Juízes são deuses

Uma das mais antigas válvulas de escape para as frustrações é o poder. Fala-se muito no risco dos vícios, no potencial adoecedor da ambição, mas a aspiração pelo poder tem enorme potencial destrutivo. Particularmente em tempos de crise, quando costumamos “descer” às pulsões e aos afetos mais primitivos, surge um terreno fértil para “figuras redentoras”. Poderíamos dizer que cenários de incerteza tendem a ativar em nós uma espécie de síndrome do Chapolin: “e agora, quem poderá nos defender?”.
Quando Marshall McLuhan disse que a revolução experimentada na tecnologia e nas comunicações faria de nós uma “aldeia global”, pensava em termos de conexões, trocas, reduções de distâncias. Mirou numa coisa, acertou noutra. Somos uma grande aldeia, mas sem as virtudes indígenas. Ativamos o que há de mais ruim e corrompido numa espécie de tribalismo; estamos num delírio coletivo por um grande guerreiro, um “cacique”, um “pajé”.
A metáfora, em nada, contamos com o bom senso, diz respeito aos indígenas. É uma crítica direta ao que há de mais contemporâneo nesta selva de bytes e de pedra da sociedade (seria pós-moderna?). Mito, Messias, Salvador, Pai, cacique… são sintomas de uma mesma doença: a impossibilidade de nos responsabilizarmos, de criarmos consenso, de discernirmos o que é o bem, o que é bom para além da sede de poder e dos interesses pessoais.
Nossas “sacrossantas” instituições estão metidas de cheio nessa disputa. Há uma guerra de narrativas, afetos em polos, entrando o tempo todo em rota de colisão. A discordância é sentida não como um convite à reflexão acerca da própria coerência ou da razoabilidade dos argumentos, mas como um risco à própria existência.
Sérgio Buarque de Holanda talvez nunca tenha feito tanto sentido. Aqui e acolá, quer-se levar vantagem em tudo; deseja-se obter ganhos com o mínimo esforço; há uma confusão persistente entre o público e o privado. Quando a Constituição Federal de 1988, que funciona para o país como o “Fiat lux” (Gn 1,3) de seu ordenamento, fala em “Estado Democrático de Direito”, o que se deseja resguardar é que nenhum poder pode ser arbitrário, regido por interesses pessoais, servilismo ou afetos. O poder vem do povo e deve ser exercido em favor dele. Passando da “aldeia” à “praça é nossa”, parece que o calor do momento está nos expondo a uma espécie de confusão mental. Estamos como - dito respeitosamente - a velha surda: quando se diz “Direito”, escuta-se: “hã, de direita?” ou “hã, dos meus direitos?”.
Há equívocos interpretativos, até compreensíveis no meio do povo. Nosso país é o curioso caso de uma prática que se digitalizou sem se alfabetizar. O problema é o tumulto no alto escalão. Estão brincando com nossos afetos. Sobra cacique dividindo a tribo.
Estejamos atentos. São jogos de poder. As massas se digladiam, trocam farpas e flechadas, servindo a forças que mudam de lado ao sabor da conveniência. Políticos, juízes, líderes religiosos, ao fim e ao cabo, não costumam ter inimigos, mas breves desafetos; nem amigos, mas interesses.
Se caciques, gurus, messias surgem e caem, isso se deve, antes que aos nossos interesses, às conveniências do tempo presente. Há muita gente de poder brincando com nossos medos e com nossas histórias. Proporíamos anarquia? Claro que não! Falando das autoridades de seu tempo, Jesus (Mt 23,1) alerta que é preciso estar atentos ao que as autoridades, no exercício de seu ofício, nos ensinam. Sem autoridade, ordenamento, leis, decretos, há o caos. O que é preciso, lembra Jesus, é não imitar suas ações, pois falam e não fazem.
Nossas instituições estão metidas de cheio nos piores males de nosso tempo. Que o poder e seus jogos não nos assustem. Juízes, sois deuses. No entanto, como todos os homens, morrereis (Sl 82,6-7). Ao fim e ao cabo, ninguém é imorrível, infalível, indefectível, insabatinável, imbrochável. Isso é uma questão de justiça. Ninguém nos iluda. O poder e o desejo de autopreservação não podem obscurecer o imperativo da ética e da responsabilidade. Precisamos de bom senso, de freios e de contrapesos. É bom que seja assim…
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
