Itatiaia

Pai, simples José 

Por
Padre Samuel Fidelis • Padre Samuel Fidelis/Arquivo pessoal

Os homens estão meio perdidos. Essa é uma constatação real. Por mais que alguém diga que “sim” ou que “não”, já não há muita possibilidade de performar a masculinidade sem algum desconforto. Posturas, expressões e práticas que, no universo masculino, tinham um caráter quase inquestionável e sagrado hoje podem dar até cadeia. 

Há quem diga que a culpa é da “ideologia de gênero”. Sabe-se lá Deus o que isso realmente significa. Porque, se é fato que nossa cultura implodiu muito do que julgávamos serem os papéis e as responsabilidades do “homem”, por outro lado, o feminismo parece ter exposto os erros do machismo, mas não necessariamente ajudado a colocar alguma coisa no lugar. E talvez nem seja essa a sua função... 

O fato é que os questionamentos sobre o papel dos homens, a identidade masculina ou aquilo que cabe ao pai numa família causam um inegável desconforto. Lançando mão de uma analogia, antes se aprendia a ser “macho”. Macho, lembra o grande filósofo Clodovil, “mastiga abelha”. O desafio agora talvez seja outro: entender esse mal-estar como um convite ao parto do “homem”. 

Essa, inclusive, é uma boa provocação para o Dia dos Pais. Porque, se há uma coisa que o casamento e a paternidade dão à luz em um homem, é a necessidade de atualizar os lugares do “macho” e do “menino”. Menino e macho são fases do nascimento do homem. 

O homem nasce desse atravessamento desconfortável dos limites do macho. Cabe ao macho prover, conquistar. O ímpeto da conquista, quando conduzido pela virtude, pode levar ao heroísmo. O desejo de prover, levado ao seu polo positivo, ultrapassa a simples oferta de coisas e chega à capacidade de dar de si: tempo, atenção, presença. Até que se descubra a constância - e a consistência - de quem é capaz de sustentar. 

O homem nasce também da visita às dores do menino. A postura de um adulto é, muitas vezes, o raio-X - ou o sintoma - dos traumas e fantasmas da infância. Uma criança acuada pode desaguar num adulto que se ilude com a promessa redentora da força. Certos conflitos edípicos podem reaparecer na necessidade interminável de sedução e conquista. A experiência da falta de amor pode alimentar a sede insaciável de reconhecimento. Cenas de violência na infância podem ainda produzir um homem tão assustado com a possibilidade de repetir aquilo que sofreu que acaba paralisado diante do exercício necessário da função paterna, por medo do olhar de rejeição dos filhos. Dois estragos: o da violência que se repete e o da autoridade que, com medo de ferir, deixa de existir. 

Depois de Freud, há algo inevitavelmente desconfortável no papel de marido, na masculinidade e na paternidade. E, não obstante os riscos e os “acidentes na pista”, talvez essa seja uma boa contribuição da modernidade. Parece que, antes, deixávamos de fazer perguntas necessárias. Os “machos” talvez fossem, em algumas áreas, até mais viáveis. Mas a que custo? Da frustração desaguada na cama de outra? Das mágoas curtidas na cachaça do bar? Da impossibilidade de dizer justamente a quem mais precisava ouvir: “eu te amo”? 

Não saberíamos dizer se é um ensinamento exatamente moderno, mas certamente lúcido, aquele que encontramos numa figura bíblica: São José. 

Ele é um modelo de “homem”. E não apenas por causa do silêncio - o que já seria muita coisa, sobretudo para garantir o casamento. Todo bom marido sabe que parte do sucesso de um casamento vem da capacidade de ficar calado. Erro, aliás, não é uma palavra que combina com mulher. No máximo, ela sustenta uma tese que ainda não foi confirmada. 

José era um homem justo, mais do que “advogado”. Advogados se preocupam em sustentar teses. Juízes precisam conciliar deveres, direitos e circunstâncias com aquilo que, no tempo, vai se revelando como verdade. 

José não teme amar na desilusão. A Bíblia dá testemunho de que boa parte dos seus projetos deu errado - ou, ao menos, aconteceu de maneira muito diferente daquela que ele poderia ter planejado. O casamento começou com um mistério que ele não compreendia. O nascimento do filho aconteceu longe de casa. Depois vieram a fuga, o exílio, o retorno. José se mostra capaz de sustentar o que era preciso sem se iludir com a pretensão de ser suficiente. 

Talvez seja justamente isso o que se espera de um grande homem - e de um grande pai: não que seja “tudo”, mas que seja “todo” em tudo quanto faz. 

E, por fim, a simplicidade. Que não tem nada a ver com ser simplório. O simples é aquele que, para além do que lhe aconteça, repousa na verdade de sua própria pessoa. Não precisa performar força o tempo inteiro. Não precisa vencer todas as disputas. Não precisa provar continuamente que é homem. A humildade vence tudo com amor. 

Os homens estamos meio perdidos. José também precisou perder os próprios planos, as próprias certezas e talvez até a imagem que fazia de si. Perdeu-se de si para poder se encontrar... 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte