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O Papa Leão erra!

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Padre Samuel Fidelis • Padre Samuel Fidelis | Arquivo pessoal

Uma semana de troca de farpas. Nossos leitores mais perenes e antigos hão de celebrar: acertamos o nome do Sumo Pontífice. Previmos que o Papa Leão seria lançado ao circo. Dito e feito: as falas do Santo Padre, a respeito de que Jesus não escuta as orações daqueles que fazem guerra, atingiram em cheio Donald Trump. A carapuça serviu.

A resposta do presidente norte-americano foi, como lhe é próprio, aguerrida e imediata. Sobraram adjetivos, proferidos ad hominem: “fraco”, “terrível em política externa”. A resposta do Papa veio com solenidade e sutil ironia (um pouco por sua diplomacia, um pouco por ser virginiano): “não tenho medo de Trump”; “a mensagem da Igreja, a mensagem do Evangelho, a minha mensagem bem-aventurados os pacificadores”; “não encaro meu papel como sendo político”.

O rugido de Leão coaduna-se com a tradição de seus antecessores. De Bento XV, que em 1917 chamou a Primeira Guerra Mundial de “suicídio da Europa” e “massacre inútil”, passando por João Paulo II, que se opôs à Guerra do Iraque, até Francisco, o qual afirmou que “já não podemos pensar na guerra como solução”, há uma denúncia profética dos papas contra conflitos armamentistas que deixam atrás de si um rastro de destruição e de morte.

Trump e, depois, seu vice, J.D. Vance, conseguiram, surpreendentemente, com essa querela com o Papa, unir “esquerda” e “direita”. Isso não pela empatia ou por uma análise razoável da guerra no Irã, mas pelo absurdo tácito de questionar a autoridade moral óbvia de uma figura tão relevante quanto a de um Sumo Pontífice.

Não bastassem as sandices geopolíticas da Casa Branca, vimos nesta semana uma empreitada ainda mais absurda: a tentativa de dar aulas de moral e teologia ao Papa. A forma como Trump e seus asseclas misturam religião com a guerra contra o Irã aponta para um erro religioso que é, em igual proporção, um problema político: a noção do que  o conflito no Irã se constitui como uma guerra justa.

O que está em questão é, ao fim e ao cabo, a real necessidade e moralidade de mais esta guerra e, ainda, o que a fé cristã tem a ver com isso. E é aqui, seja-nos permitido dizer - espero que não com heresia -:  o Papa  erra! Ou, pelo menos, era quem faz uma dedução rasa do que ele afirma.  Leão XIV diz, em sua resposta a Trump: “não encaro meu papel como sendo político”. Sim, de fato o Papa  não é um candidato político, nos termos da disputa por voto, de uma  busca pelo convencimento das massas. Nem saberíamos dizer se, apenas por virtude ou também por vício, a Igreja não age, comumente, como uma democracia. A gente pode até tensionar o fato de que, não sendo um candidato político, o Sumo Pontífice é eleito por voto indireto, tornando-se, após sua eleição, um monarca absoluto não hereditário. Aliás, o último da Europa.

O fato é, Leão XIV foi eleito como o papa de número 266. Ele faz parte de uma cadeia ininterrupta que vai de pescadores e homens rudes, passando pelos mártires do circo de Nero, indo a líderes que mataram invocando a ira divina (Deus vult), chegando a ter membros compondo a fileira dos grandes santos...  O papa faz política. O papa deve  fazer política! Isso não apenas por ser o chefe de um Estado soberano, mas porque o Evangelho, da Graça e da Paz, que um papa deve fielmente anunciar, é político. Em última instância, Jesus, a Quem se submetem os papas, escolheu e indicou um lado político:  o de  quem promove  a paz (Mt 5,9);  o de quem mais sofre (Mt 5,4);   o dos pobres e do seu protagonismo (Lc 6,20); o de quem  tem fome e sede de justiça (Mt 5,6).

Se Deus é amor (caridade), “a política é uma forma elevada de caridade”. O papa, ao presidir na caridade tem atos políticos. Pensando no sentido clássico do que seja uma teoria política, em sua acepção mais genuína, os atos políticos visam à criação de estruturas sociais justas e fraternas para a promoção do bem comum.

Se pensamos a política como ciência, arte ou instância que versa sobre os valores e sobre  princípios que balizam o modo como a sociedade se estrutura, como tece relações e como é governada, o Evangelho, da Paz e da Graça, é eminentemente político.

A visão política do Reino indica, com veemência: que devemos amar para além dos juízos de gosto, das identificações nacionalistas ou de grupo (Lc 10,25-37); que crianças e os pequeninos devem ter lugar privilegiado (Mc 10,13-16); que o  critério da ação justa é dar de comer a quem tem fome e é de beber a quem tem sede (Mt 25,31-46); que entre nós não deve haver uma lógica de poder que desemboque em tirania, em abuso e em competição (Mt 20,25-28).

Fez bem aos papas, no fim da Idade Moderna, recordar que, via de regra, “guerras justas” são salvo-conduto para a tirania. Fará bem a Trump entender que ações violentas corrompem meios e fins. Faz bem a nós termos claro que a fé cristã pressupõe, sim, desde as bases, para além dos partidos, uma opção radicalmente política.

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.