Aldemir Drummond | Entre o que importa e o que mobiliza: o desvio do debate político brasileiro

Queremos discursos para as redes sociais que confirmem nossas crenças e identidades ou queremos ações capazes de melhorar a qualidade de vida da população?

Maior parte dos candidatos constrói o discurso eleitoral com base em temas morais e não práticos

Diversas pesquisas de opinião revelam um dado que contrasta com o clima de conflito permanente que domina o debate público: a maioria da população brasileira concorda sobre o essencial. Educação de qualidade, acesso à saúde, segurança pública e redução das desigualdades figuram com frequência entre as principais prioridades do eleitorado, independentemente de renda, região ou preferência partidária. Não se trata de consensos absolutos, mas de convergências amplas o suficiente para orientar políticas públicas minimamente estáveis.

Ao mesmo tempo, pesquisas também apontam uma frustração generalizada com os resultados entregues pelo Estado. A percepção predominante é a de serviços públicos de baixa qualidade, distribuídos de forma desigual e operados por um Estado caro, ineficiente e frequentemente capturado por interesses privados. O brasileiro médio não rejeita políticas públicas; rejeita as que não funcionam. É um diagnóstico mais pragmático do que ideológico.

Apesar disso, a sensação dominante é a de que vivemos em uma sociedade profundamente polarizada. Parte importante dessa percepção foi sistematizada por estudos recentes e por livros como Brasil no Espelho, que mostram que a polarização brasileira não se organiza majoritariamente em torno de políticas públicas, mas sim de temas morais e culturais: costumes, religião, identidade, visões de mundo. Esses temas ativam emoções, pertencimentos e desconfianças profundas, produzindo o que a literatura chama de polarização afetiva, em que importa menos o que o outro propõe e mais quem ele é ou representa.

O efeito político disso é poderoso. Em um ambiente de frustração com as entregas do Estado, a desconfiança gerada por divergências morais transborda para outras dimensões. Mesmo quando há consenso sobre o que precisa melhorar, a identidade passa a importar mais do que o desempenho. Importa mais quem governa do que como governa. A política deixa de ser avaliada por resultados e passa a ser julgada por alinhamentos simbólicos.

Não surpreende, portanto, que boa parte dos candidatos nas eleições construa seus discursos prioritariamente em torno de temas morais. Trata-se de uma estratégia racional do ponto de vista eleitoral: temas culturais geram engajamento rápido, identificação emocional e lealdade. O problema é que esse atalho desvia o debate do núcleo das políticas públicas. Em consequência, elegemos representantes que frequentemente não apresentam propostas concretas para melhorar a educação, a saúde, a segurança ou a produtividade do gasto público. Saber “de que lado” alguém está torna-se mais relevante do que saber o que essa pessoa pretende fazer se for eleita.

O paradoxo é claro: mesmo quando um candidato apresenta propostas alinhadas ao consenso social, elas tendem a ser ignoradas se ele for percebido como pertencente ao “outro lado” do conflito moral. O debate público empobrece, a responsabilização desaparece e a democracia se afasta de sua função básica: transformar preferências sociais em políticas efetivas.

Talvez a pergunta central para 2026 não seja apenas em quem votar, mas o que esperamos do voto. Queremos discursos, frases de efeito e cortes para as redes sociais que confirmem nossas crenças e identidades? Ou queremos ações capazes de melhorar, de forma concreta, a qualidade de vida da maioria da população? Enquanto essa pergunta não for enfrentada pelo eleitor, o Brasil continuará concordando sobre o essencial, mas elegendo sem exigir o fundamental.

Aldemir Drummond - Professor na Fundação Dom Cabral e Coordenador da iniciativa Imagine Brasil

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Aldemir Drummond é professor e coordenador da iniciativa Imagine Brasil da FDC

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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