cancelar (matar, destruir) o outro.
Parece claro que a polarização afetiva é, antes de tudo, uma questão de sobrevivência. Por detrás dos gritos da “esquerda”, parece haver uma indignação ressentida diante das vulnerabilidades e identidades feridas. Quando isso se transforma em legítima indignação contra a injustiça e impulsiona uma consciência inclusiva, estamos próximos do céu. Quando se torna monopólio das virtudes, autocomplacência com complexo de Madre Teresa de Calcutá, hipocrisia de quem tem a conta bancária cheia, um gabinete cheiroso e julga entender o que falta aos pobres, estamos próximos do inferno! Que saco é a “catequese” de gente hipócrita, mal resolvida e que se julga ativista.
Parece claro que a polarização afetiva é, também, uma questão de sobrevivência. Por detrás dos gritos da “direita”, parece haver insegurança diante das mudanças. Quando isso se transforma numa argumentação lúcida de que o relativismo absoluto e a dissolução de valores podem levar ao caos social, estamos próximos do céu. Quando se torna indignação seletiva, sacralização de modelos morais caducos, punição nos outros dos próprios desejos reprimidos e imperfeições, tornando a defesa de legados culturais a coisa mais chata do mundo, estamos mais próximos do inferno.
Meu Deus… Será realmente tão difícil entender que, antes de qualquer posicionamento ou comentário no feed alheio, ou de uma pretensa indignação profética, o momento atual exige lucidez, consciência e autocrítica?
É claro que, diante de situações tácitas de ameaça à democracia e, sobretudo, à vida, será preciso um pouco de berro e profecia! Mas dá para, antes disso, fazer um juízo da própria vida, ser um pouco mais gente boa, arrumar a própria casa e parar de encher o saco da vizinha? Essa é uma boa maneira de começar a mudar o país e o mundo...
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
