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Cultura e educação não se separam: que tal aproveitarmos isso?

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Festa junina • Mauricio Alves

Sempre que viajamos, as diferenças culturais são aspectos impossíveis de não notar. Diferentes sotaques, comidas típicas, modos de vestir, músicas, danças, expressões artísticas, cores, símbolos, artesanatos e formas de representar o mundo, fazem com que a identidade de cada cidade se manifeste de maneiras muito próprias. Muitas vezes, sabendo disso, organizamos viagens de férias justamente para conhecer festas do calendário cultural de um lugar: carnaval na Bahia ou em Olinda, réveillon no Rio de Janeiro, São João no Nordeste, feriados religiosos em cidades de Minas Gerais. As escolhas que fazemos também dizem sobre quem somos, nossa cultura, nossas preferências e nossa curiosidade de conhecer outras formas de viver.

Assim, aprendemos sobre lugares, pessoas, história, memória, identidade. E tudo isso, evidentemente, pode ser tema de estudo na escola. O que os professores não precisam fazer é separar conteúdos e cultura popular em momentos distintos, separando o interesse dos estudantes do conteúdo das aulas Por que não planejar as finanças da festa junina para trabalhar operações matemáticas? Ou organizar a sequência das apresentações na quadra, considerando o tempo das músicas escolhidas por cada turma? Quanto de tecido é necessário para decorar as barracas do arraial junino? Como criar os cartazes, bandeirinhas e elementos visuais da festa, pesquisando suas referências estéticas e seus significados históricos? De que maneira as cores, formas e imagens ajudam a construir a atmosfera de uma manifestação popular? Quantas fatias de bolo ou docinhos são necessários fazer, considerando o número de alunos da turma de formandos e a duração da festa? Onde surgiu a quadrilha como ritmo musical? Como organizar a coreografia para combinar passos tradicionais e aquela dancinha da moda que os adolescentes curtiram do craque de futebol?

A escola da atualidade está convidada a fazer diferente, a seguir a política de Educação Integral e considerar todas as dimensões humanas: intelectual, cultural, física, emocional e social, em todas as propostas. Para isso, educação e cultura não podem ser separadas. Em propostas como as que acabo de apresentar, estudantes poderiam conhecer obras de artistas como Volpi, Maria Auxiliadora[1], xilogravuras, músicas regionais e tantos outros repertórios culturais, enquanto desenvolvem habilidades ao planejar, criar e montar uma festa.

Guardo com saudade, momentos meus como professora. Uma lembrança que me emociona é a das crianças da Educação Infantil pesquisando e construindo seus blocos de carnaval. Ao lado das professoras, conheceram diferentes tradições, ouviram histórias, apreciaram manifestações culturais e transformaram tudo isso em criação. Aprenderam sobre cultura fazendo cultura e se divertiram muito desfilando em blocos ao redor da escola.

Já coordenadora pedagógica, lembro de mobilizar estudantes bailarinas, do Ensino Médio, a dançar de sapatilhas na abertura de campeonato de futebol  com as arquibancadas lotadas. Em outra situação com os jovens, lembro  que  não precisei proibir o funk misturado à quadrilha dos formandos; bastou combinar alguns limites para que a apresentação ganhasse ainda mais harmonia, sem perder a identidade dos estudantes. Ballet com futebol ou funk com quadrilha, tudo pode ser conciliado quando se deseja romper preconceitos, resistências e ampliar a compreensão e apreciação da diversidade cultural brasileira.

Enfim, arte e cultura são formas de conhecer outras pessoas e o mundo, de registrar memórias, expressar identidades e produzir sentidos. Tudo isso também é educação. Separar essas experiências do currículo até é possível, mas a pergunta que fica é: por que fazer isso?

Felizmente, há muitas escolas brasileiras mostrando que esse caminho já é possível. São experiências inspiradoras que revelam o quanto ainda podemos inovar quando reconhecemos que aprender também é viver a cultura do território e das pessoas que fazem parte dele.

[1] Para conhecer mais Maria Auxiliadora: https://masp.org.br/exposicoes/maria-auxiliadora-da-silva-vida-cotidiana-pintura-e-resistencia

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Alcielle é diretora de educação do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É doutora em Psicologia da Educação e mestre em Educação: Formação de Formadores