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Aeroporto Carlos Prates: um ano após fechamento, moradores se dividem entre alívio e incertezas para a região

Em 1º de abril de 2023, equipamento foi totalmente interditado; agora, prefeitura e governo federal discutem criação de um novo bairro na região Noroeste de Belo Horizonte

Há um ano, o Aeroporto Carlos Prates, na região Noroeste de Belo Horizonte, deixava de funcionar. Palco de diversos acidentes com aviões de pequeno porte, o equipamento foi desativado com a mobilização de moradores após mais um acidente: no dia 11 de março, um avião de pequeno porte atingiu duas casas no bairro Jardim Montanhês, vizinho ao aeródromo. O piloto morreu na queda e a filha dele, que também estava a bordo, ficou ferida.

Levou cerca de 20 dias até que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) determinasse a suspensão das atividades no local. Em seguida, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) começou a negociar com o governo federal uma nova destinação para o local. Um ano depois, 17% do total do terreno já foi passado para o município, que irá revitalizar um parque que fica na região. O restante ainda é alvo de negociações entre os Poderes Executivo municipal e federal.

Relembre: Veja fotos do avião que caiu em casas próximo ao aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte

Enquanto isso, moradores vizinhos ao local convivem com incertezas. De um lado, há falta de clareza sobre a destinação da área - que deve passar a abrigar, no futuro, equipamentos públicos, como escola e posto de saúde, casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida, e novas habitações, que darão origem a um novo bairro na capital mineira. De outro, há o alívio pelo fim dos acidentes que marcaram moradores da região.

Questionado se o local está mais tranquilo neste último ano, desde o fechamento das atividades do aeroporto, o morador Rean Souza da Silva, de 28 anos, e que mora praticamente na portaria principal de onde era o aeroporto, o fechamento deixou o bairro mais vazio e afetou o comércio local.

“Tranquilo é um conceito relativo, né? Se, por tranquilo, você quer dizer mais vazio, com certeza. Mas eu também conheço pessoas aqui da região que tinham o seu negócio quase todo voltado para o público do aeroporto. Piloto, funcionários da Infraero, enfim, e que viram seu negócio basicamente acabar por conta do fechamento do aeroporto. Eu entendo que é uma preocupação, mas é importante a gente saber o que realmente será feito com o espaço. Você fechar ele com a justificativa de que não é seguro, mas não faz nada em troca, nada no lugar, não oferece de novo um serviço ao público com esse espaço que agora está vazio e pode ser agora várias outras coisas ainda piores para a população. Isso é complicado”, critica.

A administradora Vitória Costa, de 29 anos, mora lá desde que nasceu e diz que o barulho de aviões foi substituído por outro som incômodo: o de tiros.

“Uma coisa que eu percebi bastante foi o barulho. Antes, a gente ficava, entre aspas, incomodado com o barulho dos aviões. Agora, a gente escuta constantemente barulho de tiro. Parece que estão usando espaço para treinamento e desenvolvimento da Guarda Municipal, mas o barulho de tiro durante a semana é constante”, relata.

Para Vitória, o projeto para a utilização do terreno do aeroporto deve privilegiar os moradores do local. “Eu acho que tem que ser um espaço mais voltado para o público para a gente porque, por exemplo, antigamente, quando era o aeroporto, a gente tinha acesso ao espaço”, recorda.

Moradores recordam acidentes

Para que vive no bairro Jardim Montanhês, na cabeça da pista do aeroporto, fica a sensação de alívio. Morador da rua Morro das Graças, Márcio Antônio, de 51 anos, relembra que um avião caiu ao lado de sua casa e disse ter ficado satisfeito com a decisão da Anac de fechar o equipamento.

“Satisfeito, né? Que aí caía muito avião. Problema de barulho sempre incomodando. Já caiu aí mais para a frente, dentro de casa... agora, estou satisfeito que vai ter um lazer para as crianças. Vão construir coisas melhores que o aeroporto”, diz, sobre os projetos previstos para a região.

“Já vi muita coisa: avião caindo, ali antes entrava quem queria, usuários de drogas. Estava tudo muito atrapalhado. Agora, está bem organizadinho, tem vigilância da Guarda Municipal”, completa.

Walter Bueno de Souza, de 62 anos, viveu ainda mais de perto a tragédia dos acidentes no aeroporto Carlos Prates. Em março do ano passado, a aeronave que decolou de lá, caiu dentro de sua casa. Por sorte, ele não estava no local no momento.

“A gente já não tem mais aquele medo. Convivemos com esse incidente durante muito tempo. Já caiu aqui, ali, na rua Minerva, então, para a gente, foi um alívio”, afirma.

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Sem prazo certo

Neste momento, parte do terreno do antigo aeroporto Carlos Prates passam por obras de revitalização de um parque. Há perspectiva e negociações entre a prefeitura e o governo federal para a construção de um novo bairro, mas ainda não há prazo para essas obras. A data limite é de agosto para que ambas as partes possam fechar um projeto.

“Neste momento, ainda é muito precoce a gente falar em prazos de implementação. É lógico que, se dependesse só da vontade, a gente começaria amanhã, mas não é isso. A gente tem todo um rito, tanto técnico quanto legal para a gente cumprir”, explica a assessora especial da Secretaria Municipal de Governo, Lídia Vasconcelos.

Ela confirma que até agosto a prefeitura deve concluir um projeto qualificado que possa guiar a implementação dos novos empreendimentos. "[Temos que] ver qual é a modelagem de contratação, se vai ser via Parceria Público-Privada, se vai ser via consórcio urbanístico. Ainda não podemos fazer esse tipo de afirmativa”, comenta.

De acordo com Lígia, o projeto inicial da prefeitura prevê a construção de 4,5 mil moradias, mas isso dependerá da continuidade das conversas com o governo federal.

Aeroporto para quem precisa de aeroporto

Já o representante da Associação Voa Prates, Estevão Velasquez diz que 70% dos empregos que era gerados por conta do Aeroporto Carlos Prates foram perdidos e apenas uma das escolas de formação de pilotos conseguiu se alocar em outro local, no caso, o Aeroporto da Pampulha. Ele também ressalta que as forças de segurança perderam espaço de treinamento e a ligação aérea da capital mineira com o interior, via Carlos Prates, foi praticamente perdida.

“A gente fez todos esses alertas. Se pegarem o que a gente vem falando há cinco anos e alertando, você vai ver que, em um ano, tudo se cumpriu. A gente não defende nada além do retorno das atividades do aeroporto”, afirma, em relação às propostas para a destinação da área.

Ainda segundo Velásquez, a transferência de parte das atividades do Carlos Prates saturou o funcionamento do aeroporto da Pampulha, o que também traz riscos.

“Há muita dificuldade de operar. A gente fica tendo que competir com avião pequeno de instrução, por exemplo. Às vezes, acontece alguma coisa e [a aeronave] fica completamente sem ter para onde ir. Quantas e quantas vezes o aeroporto ficou impraticável e com 10, 15 aviões ao redor, sem terem para onde ir? Ou seja, isso aumenta os riscos”, completa.

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.
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