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Padre Samuel Fidelis: 'Velha infância' • Padre Samuel Fidelis | Arquivo pessoal

Uma das grandes descobertas da vida adulta é que a realidade é sempre uma miragem. A coisa nunca é em si; vem sempre acompanhada do que “eu queria que fosse” ou de como “poderia ser”. Das nossas relações mais íntimas às mais formais, seja naquilo que a gente pensa serem nossos “valores” ou a “nação”, tudo passa por acordos, narrativas, fantasias...

Nestes tempos em que se debate se trans é ou não é, é lúcido pensar que, ao fim e ao cabo, estamos todos travestidos de papéis, posições, ornamentos.

Calma, leitor sensível! O texto não é sobre ideologia de gênero. Seja lá o que isso significa. Falamos aqui de ideologia num sentido mais amplo e cortante: a nossa. Sim, porque todos temos ideologias, fantasias, narrativas. E essa é a condição de possibilidade para pensar, ser, se relacionar.

Só pensamos a partir de perspectivas. Por mais que alguém tenha a pretensão de saber tudo, só sabe a partir de uma parte. Essa é a regra geral do conhecimento: áreas, campos, objetos específicos. Para um químico, por exemplo, a matéria é o que se dá a ver. É forma. Para um físico, em sentido diverso, a matéria é, antes, energia, ritmo. Pontos de vista...

Só somos (estamos) a partir de um lugar de fantasia. Pare e pense: quanto de nossas escolhas profissionais, de nossa aspiração por lugares e cargos, não é fruto de nossos traumas e fantasias? O jaleco, a farda, o terno, a túnica são o nosso modo travestido de brincar de ser gente! Ao fim e ao cabo, ninguém é tão ciente das causas da doença, tão correto como aparenta ser, tão disruptivo como quer vender, ou tão santo como costuma pregar.

E como nos relacionamos? Como amar alguém senão vendo-o como se fantasia? Isso no sentido de Dostoiévski, que diz que “amar uma pessoa significa vê-la como Deus a imagina”, mas também num sentido freudiano (mais cínico!). Ao fim e ao cabo, o amor que dedicamos aos filhos, ao casamento, ao trabalho não é sobre eles, mas sobre nós. O amor que se devota ao outro é sempre uma variação do afeto que cada um tem por si.

Todos nós, quando “amamos”, investimos libido na empresa, num romance, num “pastor” (num frei!), num partido - estamos numa grande espiral de fantasia. Todos, ao fim e ao cabo, somos crianças: amamos e ficcionamos a partir da nossa “velha infância”.

Todos nós, seja na empresa, num romance ou num partido, fabricamos fantasias... Todos somos meninos brincando de esconde-esconde, esperando desesperadamente que alguém ainda esteja procurando por nós. Isso explica muito, porque, via de regra, ora agimos de maneira rígida por medo de nossa própria gentileza, ora agimos de maneira frígida por medo de nossa própria seriedade.

Jesus sabia das coisas quando dizia: não há Reino, nem céu, para quem não se torna como criança, nem para quem as afasta (cf. Mt 18,3-4). Essa confusão toda, seja em Brasília ou aqui, é coisa de "homens" velhos com vícios e traumas de criança...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.