A política como arte da composição

Mateus Simões surpreendeu ao fechar a aliança com a União Progressista, federação formada por União Brasil e PP, e formar uma chapa com Danilo de Castro como vice-governador. Foi o movimento político-eleitoral mais consistente até aqui. A maior federação partidária do país amplia a presença da chapa nos municípios, acrescenta força parlamentar e aproxima o governador de um dos articuladores mais experientes de Minas Gerais.
Alianças pertencem à própria natureza da política. A política existe porque pessoas e grupos possuem interesses, convicções e prioridades diferentes, ao passo que as regiões apresentam necessidades próprias. Opiniões distintas sempre haverá, e isso é essencialmente saudável em uma democracia consolidada. A Constituição, inclusive, reconhece o pluralismo político como um dos fundamentos da República, no artigo 1º, inciso V. A democracia convive com a diferença, organiza a disputa e permite a construção de objetivos comuns.
Mateus sabe que governar Minas nestes tempos complexos exige reunir os diferentes em torno de algo maior: o Estado de Minas Gerais. São 853 municípios, regiões com realidades econômicas e sociais muito distintas e demandas que não cabem no programa exclusivo de um partido.
Há os que insistem em tratar a gestão como substituta da política, é um equívoco que tão somente alimenta a arrogância tecnocrática. Sem articulação política, diálogo e propósito, o melhor plano técnico jamais sairá do papel; assim como sem capacidade administrativa, o melhor acordo político não melhora a vida de ninguém. Governar exige o equilíbrio dessas duas interfaces.
Eleições até podem ser vencidas com palavras de ordem e apelos popularescos, mas governos são avaliados pelas entregas.
Uma coisa é teorizar sobre o Estado no ambiente acadêmico. Outra é enfrentar o governo real. A reflexão oferece critérios, referências e capacidade crítica. O governo real obriga o governante a decidir diante de limites orçamentários, regras jurídicas, estruturas burocráticas, interesses conflitantes e necessidades urgentes. O palanque sempre termina e os problemas reais continuam.
Governar exige a coordenação de políticas públicas, planejamento, eficiência, seriedade no uso do dinheiro público e capacidade de execução. Exige gerar valor público, converter os recursos arrecadados em serviços e melhorar a vida das pessoas, como ensina o professor Mark Moore. A população vive as consequências das decisões e não as intenções de quem governa.
No melhor estilo de Juscelino Kubitschek, Mateus Simões apostou na ampliação. JK sustentou seu governo na aliança entre PSD e PTB, com João Goulart na vice-presidência. Roberto Campos desempenhou papel relevante na formulação do Plano de Metas e presidiu o então BNDE. Celso Furtado formulou a política de desenvolvimento do Nordeste e comandou a criação da Sudene. Os dois defendiam concepções distintas sobre o papel do Estado, o capital estrangeiro e os caminhos do desenvolvimento. Juscelino soube aproveitar competências diferentes sem exigir uniformidade ideológica.
Outro exemplo está na construção de Brasília. Juscelino reuniu a capacidade executiva de Israel Pinheiro, o urbanismo de Lúcio Costa e a arquitetura de Oscar Niemeyer. Escolhia pessoas capazes de contribuir para um projeto e mantinha o comando sobre sua execução. JK não formava clubes ideológicos. Formava equipes capazes de realizar.
Juscelino dialogava com setores da esquerda e da direita porque compreendia a diferença entre coerência e homogeneidade. Coerência exige direção, objetivos claros e liderança. Homogeneidade exige que todos pensem da mesma forma. A primeira fortalece um governo; a segunda empobrece suas possibilidades.
Danilo de Castro acrescenta à chapa experiência política e conhecimento administrativo. Foi secretário de Governo durante os doze anos das administrações de Aécio Neves e Antonio Anastasia e um dos grandes arquitetos políticos daquele ciclo. Conhece a Assembleia Legislativa, as lideranças municipais, as bancadas parlamentares e a diversidade regional de Minas Gerais. Conhece gestão e conhece política, combinação valiosa para qualquer governo.
Conheço Danilo de Castro há muitos anos. Durante o período em que fui prefeito de Itaguara, eu estava, em tese, em um campo de oposição ao governo de Aécio Neves. Nas diversas tratativas que mantive com o então secretário de Governo, fui sempre muito bem recebido. Construímos uma relação republicana e encaminhamos demandas importantes para o município.
A divergência partidária nunca contaminou a relação institucional. Naquelas reuniões, eu representava uma cidade, não uma legenda. Danilo tratou as demandas de Itaguara com espírito republicano, consciente de que o interesse da população não poderia ficar subordinado às conveniências partidárias.
Toda aliança eleitoral envolve cálculo político. Partidos existem para disputar o poder e governar. Desconsiderar esse dado pode produzir uma análise ingênua. O juízo sobre uma coalizão depende do programa que sustenta, da equipe que forma e dos resultados que entrega.
A União Progressista amplia a base política de Mateus Simões. Danilo acrescenta experiência e conhecimento do governo estadual. O passo seguinte é mobilizar essa força em torno de prioridades claras: equilíbrio fiscal, redução das desigualdades regionais, melhoria dos serviços públicos, infraestrutura e diversificação de uma economia ainda fortemente dependente da mineração.
Mateus Simões veio do Novo, preservou a aliança com Romeu Zema, filiou-se ao PSD e ampliou seu campo político. Manteve o vínculo com o governo do qual participou e foi além das fronteiras originais daquele grupo. Há inteligência politica nesse movimento.
Agora, o governador precisa converter a composição em programa, equipe e valor público. Fazer política é, muitas vezes, reunir os diferentes em torno de objetivos comuns e construir os meios para realizá-los.
Minas precisa de gestão, mas também precisa de política - somente ambos, em sintonia, serão capazes de produzir resultados concretos para nosso estado e nossa população.
Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br



